SOBRE A MORTE DA PEQUENA JOANA.


Setembro 24, 2004

SOBRE A PENA DE TALIÃO.

Aqui há uns dias atrás, aquando da notícia do desaparecimento da pequena Joana, na região algarvia, o nosso velho colega e amigo Henrique perguntava-se se para estes casos não se justificaria a pena de morte.
Na altura supunha-se que a criança tinha sido raptada e portanto subtraída ao convívio e ao amor dos seus. Posteriormente aventou-se a hipótese da pequena ter sido "vendida" para adopção a um casal de alemães.
Afinal a tremenda e horrorosa verdade parece ter vindo à tona: A rapariguinha de oito anos foi alegadamente morta à pancada pela própria mãe e por um tio por se ter negado a dar-lhes uns poucos Euros que tinha poupado.
Esta história é demasiado horrorosa e macabra para que possa sequer ser concebida por uma pessoa medianamente normal.
Estas coisas deveriam ser impossíveis de acontecer!
Quando o Henrique se interrogava sobre a hipótese de existir pena de morte em casos de tão grande barbaridade, exercidos sobre inocentes sem hipótese de defesa, eu respondi que era definitivamente contra a pena de morte!
Contra a pena de morte sim, mas não contra a bíblica pena de Talião e concluía o meu pensamento dizendo que se alguém fizesse mal a um dos meus, quem mataria era eu e depois entregar-me-ia às autoridades para que comigo fizessem o que entendessem, pois a minha missão estaria cumprida.
De facto considero que existem coisas que não podemos assépticamente delegar na justiça para que a nossa consciência possa ser apaziguada a coberto de uma qualquer legislação, e que fazer justiça é por vezes afrontar desasombradamente as leis, arcando com todas as consequências que daí possam advir.
Pois é! mas até nisso existem os desafortunados, que tal como a pequena Joana jamais terão quem os defenda, quem corra verdadeiros riscos por eles. Alguém que sintam que estaria disposto a dar a vida por eles, tal como eu estaria disposto a dar por qualquer das minhas filhas ou dos meus netos. Pelo contrário, estas pequenas criaturas tristes estão condenadas a ser vítimas de quem as devia defender contra tudo e contra todos.
É demasiado revoltante!
Não há pena de morte no nosso país, mas se estes monstros forem realmente culpados e encarcerados numa prisão, talvez uma discreta subscrição pública pudesse reunir o pecúlio suficiente para lhes pôr a cabeça a prémio dentro do presídio. Quem sabe quanto tempo sobreviveriam? Provavelmente mais do que aquele que mereceriam!

Publicado por JM - 05:37 PM


Setembro 30, 2004

DOU A MÃO À PALMATÓRIA!

Acerca do post anteriormente colocado, resultado de uma raiva surda e incontida, sou obrigado a dar a mão à palmatória e reformular substancialmente as ideias ali expressas.
Mal ou bem, e aí não faço concessões, reservar-me-ei sempre o direito de fazer a "minha" justiça, como todas as consequências que isso possa acarretar, se alguém, em algum dia, se lembrar de atacar sériamente a minha gente.
Poderá não ser políticamente correcto, poderá ser o indício de um regresso à barbárie até, mas a verdade é que quem faça sofrer os meus faz acordar o bárbaro e o insano que jaz reprimido dentro de mim, bem como dentro de todos nós, não tenhamos quaisquer ilusões sobre este assunto.
Onde eu acho que me excedi, e por isso me desculpo, foi ao tentar passar a mensagem de que todos teríamos sempre o direito de puxar para nós a administração da justiça. Claro que nas circunstâncias presentes não acredito minímamente na nossa justiça, na sua eficiência ou no seu expediente, o que inevitávelmente me levou a excessos
No entanto, certos comentários deixados no post anterior ajudaram a chamar-me à razão: De facto Cristo ensinou-nos o perdão por muito que nos seja difícil concedê-lo e acho um nobre objectivo que deveremos perseguir, mesmo que nos pareça muito distante.
Continuo a sentir uma pena infinita de uma criança sofredora às mãos de quem teria a obrigação de a proteger. À medida que os "media" vão vasculhando aquelas vidas miseráveis, detalhes do sofrimento calado e conformado da pequena Joana, criam em mim um profundo sentimento de tristeza pela sua desafortunada vida e de revolta pela manifesta impotência de se defender.
De uma forma sincera, e tendo Cristo dito "deixai vir a mim as crianças", espero que neste momento a pequena Joana tenha finalmente encontrado a paz que não lhe foi permitida em vida.
A nossa miserável justiça, com os pratos da balança inequívocamente desiquilibrados, com um olho a espreitar maliciosamente através da tradicional venda e empunhando uma espada tão embotada que parece um pau-de-vassoura, lá haverá de cumprir a sua função: Aqueles monstros irão eventualmente ser condenados, "pagarão a sua dívida à sociedade", como eufemísticamente apelidam o cumprimento de pena, o caso fica arrumado e a sociedade suspirará de alívio com a profunda convicção de que as instituições funcionaram.
Nas brumas do esquecimento ficarão decerto o sofrimento e maus tratos de que uma criança foi vítima, de tal forma brutais que nenhuma justiça humana poderá alguma vez reparar.

Publicado por JM - 03:26 PM |



Publicado por jmeq em 07:57 PM

Maçonaria e Igreja:


o equívoco de D. José Policarpo Assinalando o início da Quaresma, o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, difundiu uma Nota Pastoral sobre “A Páscoa da Eucaristia”. Nessa Nota, Sua Eminência desce a fazer uma referência brusca àquilo que designa genericamente por “Maçonaria”: segundo D. José, “um católico, consciente da sua fé e que celebra a Eucaristia, não pode ser mação”. O pretexto tomado por Sua Eminência para se pronunciar sobre a Ordem Maçónica foi a recente realização, numa das capelas mortuárias da Basílica da Estrela, em Lisboa, de uma cerimónia, descrita na Imprensa como “ritual maçónico”, em honra do falecido presidente do Tribunal Constitucional, Luís Nunes de Almeida – cerimónia efectuada sob a égide de uma velha instituição civil, de raiz anti-clerical, denominada Grémio Lusitano, sob a qual opera uma organização que se reclama dos mais altos valores maçónicos: o Grande Oriente Lusitano. D. José considerou a realização de tal “ritual” uma “iniciativa imprudente e indevida”; e, neste aspecto, não seremos nós a apreciar aqui e agora as suas razões. Pouco importa, porém, o pretexto: a querela entre Grémio e Patriarcado, surgindo como uma disputa territorial enunciada no domínio do litúrgico, é muito menos importante do que as questões de princípio, sérias e profundas, que a Nota Pastoral suscita. Evitando qualquer polémica sobre a escassa solidez historiográfica da Nota de D. José Policarpo, impõe-se em todo o caso que Sua Eminência Reverendíssima tenha acesso ao mais elementar esclarecimento sobre a instituição a que se refere quando fala de “Maçonaria”. Afirma D. José Policarpo que “é longa e atribulada” a história “das relações da Maçonaria com a Igreja durante os últimos três séculos”. Uma afirmação tão genérica requereria, em circunstâncias normais, uma precisão focalizadora. Não a tendo feito o Senhor Cardeal Patriarca, é forçoso que a façamos nós no início desta reflexão: ao escrever “a Igreja”, Sua Eminência refere-se – enunciemo-lo com clareza – à Igreja Católica Apostólica Romana, um dos grandes ramos da Fé Cristã; e, quando diz “a Maçonaria”, só pode referir-se às organizações que, embora usando um vocabulário próprio das Obediências Maçónicas regulares, pelo contrário se tornaram célebres pelo seu anti-clericalismo e irreligiosidade, sobretudo em França e em Itália, mas também em Portugal – a chamada “Maçonaria Latina”. Este equívoco estrutural, sendo aliás comum entre pessoas menos informadas, aconselha a que se estabeleçam com rigor os limites conceptuais de organizações que, usando palavras e designações iguais ou semelhantes, visam afinal fins tão diversos. A Maçonaria, tal como hoje a conhecemos historicamente, agregou a si tradições e práticas especulativas que remontam ao Antigo Egipto, à Jerusalém do tempo da construção do Templo, às Cruzadas, à edificação religiosa medieval; por isso usa instrumentos simbólicos identificáveis com todos estes aspectos, bem visíveis, por exemplo, nas reflexões maçónicas sobre a morte e a vida perene, na forte estruturante hebraica das suas máximas e até dos seus ritos, na alegoria da “construção do Templo” e na depuração que emula a cavalaria espiritual de base e expressão cristã. A moderna Maçonaria teve o seu berço em Inglaterra, no início do século XVIII: logo a partir de 1717 se estruturou como organização, elaborou e fixou os seus textos teóricos fundacionais e passou a tutelar a “regularidade” – isto é, a “reconhecer” ou a “não reconhecer” as potências maçónicas que, um pouco por todo o mundo, foram nascendo e buscando certificação. O poder de aceitar ou não como “regular” uma obediência maçónica é administrado com recurso a dois textos “doutrinários” basilares: as Constituições de Anderson (de que se fez guardiã, em 1723, a loja-mãe da Maçonaria Universal, a Grande Loja Unida de Inglaterra), e os Landmarks (o corpus normativo dos maçons fundadores). Assim, são aceites como “regulares” as potências que respeitam as Constituições e os Landmarks; e são consideradas “não regulares” ou “irregulares” as organizações que, embora reclamando-se da Maçonaria, enjeitam as Constituições ou os Landmarks, no todo ou em parte. E que dizem esses textos capitais? Dos seis artigos constitucionais da Maçonaria, o primeiro é dedicado a “Deus e Religião”. Diz, textualmente: “Um maçon obriga-se a respeitar a lei moral; e, se ele entender correctamente a Arte [maçónica], nunca será um estúpido ateu ou um libertino irreligioso”. Este ponto, que surge como a primeira pedra da construção espiritual dos maçons regulares, é apenas indicativo da opção estrutural da Ordem Maçónica, claramente desenvolvida nos Landmarks. Ao longo das suas 25 definições normativas, os Landmarks estipulam “que todo o maçon há-de crer na existência de Deus como Grande Arquitecto do Universo” e “na ressurreição e numa vida futura”; e que, em consequência, “um livro da Lei de Deus deve constituir parte indispensável do equipamento de uma Loja”. Tendo subsistido, ainda assim, ao longo dos anos, dúvidas sobre “reconhecimentos” e “não reconhecimentos” de potências nascentes, a Grande Loja Unida de Inglaterra (actuando sempre como loja-mãe da Maçonaria Universal) reiterou de forma inequívoca, em 1929, “as condições nos termos das quais podia reconhecer a regularidade de uma Grande Loja estrangeira [...], estabelecendo assim um padrão universal para a atribuição da Regularidade Maçónica”. Aí de novo se requer “a crença no Grande Arquitecto do Universo e na Sua vontade revelada como condição essencial para a admissão de membros”. E aí, também, se institui “que todos os juramentos sejam prestados sobre o livro da Lei Sagrada, como forma de ligar irrevogavelmente a consciência do iniciado à transcendência da Revelação Divina”. Na sua linguagem simbólica, os maçons regulares de todo o mundo declaram trabalhar “à glória do Grande Arquitecto do Universo”, praticando os seus rituais sobre uma gradação de alegorias bíblicas, de ensinamentos da história do Povo de Deus e de reflexões sobre a harmonia da construção divina. Por tudo isto, o volume da Lei Sagrada é exposto no início das suas sessões e encerrado quando elas terminam – para que a busca da Luz tenha um princípio e uma ordem. Um princípio ordenador do caos: na religião dos nossos pais, damos-lhe o esperançoso nome de Deus. No seu país de origem (e, depois, na generalidade dos países onde se estabeleceu), a Maçonaria afirmou desde o início uma forte vinculação aos valores concretos do cristianismo. A Grande Loja Unida e a Igreja de Inglaterra, nas suas distintas vocações como ordem filosófica e escola espiritual (no primeiro caso) e como instituição viva da Fé Cristã (no segundo caso), têm mantido nos últimos séculos uma saudável convivência, sendo muitos os sacerdotes e dignitários eclesiais que se orgulham da sua condição simultânea de obreiros maçons. E de ambas instituições é a Coroa inglesa, através de membros designados da Casa Real, simbolicamente protectora e patrona, expressando-o em actos públicos e a ambas honrando como obras de bem que são, nos seus diversos domínios e naturezas. Implantando-se um pouco por todo o mundo, a partir do segundo quartel do século XVIII, a Maçonaria transportou consigo os princípios e as regras tradicionais da Regularidade, ainda hoje preservados e lembrados ritualmente, com as mesmas palavras e os mesmos gestos dos primeiros dias. Na Europa Continental (com relevo inicial para a Alemanha e a França), a Ordem Maçónica estabeleceu-se como instituto iniciático de busca do aperfeiçoamento espiritual, fazendo multiplicar as suas Lojas no respeito estrito dos Landmarks. Na segunda metade do século XIX, algumas obediências maçónicas europeias, lideradas pelos jacobinos franceses, renegaram as Constituições (de que pretendiam fazer uma “interpretação livre” e “moderna”) e os Landmarks (que consideraram “obsoletos”). Pequenas “bolsas” de “maçons liberais” constituíram-se então em França, Itália, Bélgica, auto-excluindo-se da Regularidade, passando a combater a Igreja Católica em particular e a religiosidade em geral, aliando-se às pugnas profanas da política partidária e às campanhas mais extremas, pegando em armas e afastando-se de tudo o que é o ensinamento maçónico. Não obstante, a grande maioria das Lojas manteve-se na Regularidade, mesmo nos países onde simultaneamente brotava aquilo que os historiadores maçónicos designaram por “Maçonaria Latina”. Ao longo de todo o século XIX, pelo seu lado, a Maçonaria Regular radicou-se solidamente na generalidade da Europa e ramificou-se no Continente Americano. Aí, uma vasta rede de Lojas e de obreiros atravessa a quadrícula dos Estados Unidos, do Canadá, do Brasil e da totalidade da América hispânica, nisto se contando metade do total mundial dos obreiros maçons. E até na mais remota destas Lojas se trabalha sempre “à glória do Grande Arquitecto do Universo”, com o volume da Lei Sagrada aberto e os corações voltados para o Alto. Este carácter espiritual da Maçonaria (que em alguns dos seus regimes, como o Rito Escocês Rectificado, assume características inequivocamente crísticas) encontra-se, pois, inteiramente preservado: mais de noventa por cento dos homens que se intitulam maçons são, de facto, reconhecidos pelos seus irmãos. A questão do “reconhecimento” é de importância capital para os maçons. Nos seus rituais, à pergunta “És maçon?” respondem, invariavelmente: “Os meus irmãos reconhecem-me como tal”. Sem o reconhecimento dos irmãos, sem a ligação ao vínculo tradicional, sem a transmissão “regular” da palavra de mestre a discípulo, a Maçonaria desligar-se-ia da sua essência. Esta classe de requisito é, aliás, comum à generalidade das ordens que buscam o aperfeiçoamento espiritual. Na história da própria Igreja Católica se encontram inúmeros exemplos de derivas e dissidências que, mesmo usando os nomes e os gestos da Casa de Deus, não puderam obter “reconhecimento”; e, apesar delas, e por vezes contra elas, os católicos mantiveram a sua identidade estrutural, ganhando o direito de não serem confundidos com quem se desviara do seu caminho. Fraternidade de natureza iniciática e escola de conhecimento simbólico, a Maçonaria visa o aperfeiçoamento do homem (que assim se assume como pedreiro da sua própria edificação interior). Usa a simbologia iniciática dos mestres construtores dos templos medievais como meio de transmitir conhecimentos, reflexões e divisas. Tem, por natureza constitutiva, um compromisso de aspiração à harmonia divina. Como podia, então, esta Ordem Maçónica ter com a Fé Cristã alguma dissenção, algum atrito, alguma querela? E, no entanto, D. José tem razão, à sua maneira, quando diz que entre “a Igreja” e “a Maçonaria” a relação foi, ao longo dos séculos, “atribulada”, envolvendo de parte a parte “ataques” e “condenações”, “anti-clericalismo” e “penas de excomunhão”. Seria, porém, necessário acrescentar que Sua Eminência se refere, exclusivamente, à secular e azeda divergência que opõe a Igreja Católica Romana às práticas públicas da chamada “Maçonaria Latina”, aí abarcando o seu ramo português, o Grémio Lusitano/Grande Oriente Lusitano. O Senhor Cardeal Patriarca reconhece que tudo isto “tem de ser situado nas grandes transformações culturais e socio-políticas desse período”; e admite que “conceitos, então polémicos, como o da liberdade de consciência e de tolerância, são hoje aceites pela própria Igreja”. Seria curial, não obstante, traçar rapidamente o percurso da Maçonaria em Portugal.. Começemos por esclarecer que hoje, no nosso país, uma só potência é reconhecida pela Maçonaria Regular: a Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal (GLLP/GLRP), criada em Lisboa em 1990. O Grande Oriente Lusitano (GOL), a que o Senhor Cardeal Patriarca parece referir-se, equivocadamente, como “a Maçonaria”, não se encontra reconhecido como potência maçónica “regular”, filiando-se historicamente na corrente jacobina que no século XIX dissidiu da loja-mãe e dos Landmarks. A confusão entre o Grande Oriente Lusitano e “a Maçonaria”, em geral, advém do facto de, durante mais de cem anos, não ter operado em Portugal qualquer Ordem Maçónica reconhecida pela Regularidade. Durante esse enorme lapso, o Grande Oriente foi a única organização portuguesa a reclamar-se dos valores éticos da Maçonaria – praticando, apesar da sua “irregularidade”, rituais semelhantes ou iguais aos dos maçons regulares, embora sem a obrigatoriedade de aceitação de um princípio ordenador do caos e dispensando-se o uso do livro da Lei Sagrada. Sem prejuízo de sempre ter mantido uma louvável actividade de socorro social, o GOL acentuou o seu afastamento em relação aos Landmarks a partir da última década do século XIX. O Grande Oriente enveredou então, abertamente, pela intervenção na vida profana, tomando partido na política e adoptando o mais radical dos anti-clericalismos, fomentando revoltas civis e militares e permitindo que no seu seio germinassem e florescessem organizações de “acção directa”, algumas delas armadas para matar. Porém, nem sempre assim fora a Maçonaria em Portugal. A primeira referência a uma Loja maçónica constituída em Portugal remonta a 1728. Tê-la-ia fundado o inglês William Dugood – mas o seu registo desvaneceu-se. Em 17 de Abril de 1735, “um grupo de irmãos” britânicos residentes em Lisboa pede ao Grão-Mestre da Grande Loja de Inglaterra, Lord Weymouth, que uma “deputation” (delegação) lhes fosse concedida “para a constituição de uma Loja regular”. A “deputation” foi concedida, criando-se uma Grande Loja Provincial (a “Loja dos Herejes Mercantes”, como ficou referenciada nos tristes arquivos do Santo Ofício). George Graham, mais conhecido como Lord Forrester, esteve presente na primeira sessão dessa Loja. Outras houve, neste período: a Casa Real dos Pedreiros Livres da Lusitânia, constituída predominantemente por católicos irlandeses e animada pelo matemático George Gordon; e a importante Loja do suíço-inglês John Coustos, de cujo processo e tortura na Inquisição portuguesa correu voz na Europa, sendo libertado por intercessão do Soberano inglês. Ao longo de todo o século XVIII (com avanços no período de Pombal e recuos após a morte do Rei D. José), inúmeras Lojas trabalharam em Portugal, aberta ou encobertamente, com grande concurso de militares, marinheiros e comerciantes cristãos, ingleses e portugueses; e de abundante lote de clérigos, nacionais e estrangeiros, seculares e professos. Mas só em Março de 1802 os maçons portugueses enviam a Londres o diplomata e polígrafo Hipólito José da Costa [Furtado de Mendonça], com a missão de “pedir autoridade regular para praticar os ritos da Ordem sob a divisa e a protecção Inglesa”. Em 12 de Maio, um protocolo é assinado por Hipólito e pelo Grande Tesoureiro da Grande Loja de Inglaterra, pelo qual fica “acordado que, mantendo-se as Lojas portuguesas conformes às antigas Constituições da Ordem, lhes é dado o poder de terem representação na Grande Loja de Inglaterra”, com valor de reciprocidade. A prisão de Hipólito, às mãos da Inquisição, ao regressar a Lisboa, e o consequente extravio da patente que ele obtivera para esta Grande Loja portuguesa, não prejudicaram a validade do protocolo assinado em Londres. Em 1804, esta Grande Loja adoptou a designação de Grande Oriente (sendo as duas expressões totalmente equivalentes no dicionário maçónico). Quarenta anos depois, contudo, a Maçonaria pulverizara-se em “tendências”. Em 1845 havia já 9 Grandes Lojas, tentando congregar dezenas de “sensibilidades” – e a “regularidade” obtida por Hipólito dissipara-se no complexo de facções e dissidências. Só com a constituição do Grande Oriente Lusitano Unido (GOLU), em 1869, englobando a generalidade das Lojas, Grandes Lojas, Grandes Orientes e Corpos Rituais desavindos, foi possível falar de uma organização unificada. Mas ainda assim faltava-lhe o “reconhecimento” da casa-mãe da Maçonaria moderna, a Grande Loja Unida de Inglaterra: a tão desejada “regularidade maçónica”. Esta situação de “não reconhecimento” do GOL manteve-se, pelas razões já apontadas e por persistente deliberação da loja-mãe inglesa, até aos nossos dias – estabelecendo o Grande Oriente relações obedienciais apenas com as outras escassas potências que igualmente se mantiveram na esfera da “Maçonaria Latina”. Em 1985, por fim, um grupo de membros do Grande Oriente Lusitano declarou uma dissidência, propugnando um regresso à Regularidade maçónica e à via espiritual. Não a obtendo no interior, abandonou o GOL e, sob o patrocínio inicial da Grande Loja Nacional de França, logo secundado pela Grande Loja Unida de Inglaterra, constituíu uma primeira Loja regular em território português, que em 1990 deu origem à Grande Loja Regular – a primeira potência maçónica portuguesa a ser universalmente reconhecida desde meados do século XIX. Seria então a esta Maçonaria, espiritual e deísta, que poderia referir-se a Nota Pastoral do Senhor Cardeal Patriarca? Dir-se-ia que, com toda a verosimilhança, Sua Eminência visava antes organizações de índole bem diversa, retidas no imaginário popular e na tradição oral da Igreja Católica, justa ou injustamente, como obras exclusivas de jacobinos e ateus, “mata-frades” e carbonários. Ainda concedendo que assim fosse, nada aconselharia o uso genérico da expressão “a Maçonaria” para designar, afinal, uma organização não regular, cujos fins predominantemente profanos se encontram expostos, com todas as letras, nas obras publicadas pelos seus próprios dirigentes, panegiristas e divulgadores, de Borges Graínha a Carlos Ferrão, passando por Magalhães Lima e António Maria da Silva – para só referir alguns dos activistas “históricos” já falecidos. E os seus fins não são os fins da Maçonaria Regular Universal. Este lamentável equívoco fica claramente patenteado quando o Senhor Cardeal Patriarca, na sua Pastoral, sustenta que “a Maçonaria” perfilha uma “visão naturalista e racionalista da história”, baseada “na exclusividade da razão como fonte da verdade” e nos “pragmatismos de uma sociedade materialista, em que só tem valor o que é útil, rentável, ou dá prazer”. Muito injustamente se engana D. José Policarpo: toda a história da Maçonaria Universal o desmente, com a mesma veemência com que lhe rejeita a presunção de que os maçons excluem “qualquer revelação sobrenatural”, “não aceitando a objectividade da verdade que a revelação nos comunica, caindo na relatividade da verdade a que cada razão individual pode chegar, fundamentando aí o seu conceito de tolerância” (segundo a interpretação e as palavras de Sua Eminência). Ora, bem pelo contrário, a Maçonaria Regular mantém intacto o seu vínculo a uma verdade revelada, e não apenas a uma síntese esquemática que fosse produto da racionalização; o seu sentido da tolerância é, na verdade, aquele mesmo que inspira qualquer homem de Cristo que tenha feito a sua banal Catequese e lido o seu elementar Evangelho. Pelas Constituições, um maçon “nunca será um estúpido ateu ou um libertino irreligioso”; pelos Landmarks, “há-de crer na existência de Deus como Grande Arquitecto do Universo, na ressurreição e numa vida futura”; e, pelas Condições de Reconhecimento, há-de afirmar “a crença no Grande Arquitecto do Universo e na Sua vontade revelada”, aceitando “que todos os juramentos sejam prestados sobre o livro da Lei Sagrada, como forma de ligar irrevogavelmente a consciência do iniciado à transcendência da Revelação Divina”. Seria possível ser mais claro? É certo que o Senhor Cardeal Patriarca admite, num acto de cortesia cristã, que a luta contra a “dimensão sobrenatural da nossa fé” virá “sempre”, “sobretudo”, da parte de “algumas obediências” maçónicas – não especificando, contudo, a identidade dessas “algumas” e perdendo uma excelente oportunidade para distingui-las da grande corrente espiritual da Maçonaria Regular, como se esperaria de um pensador com o conhecimento e a alta craveira de Sua Eminência. Ainda assim, o tímido ensaio de distinção entre “algumas obediências” não conforta nem faz justiça à generalidade dos maçons regulares portugueses, muitos dos quais, nas suas igrejas, nas suas paróquias e nas suas vidas dão todos os dias testemunho de fé num Deus revelado. Em comentário posterior à Nota de Sua Eminência (comentário cuja análise escapa ao objecto deste texto), alegou o grão-mestre do Grande Oriente Lusitano que a Maçonaria “sempre se honrou de contar com altas figuras da Igreja Católica”, citando como exemplo o cardeal Francisco Saraiva, que no século XIX foi Patriarca de Lisboa depois de ter sido grão-mestre da chamada Maçonaria do Sul – uma das várias dissidências anteriores à unificação no GOLU. Quem conhecesse apenas a sua antiga e assanhada história de lutas anti-clericais, poderia porventura questionar se o GOL seria o mais entusiástico intérprete desse legítimo orgulho por tantos sacerdotes e religiosos terem enriquecido a história da Maçonaria. Concedendo-se-lhe ou não a prerrogativa desse “nexo histórico”, poderiam ainda citar-se, entre os mais conhecidos maçons religiosos dos primeiros tempos, o frade agostinho Liberato Freire de Carvalho, no cargo maçónico ritual de “grande orador”, ou o cónego Eleutério Castelo Branco, que em meados do século XIX foi grão-mestre da Grande Loja Portuguesa. Na verdade, compreendendo a dimensão transdisciplinar da Maçonaria, como escola de método e busca, inúmeros sacerdotes católicos e de outras igrejas pertenceram a Lojas maçónicas. E pertencem. Neles vive duplamente o imperativo, tão perfeitamente enunciado por D. José Policarpo na mesma Nota Pastotal, de a Igreja “dar as mãos a todos os que buscam o bem”. Porque haveria então a Fé Cristã de ser “incompatível” com a Maçonaria Regular? Não o é em parte alguma do mundo. Não pode sê-lo em Portugal. Nem estaria certo que o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, vendo apenas a árvore, pensasse ter avistado a floresta.

Publicado por jmeq em 07:26 PM

LAMENTO POR UM PORTUGAL ARDIDO.


Comecei a escrever um “post” irritado com na situação dos fogos florestais em Portugal, com a inépcia de utilização dos meios à disposição, pela falta de prevenção popular, etc…
Era um “post” de fúria e desespero por assistir impotente à destruição do País pela selvajaria das labaredas.
Apaguei tudo, embora as labaredas continuem a grassar por aí!
Na realidade, à medida que ia escrevendo, fui-me apercebendo que toda a expressão da minha fúria e irritação radicavam num sentimento bem mais profundo e bem mais melancólico: A verdadeira e profunda tristeza!
Estou realmente triste! Estou triste por assistir ao que assisto, anos a fio, ouvindo sempre as mesmas justificações e o mesmo discurso desculpabilizante.
Enquanto esforçados, abnegados e impreparados bombeiros se esfalfam noite e dia contra um formidável inimigo, os teóricos e os políticos vão debitando discursos idiotas em que comparam as áreas ardidas com as de anos anteriores, como se isso consolasse minimamente alguém, para além dos seus próprios egos.
No meio de toda a incompetência patenteada nos últimos dias, por uns e por outros, apenas me resta fazer uma sentida oração pedindo a Deus que nos mande chuva, uma boa e prolongada chuva, pois só ela consegue acabar com aquilo que já fugiu ao controlo dos homens e da sua inerente incompetência.



Publicado por jmeq em 06:41 PM

O FRACASSO DA UNIÃO EUROPEIA.


Só posso dizer que fiquei contente com o fracasso da Conferencia Intergovernamental da UE, que se preparava para nos enfiar pela goela abaixo uma pretensa Constituição que ninguém pediu e que ninguém votou.
Para expressar a minha posição em relação a esses cinzentões, que nós pagamos a prêço de ouro para definirem regras idiotas, tais como a curvatura dos pepinos, constituições europeias e outras estupidezes, redefini um velho auto-colante distribuido pelo jornal "O Independente", aquando o tratado de Maastritch.
Eis o que penso desta idiotice toda:

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 16 de Dezembro de 2003

# posted by JM : 7:53 PM



Publicado por jmeq em 05:29 PM

QUE MAIS NOS IRÁ ACONTECER?...


Apesar dos inúmeros avisos à navegação, provenientes dos mais diversos quadrantes, parece que mais uma vez nos vão lixar.
Tanto quanto me lembro, sempre nos foi prometido um referendo sobre as questões suscitadas pela famigerada "constituição" europeia, liderada e coordenada pelo caquético Valéry Giscard d'Estaing.
Este impoluto(?) europeu, ex-presidente francês, aqui há uns anos recebeu uns presentes, coisa pouca, ou melhor dizendo, uns diamantes, daquele senhor que se fez coroar imperador de um miserável país africano e que dava pelo nome de Bokassa. O escandalo foi de tal ordem que até um dos seus Ministros se suicidou. Pois este honesto personagem, rodeado de uma espécie de senado não eleito, elaborou uma caricatura de "constituição" europeia, que segundo Jorge Miranda explica, de forma chata mas esclarecida, colide directamente com a nossa soberania e com os preceitos constitucionais dimanados da nossa Assembleia Constituinte, que pelo menos sempre foi eleita pelo Povo.
Acerca deste assunto, se já ontem as notícias eram preocupantes, com o PS a afirmar que não era forçosa a existencia de um referendo, hoje, ao ler no Publico a posição de Jaime Gama, fico totalmente esclarecido, quando este apoda um possível referendo de "paródia democrática". Por seu lado, as posições dos outros partidos, excepção aos da esquerda pura e dura, honra lhes seja feita, são mais ou menos consonantes.
Trocando por miúdos: A oligarquia partidária está prontinha para nos sodomizar (isto para utilizar um termo "soft core"). Já prepara o terreno para aplicar a estocada final!
O Povo só é considerado "gente" para pôr os partidos no podêr. Aí é soberano, sábio, esclarecido, sabe o que quer, etc... Quando se trata das questões que se referem às questões referentes ao seu futuro, é tratado com a mesma sobranceria com que o era no tempo da "outra senhora": É ignorante e não deve pronunciar-se sobre o que não sabe!
Cá por mim, este tipo de atitude cria-me um reflexo condicionado do tipo Plavloviano, preocupante e incontrolável: Hoje em dia, seja em que contexto for, quando oiço a palavra "europa", mesmo que não o queira conscientemente, a minha boca diz: "Não!!!"

Diário de Bordo da Nave Espacial "Terra" - Tempo Estelar da Nova Era - 2 de Outubro de 2003

# posted by JM : 3:24 PM



Publicado por jmeq em 05:24 PM

O CÓDIGO DA VINCI DE A-Z. (CONTINUAÇÃO)


P

- PAGANISMO - «Os vestígios da religião pagã na simbologia cristã são inegáveis. Os discos solares egípcios tornaram-se os halos dos santos católicos. Pictogramas de Ísis a cuidar do seu miraculosamente concebido filho Hórus tornaram-se modelo das nossas imagens da Virgem com o Menino. E praticamente todos os elementos do ritual católico... a mitra, o altar, a doxologia e a comunhão, o acto de ‘comer Deus’... foram directamente tirados de religiões pagãs anteriores. (...) No cristianismo nada é original . (...) Ainda hoje, a maior parte das pessoas que vão à missa ao domingo de manhã não sabe que está ali por causa do tributo semanal dos pagãos ao deus-Sol.» (p. 281).

O cristianismo não nasceu em seco. Nasceu no caldo da cultura mediterrânica e, tal como hoje, a sua universalidade tem-lhe permitido uma saudável inculturação. Mas, fundamentalmente, é a herança hebraica que o marca. Dizer que o altar e a importância do pão e do vinho vêm do Antigo Egipto – ignorando o Antigo Testamento – é tão absurdo como fazer tábua rasa da profunda influência dos judeus no Egipto, nomeadamente com o monoteísmo de Amenófis IV (Akhenaton). Por outro lado, não se exclui que da mitologia de várias religiões coevas ou anteriores não pudessem constar centelhas da Revelação. O mesmo se poderá reconhecer na filosofia grega, em especial, com Sócrates ou com Protágoras.

Muitos dos elementos próprios da sociedade romana, como tantos outros do pensamento grego foram introduzidos pelos romanos e gregos que se cristianizaram – as vestes cerimoniais, o latim, o grego – como não deixaria de suceder, mais tarde, com a evangelização na África, na América e na Ásia.

Nem o milho nem a batata, nem o chocolate nem o tabaco são originais na cultura ocidental. Tão-pouco a pimenta, o marfim, a pólvora ou o arroz. Por seu turno, nem a penicilina nem o preservativo, nem a máquina a vapor nem a Microsoft são originalmente orientais. Aquilo que hoje conhecemos como globalização não é um fenómeno recente. O Mediterrâneo dos primeiros séculos do cristianismo era muito mais globalizado que qualquer OMC ou União Europeia, como o atestam os vestígios fenícios, cartagineses e bizantinos na península ibérica, como o revelam as marcas de Alexandre o Grande no actual Irão, no Afeganistão e até na Índia.

O centro do cristianismo é verdadeiramente original – Deus que se faz homem connosco, na história e não no mito, Deus que nos trata como filhos e não como vermes, Deus que não faz acepção nem de judeu ou grego, de homem ou mulher, de escravo ou de homem livre. Sem dúvida que o cristianismo é verdadeiramente revolucionário, ainda nos nossos dias.

Por outro lado, a Eucaristia não podia, ao tempo, ser interpretada no contexto hebraico como uma ‘teofagia’ (comer Deus). A sua chave está na refeição pascal dos judeus e na presença sacramental de Deus no pão e no vinho – a vida e a morte, a Redenção por Cristo – que estabelece um laço de comunhão.

Quanto ao domingo, é absurdo ignorar que este dia da semana é o dia da Ressurreição do Senhor e que, desde os alvores do cristianismo, foi celebrado ritualmente. Como seria possível aos primeiros cristãos apoderarem-se do dia festivo do Sol - domingo – se este só foi instituído em 274 d.C. pelo imperador Aurélio ?


– PRIORADO DO SIÃO

Com efeito, hoje existe um Priorado de Sião. Trata-se de uma organização fundada em 1956 por um tal Piérre Plantard, o qual deixa entender ser ele próprio um descendente de Jesus e custódio portanto do verdadeiro Santo Graal. A pretensa realidade do Priorado de Sião rege-se por uma outra intrincada questão: a que se prende com o sacerdote Berenger Saunière, pároco que nos fins do século XIX, da vila de Rennes-le-Château, na diocese de Carcassonne, os consente exercer na sua paróquia uma actividade de construção com características estranhamente esotéricas e que fez correr rios de tinta. Na realidade, a história de Saunière, reciclada por de Sède, até aos jornalistas Baigent, Leigh e Lincoln, por sua vez, também autores de um best-seller sobre o Graal, está longe de estar esclarecida: mas tem muito que ver com o código penal e bem pouco com a vida de Jesus.

- PIRÂMIDE DO LOUVRE - «um elo simbólico entre o antigo e o novo (p. 31)

«A ideia de que há 666 painéis de vidro na pirâmide é baseada num mito que se espalhou em Paris há cerca de 20 anos. O Louvre afirma oficialmente que são 673, ao passo que o gabinete de I.M.Pei (mais interessado na luminosidade e na abstracção geométrica do que na simbologia) conta 698. Não está longe do número da besta, mas em numerologia, uma pequena falha representa mais do que uma milha».
(MICHAEL HAAG, ob. cit., p. 155)

- PENTÁCULO - «Langdon hesitava sempre que lhe faziam aquela pergunta. Explicar a alguém o que um símbolo ‘significava’ era dizer-lhe como uma determinada canção devia fazê-lo sentir-se – era diferente de pessoa para pessoa. Nos Estados Unidos, um capuz branco do Ku Klux Kan evocava imagens de ódio e racismo, ao passo que, em Espanha, a mesma indumentária tinha um significado de fé religiosa» (p. 52) «O pentáculo é um símbolo pré-cristão relacionado com o culto da Natureza. Os antigos imaginavam o mundo dividido em duas metades: masculino e feminino. Os seus deuses e deusas esforçavam-se por manter o equilíbrio de poder. Yin e Yang. Quando o masculino e o feminino estavam equilibrados, havia harmonia no mundo. Quando se desequilibravam, havia caos» (p. 53)

Em Espanha porquê? Faz parte do hábito dominicano, por exemplo. Em Espanha, nas procissões da Semana Santa são os algozes de Cristo que o ostentam.

Depois, a propositada linearidade da referência aos antigos, faz esquecer os milhares de anos da Antiguidade. E quando foi isso? Quando houve harmonia no mundo? Sem picardia para com as mulheres, veja-se que, nesta linha de raciocínio, o século XX com o sufrágio feminino e com as primeiras mulheres a ascenderem eleitas a altos cargos, haveria de ter sido um século de progressiva harmonia. Por seu turno, o governo por mulheres como Cleópatra, Catarina de Médicis, Maria Tudor, Maria Stuart, Isabel I, Catarina a Grande, Isabel a Católica, foi tudo menos de harmonia.

Toda a história da filosofia política de base contratualista assenta numa idade mítica do caos – seja em Hobbes, como em Locke como em Rosseau. É a fragilidade do fraco perante o forte que justifica a origem do poder político, como estrutura de dominação consentida pela legitimidade dos governantes.

Por outro lado, praticamente é ignorado o pentáculo davídico, hoje inscrito na bandeira de Israel. Em certa medida, descendendo Jesus da casa de David, este pentáculo poderia ainda ser reclamado pelo cristianismo, mas não se vê que a árvore de Jessé seja propriamente um tributo ao Sagrado Feminino.

Q

- QUMRAN - « Felizmente para os historiadores – encadeou Teabing - , alguns dos evangelhos que Constantino tentou erradicar conseguiram sobreviver. Os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados, nos anos 50, numa gruta escondida perto de Qumran, no deserto da Judeia. E, claro, os Manuscritos Coptas, em 1945, em Nag Hammadi. Além de contarem a verdadeira história do Graal, estes documentos falam do ministério de Cristo em termos muito humanos. Claro que o Vaticano, fiel à sua tradição de desinformação, fez tudo o que pôde para evitar a divulgação desses textos» (p.283)

Deve ter feito pouco, pois encontram-se amplamente estudados e divulgados. De resto, dos mais de setenta textos apócrifos, muitos eram sobejamente conhecidos ao longo da Idade Média, inspirando a iconografia cristã. Assim, a presença do burro e da vaca no presépio, a identificação dos reis magos e até a Imaculada Concepção da Virgem Maria, revelada a S. Joaquim perante a provecta idade de Sta. Ana (proto-evangelho de Tiago).

Os manuscritos do Mar Morto, encontrados no que se supõe ser uma biblioteca essénia, são anteriores à vida pública de Jesus. Porventura, João o Baptista terá integrado esta corrente que se opunha tenazmente aos saduceus e aos fariseus.

Os textos coptas, por seu turno, são traduções do grego e nenhum deles é anterior aos evangelhos canónicos. Muito menos, escrito dentro da comunidade dos que viram e ouviram Jesus.

R

– ROSA – «A Rosa. Exércitos inteiros de religiões tinham sido construídos à volta daquele símbolo. E de sociedades secretas também. Os Rosa-Cruz. Os Cavaleiros da Cruz Rosada.» (p. 240-241).

Independentemente do uso que a rosa possa ter enquanto símbolo esotérico, isso não quer dizer que onde esteja a rosa, está o sagrado feminino. Este erro, na lógica, chama-se petição de princípio. A rosa é símbolo dos partidos socialistas português e francês.

Os autores atribuem à rosa várias propriedades: segredo, bondade, suavidade e aroma, mas rodeada pelo mal, representado nos seus espinhos. Rosa branca =York, rosa vermelha = Lancaster.

Na antiguidade, a rosa tem também uma conotação fúnebre, ao ponto de em Roma, a festa das rosas, as rosálias, fazer parte do culto dos mortos.

A tradição cristã faz seu este significado na rosa com seus espinhos, imagem do martírio. Todavia, esta flor é associada geralmente à Virgem Maria , pois, segundo a lenda, a rosa não teria espinhos no Éden e a Virgem é chamada rosa sem espinhos – Rosa Mística - por não ter sido maculada pelo pecado original. Rosas e lírios encontram-se ligados ora à Imaculada Conceição ora à Assunção de Nossa Senhora (no seu túmulo vazio, de acordo com a iconografia renascentista, caem lírios e pétalas de rosa). Também Jesus chega a ser representado com uma rosa na mão, antecipando a sua Paixão.

O vermelho (rouge, rosso) é tradicionalmente côr imperial. O manto púrpura é, em Bizâncio, sinal da dignidade imperial: os filhos do imperador bizantino são porfigerados, ou seja, gerados na púrpura.

- ROSSLYNN CHAPEL–

« O nome refere-se apenas à sua localização: Ross, significando promontório e Lynn, querendo dizer torrente, provavelmente referindo-se ao rio Esk que serpenteia à volta do monte vulcânico onde o castelo de Rosslynn fica. Nada tem a ver com os templários. Foi construída por William St. Clair, descendente de um outro St. Clair que testemunhara contra os templários. (...) É baseada na arquitectura da catedral de Glascow e não no templo de Salomão, destruído pelos babilónios, em 586 a.C.»

(MICHAEL HAAG, ob. cit., p. 187)

S

– SOPHIE NEVEU – a sabedoria da nova Eva (mãe de todos os crentes) - «Quando o Cristianismo apareceu, as antigas religiões pagãs não morreram facilmente. As lendas sobre demandas cavalheirescas do Graal perdido eram de facto histórias proibidas do sagrado feminino perdido. Os cavaleiros que afirmavam ‘procurar o cálice’ falavam em código como uma forma de se protegerem contra uma Igreja que subjugara as mulheres, banira a Deusa, queimara os incréus e proibira a reverência pagã pelo sagrado feminino.» (p. 287)

Estas considerações dão saltos de mil anos na História entre os primeiros cristãos e os ideais de cavalaria. Por outro lado, não podemos esquecer que, perseguidos foram os primeiros cristãos, e não consta que adorassem nenhuma divindade feminina. O seu símbolo mais comum, nas catacumbas, era o peixe (ictius), anagrama de Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus.

As mulheres, segundo S. João, estão aos pés de Jesus no Calvário, perfiladas como que a representar as mães de Israel, Eva, Sara, Raquel e Rebeca (pregação do Pe. Tolentino Mendonça, Sexta-Feira Santa de 2005, em Sta, Isabel). São as primeiras a verem o Cristo ressuscitado, apesar de nessa altura não serem dignas de crédito, muito menos nos tribunais. A Igreja primitiva parece ter admitido as mulheres ao diaconato e a quantidade de mártires femininas que dão a vida por testemunho do Cristo Ressuscitado não parece de modo a repelir o feminino da esfera do Cristianismo.

Por fim, Maria, a Mãe de Deus e Mãe da Igreja, privilegiada por ter acolhido no seu ventre o Salvador é a Nova Eva, tanto quanto a Redenção é uma Nova Criação, abrindo aos homens de boa vontade a vida eterna, ‘na companhia da Bem-Aventurada Virgem Maria, dos gloriosos mártires, dos santos e santas de Deus’. Sem Maria, sem o seu Sim, Jesus não se teria feito homem connosco e, nessa medida, o peso do feminino – porventura obliterado pelo próprio contexto judaico e helenista – não é simplesmente grande, é enorme. A marca profunda de Maria no cristianismo não é uma herança da mitologia pré-cristã na deusa Gaia ou na Wicca, do New Age. Maria não rivaliza com Cristo num panteão mais ou menos holístico de divindades. Maria conduz-nos a Cristo - «Fazei tudo como Ele vos disser», advertiu Maria aos criados nas Bodas de Canã.

T

- TAROT

«Contrariamente ao que afirma Brown, as cartas de tarot não ensinam a doutrina da deusa. Foram inventadas para inocentes fins lúdicos no século XV e não adquiriram ligação alguma com o ocultismo senão em finais do século XIX. Os baralhos de cartas não têm simbolismo algum do Graal. A ideia de que o naipe de ouros simboliza o pentáculo é uma deliberada extrapolação do ocultista britânico A.E. Waite. E o número cinco –crucial para os enigmas de Brown – tendo alguma ligação com a deusa protectora, têm-no também com uma miríade de outras coisas, incluindo a vida humana, os cinco sentidos e as Cinco Chagas de Cristo».

(SANDRA MIESEL, loc. cit., p. 12)

– TEMPLÁRIOS - « E esses quatro baús de documentos eram o tesouro que os Templários encontraram nas ruínas do Templo de Salomão ? Exactamente. Os documentos que tornaram os Cavaleiros tão poderosos.» (p. 307).

«O processo dos Templários, no fim de contas, não foi nem mais vil no que se refere às acusações levantadas, nem mais brutal – nos métodos que se empregaram – que o do papa Bonifácio VIII, o de Guichard, bispo de Troyes, ou que o das próprias noras do rei; mas devido à sua amplitude e ao número, assim como à personalidade daqueles que atingia, a sua repercussão viria a ser muito mais profunda. E compreende-se que a impressão sentida com a ideia de uma ordem totalmente corrompida, praticando colectivamente tais horrores, tenha podido abalar toda a cristandade. Não há dúvidas de que as comissões pontifícias constituídas nos outros países não recolheram nenhuma dessas acusações levantadas contra os Templários em França: houve apenas um templário, em Inglaterra, que se acusou de apostasia. Mas o facto de a Ordem ter sido suprimida pelo Papa – que a deveria ter defendido – não deixaria, por isso, de suscitar suspeitas, sobre as quais trabalharam as imaginações.

E essas imaginações trabalharam até aos nossos dias, o que deu origem à incrivelmente grande quantidade de alegações fantasiosas, atribuindo aos Templários todos os esoterismos, dos mais antigos aos mais vulgares, todas as variantes de conhecimentos de alquimia ou de magia, todos os processos iniciação ou de afiliação, já existentes ou a vir – em resumo, todos esses ‘segredos’ que alimentam uma ânsia de mistério inerente à natureza humana e que, por uma espécie de vingança instintiva, nunca parece mais confirmada do que nas épocas em que se parece rejeitar tudo o que parecia mistério: lembremo-nos de que foi no tempo de Descartes que os processos de bruxaria se multiplicaram; que foi nos inícios do século XVIII – século racionalista – que nasceu a maçonaria; que o nosso século científico é também o século da proliferação das seitas e de um renascimento do ocultismo.

(...) Na época actual ainda são abundantes as obras literárias, os artigos de revistas ditos ‘históricos’ onde se encontram espalhadas as mais espantosas mexeriquices sobre segredos dos Templários ligados aos segredos das pirâmides e nascidos da mesma inspiração; nesses artigos e obras encontra-se tudo o que caracteriza os mitos modernos, do Máscara de Ferro ao tesouro dos cátaros, em Montségur, iludindo um público cuja credulidade é espantosa, este século de progressos científicos, com a mais desconcertante mistura de intrujice, de dogmatismo e de uma boa fé que chega a ser comovente». (...) Os grafitos deixados pelos templários têm interesse e, em muitos casos, contribuem para revelar uma mentalidade: a dos prisioneiros oprimidos sob o peso de acusações injustas; e é o que se evidencia nos que foram descobertos na torre de Domme, no Périgord, onde através de inscrições vingativas (Clemens destructor Templi), crucifixos muito belos, anjos apocalípticos, os templários clamam a injustiça do seu destino e o calvário por que passaram».
(RÉGINE PERNOUD, Os Templários, Pub. Europa América, Sintra, 1996, pp. 152 e segs.)

- TULHERIAS - «a versão parisiense do Central Park» (p. 29)

Sem comentários ...

U

– ÚLTIMA CEIA - «Sophie examinou a figura à direita de Jesus, concentrando a atenção. À medida que estudava o corpo e o rosto da personagem, sentiu uma onda de estupefacção crescer-lhe no peito. O indivíduo tinha longos cabelos vermelhos, mãos delicadamente entrelaçadas, a sugestão de um seio. Era, sem a mínima dúvida...uma mulher!» (p. 292). «Pedro inclinava-se ameaçadoramente para Maria Madalena e passava a mão esticada pelo pescoço dela, como uma faca.» (p. 298)

A primeira interrogação pertinente é esta: Se à direita de Jesus se encontra Maria de Magdala, onde se encontraria João, o discípulo dilecto? De resto, João é o apóstolo dilecto do neoplatonismo tão em voga nos círculos intelectuais em que Leonardo da Vinci se movia, inspirados, nomeadamente, por Nicolau de Cusa.


«Por infortúnio, os poucos trabalhos que Leonardo completou nos seus anos de maturidade chegaram até nós num estado muito mau de preservação. Assim, quando observamos o que resta do famoso fresco A de Leonardo, devemos tentar imaginar como ele se deve ter apresentado aos monges para quem foi pintado. A pintura cobre uma parede de uma sala oblonga utilizada como refeitório pelos monges do mosteiro de Santa Maria delle Grazie, em Milão. Vale a pena pensar no que seria quando a pintura se encontrava a descoberto e, lado a lado, com as longas mesas dos monges surgia a mesa de Cristo com os seus apóstolos. Nunca antes este episódio sagrado parecera tão próximo e tão vivo. Era como se uma outra sala tivesse sido acrescentada à sua, em que a Última Ceia ganhava uma forma tangível. Com que clareza a luz incidia na sua mesa e de que forma trazia consigo plenitude e solidez aos personagens. Tal vez os monges estivessem estupefactos com a verosimilhança natural com que todos os detalhes se encontravam retratados, os pratos na toalha e as pregas dos drapeados. Então, como no presente, as obras de arte eram frequentemente julgadas por leigos de acordo com a sua mundivivência. Mas esta podia ser apenas a primeira reacção. Uma vez admirada suficientemente esta extraordinária ilusão da realidade, os monges regressariam ao percurso em que Leonardo apresenta o relato bíblico. Nada havia no seu trabalho que recordasse anteriores representações do mesmo tema. Nestas versões tradicionais, os apóstolos eram vistos sentados sossegadamente em série – apenas Judas segregado dos restantes – enquanto Cristo calmamente distribuía o Sacramento. A nova obra era bem diferente de qualquer uma dessas pinturas. Havia nela drama e excitação. Leonardo, como GIOTTO antes dele, retomara o texto das Escrituras e procurou visualizar o que terá acontecido quando Cristo disse: ‘ Em verdade vos digo, está entre vós aquele que há-de me trair’ e eles ficaram sobressaltados e começaram, cada um, a perguntar-lhe ‘Senhor, serei eu ?’ (Mt 26, 21-2). O Evangelho de S. João acrescenta ‘Reclinado no seu peito encontrava-se um dos discípulos, aquele que Jesus amava. Simão Pedro então acenou-lhe, perguntando-lhe quem seria e de quem falava Ele. É esta interpelação que traz movimento à cena. Cristo pronunciara as palavras trágicas e eles ao seu lado entraram em pânico ao ouvirem tal revelação. Alguns parecem manifestar o seu amor e inocência, outros discutem gravemente o que quereria dizer o Senhor, outros ainda parecem olhá-Lo procurando uma explicação para o que acabara de afirmar. S. Pedro, o mais impetuoso de todos, invectiva S. João, sentado à direita de Jesus. Ao sussurrar algo ao ouvido de S. João, empurra inadvertidamente Judas para fora. Judas não é segregado, mas contudo parece isolado. Sozinho, não gesticula nem interpela. Recua e olha para cima com desconfiança ou com raiva. Um contraste dramático com a figura de Cristo, calmamente sentado e imperturbável no meio desta tempestade emergente. Apesar do alvoroço que as palavras de Cristo causam, nada há de caótico nesta pintura. Os doze apóstolos mostram-se naturalmente agrupados em quatro conjuntos de três, articulados uns com os outros através de gestos e movimentos. Há tanta ordem nesta diversidade e tanta diversidade nesta ordem que ninguém consegue esgotar o jogo harmonioso de perguntas e respostas. (...) Recordemos como os artistas desta geração tentaram combinar as exigências de realismo com as do desenho. Lembremo-nos quão rígida e artificial é a solução encontrada por POLLAIUOLO para o seu S. Sebastião. Leonardo, que era um pouco mais jovem do que POLLAIUOLO, resolveu-o com aparente facilidade. Se alguém, por momentos, esquecer o que representa a cena, pode ainda melhor apreciar a originalidade da beleza formada pelas personagens. A composição parece conter o equilíbrio e harmonia das pinturas góticas, nas quais ROGIER VAN DER WEYDEN e BOTTICELLI, cada um de seu modo, procuraram recuperar para a sua arte. Mas Leonardo não achou necessário sacrificar a perfeição do desenho, a agudeza da observação, às exigências de satisfazer um padrão. Se alguém esquece a beleza da composição, sente-se de súbito confrontado com uma peça de realismo, convincente e poderosa como nos trabalhos de MASACCIO ou de DONATELLO. (...) Para além das técnicas como a composição e a escala, devemos admirar a profundidade de Leonardo na representação dos comportamentos e reacções dos homens e o poder da imaginação que lhe permitiu criar a cena diante dos nossos olhos. Uma testemunha diz-nos ter observado Leonardo a trabalhar na Última Ceia. Ele subia ao andaime e ali permanecia dias inteiros de braços cruzados, apenas olhando criticamente para o que fizera anteriormente antes de se relançar na execução».
(E.H. GOMBRICH – The Story of Art, Phaidon, 16ª ed., Londres)

W

– WALT DISNEY - «Nem era preciso ter estudos de simbolismo para perceber que Branca de Neve – uma princesa que caía em desgraça depois de ter mordido uma maçã envenenada – era uma alusão à queda de Eva no Jardim do Éden» (p. 313)

O conto de Branca de Neve não é um original de Walt Disney. Também o papel dos sete anões fica por explicar, a menos que sejam um braço do Priorado de Sião. De resto, Branca de Neve, que se saiba, é vítima da inveja e do ciúme de uma outra mulher, sua madrasta, e não de nenhum papa ou bispo.
A maçã

No pecado original a maçã é o fruto proibido da árvore do conhecimento, mas ao mesmo tempo nas mãos de Cristo ou de Maria representa a Redenção. Dan Brown, contraditoriamente, tanto a identifica com o conhecimento (Newton) como com o mal (Walt Disney).


- WICCA - Langdon «não só tinha uma paixão pessoal por tudo o que se relacionasse com fertilidade, cultos da Deusa, WICCA, e o sagrado feminino, como durante os seus vinte anos no cargo de conservador, ajudara o Louvre a reunir a maior colecção do planeta ligada à deusa» (p. 37)

A ser assim, a defesa intransigente do Vaticano contra o uso de meios contraceptivos seria uma demonstração de simpatia pela fecundidade feminina. De resto, um dos argumentos esgrimidos contra uso da pílula prende-se com a manipulação do ciclo menstrual de fertilidade feminina.

«Wicca é uma religião neopagã, popular em muitos países anglófonos, originariamente fundada pelo funcionário público Gerald Gardner, provavelmente, em 1940, embora oficialmente apenas tenha sido revelada em 1954. Desde a sua fundação, várias tradições wicca têm sido criadas, sendo a original a Jardineira Wicca, nome da tradição que segue as crenças e práticas específicas estabelecidas por Geral Gardner.»

(www.en.wikipedia.org)

V

– VÉNUS -«Langdon decidiu não lhe revelar a mais surpreendente propriedade do pentáculo: a origem gráfica da sua ligação a Vénus. Ainda jovem estudante de Astronomia, ficara estupefacto ao saber que o planeta Vénus traçava, de oito em oito anos, um pentáculo perfeito no céu elíptico. Tão espantados tinham os Antigos ficado ao observar o fenómeno, que Vénus e o seu pentáculo se tornaram símbolos de perfeição, beleza e das qualidades cíclicas do amor sexual. Num tributo à magia de Vénus, os Gregos usavam o seu ciclo de oito anos para organizar os Jogos Olímpicos. Actualmente, poucas pessoas sabem que o calendário quadrienal das Olimpíadas modernas continua a seguir os meios-ciclos. De Vénus. E menos ainda sabem que estrela de cinco pontas esteve perto de se tornar o emblema olímpico oficial, tendo sido substituída à ultima hora pelos cinco anéis entrelaçados, que reflectem melhor o espírito de inclusão e harmonia dos jogos.» (p. 53-54)

Por um lado, Langdon devia ser um mau aluno de astronomia, pois o pentáculo traçado por Vénus é tudo menos perfeito.

Por outro lado, poucas pessoas poderiam saber da ligação entre Vénus e os Jogos Olímpicos, porque simplesmente não há ligação nenhuma. Em primeiro lugar, os Jogos da Antiguidade realizavam-se em Olimpos, de quatro em quatro anos, nunca em honra de Afrodite (Vénus) mas de Zeus (Júpiter).

Y

– YIN E YANG - «Jesus usava uma túnica vermelha e um manto azul; Maria Madalena usava uma túnica azul e um manto vermelho. Yin e Yang». (p. 294)

Está à vista de todos que a túnica de Jesus e o manto da figura à sua direita não são da mesma côr. O Vermelho/encarnado da túnica de Jesus é o vermelho da dignidade imperial bizantina que atravessa toda a Idade Média até ao Renascimento. Em russo, vermelho continua a significar bonito e até ao século XVIII, as noivas usavam um vestido vermelho, no dia do casamento, como sendo o vestido mais precioso que possuíam. O azul é uma côr difícil de obter na paleta medieval. Desde então, é atributo da realeza. Sendo João o discípulo predilecto de Jesus, não era de estranhar o uso da túnica azul.

E o modelo das cores e seu significado não fica por aqui: Judas é sempre representado de amarelo – côr da traição.

Z

– ZARATUSTRA ou ZOROASTRO – da Flauta Mágica ao III Reich - «Langdon falou-lhe rapidamente das obras de Da Vinci, Botticelli, Poussin, Bernini, Mozart e Victor Hugo que falavam em murmúrios do esforço feito para restaurar o sagrado feminino. Lendas persistentes como a de Sir Gwain e do Cavaleiro Verde, do Rei Artur, da Bela Adormecida, eram alegorias do Graal. Nossa Senhora de Paris de Victor Hugo e a Flauta Mágica estavam cheias de símbolos maçónicos e de segredos do Graal» (p. 312)


O Graal surge aqui de mãos dadas com a Maçonaria, numa cadeia linear de de ideias quase hilariante. Por que não Romeu e Julieta, a Bela e o Monstro, Menina e Moça, A Castro ou mesmo os Lusíadas. Não é difícil encontrar alusões ao feminino e reconhecer nele o sagrado.

A maçonaria – do que se conhece – não tem propriamente a mulher em grande estima, uma vez que continua a segregar as suas lojas e não se conhece grão-mestre algum do sexo feminino.

Para os zoroastritas (do sábio persa, Zoroastro) as técnicas de meditação são prescritas a fim de reduzir ‘o caos do espírito’ . Devem os iniciados passar por uma série de baptismos. A progressão por estas etapas constitui um progresso no conhecimento espiritual. No Discurso sobre o Oitavo e o Nono, nove níveis de conhecimento são revelados para poder comunicar com o Deus perfeito e invisível. O mestre conduz o discípulo numa oração cantada com palavras sem significado. Segue-se um estado de êxtase e uma visão do divino graças à mediação do mestre. No fim do Discurso, o mestre incumbe o discípulo de escrever as suas experiências num livro para guiar outros que também avançaram passo a passo e entrarão na imortalidade. No evangelho de Tomé, os iniciados são chamados a tornarem-se outros cristos. É o sentido de gémeo de Tomé Dídimo (o gémeo) ao qual são reveladas as palavras escondidas de Jesus. Quanto ao próprio Jesus, teria ultrapassado todas as fases iniciáticas durante os anos de juventude que nos são reportados pelos Evangelhos do Novo Testamento. De onde, a partir do séc. VI, o florescimento dos evangelhos da infância que preenchem este período da vida de Jesus com toda a espécie de eventos iniciáticos próprios para justificar os ensinamentos gnósticos.

A inspiração da maçonaria no zoroastrismo parece, essa sim, evidente. Na Flauta Mágica é Sarastro (Zoroastro) que se opõe à maléfica Rainha da Noite – a luz e as trevas, o bem e o mal, o branco e preto, côr dos ladrilhos do templo maçónico – que farão as delícias do gnosticismo maniqueísta.

«Zoroastrianos – Zoroastro terá surgido na Pérsia no séc. VII a.C. A sua vida é narrada numa recolha de textos sagrados, o Avesta, cuja redacção se situa entre os séculos III e IV da Era Cristã (alguns cânticos remontam, sem dúvida, ao séc. VI a.C.). A religião de Zoroastro, o mazdeísmo, é dualista: opõe o Bem ao Mal, a luz às trevas, que se encontram constantemente em luta. Os zoroastrianos fugiram da Pérsia na sequência da invasão árabe e formaram a comunidade dos Parsis, refugiando-se na China e na Índia.»

(JEAN DELUMEAU - Des Religions et des Homes, Paris, 1997, p. 504)



Publicado por jmeq em 11:09 PM

O CÓDIGO DA VINCI DE A-Z.


«Sophie, todas as fés do mundo se baseiam em invenções. É essa a definição de fé: aceitação daquilo que imaginamos ser verdade» (p. 408).

«De facto, com este romance aproveita-se alguma cultura geral, recheada de muita informação disseminada, mas deve ser assimilada criticamente em virtude dos seus diferentes níveis de rigor. É uma obra que contribui para despertar o interesse pela História da Arte e as suas conexões com a simbólica das religiões. Portanto, ganha-se no reavivar da memória para certos aspectos da herança cultural humana, mas perde-se em complexidade, em profundidade e em seriedade no tratamento de questões complicadas. Estas, assim simplificadas, misturadas e baralhadas, disseminam muita confusão e pouco esclarecimento.»

(J. EDUARDO FRANCO – O Código da Conspiração , in Brotéria, vol. 159 (6), Dez. 2004, p. 483)

A

- APÓCRIFOS - «O Evangelho de Filipe é sempre um bom sítio para começar. Sophie leu a passagem: ‘E a companheira do Salvador é Maria Madalena. Cristo amava-a mais do que a todos os discípulos e costumava beijá-la muitas vezes na boca. Os outros discípulos sentiam-se ofendidos por isto e expressavam a sua desaprovação. Perguntavam-lhe: ‘Porque é que a amas mais que a todos nós ? (...) Como qualquer estudioso do aramaico lhe dirá, a palavra companheira, naquele tempo, significava literalmente esposa» (pp. 295-296).

Companheiros são, por exemplo, os discípulos de Emaús. Companheiro é o que partilha o pão. Depois, os evangelhos apócrifos dão para todos os gostos. Por exemplo, no chamado evangelho de Tomé e no de Maria, quando os discípulos interrogam o Senhor sobre como poderá salvar-se Maria Madalena, é-lhes retorquido, sem mais, que ela será transformada em homem: «Eu a guiarei de modo a fazer dela um macho, pois, uma mulher que seja feita homem entrará no reino dos Céus» (evangelho de Tomé).

«Como podemos saber que os apóstolos não eram uns visionários ?

Neles produz-se o processo exactamente inverso ao dos visionários. Estes, num primeiro momento, estão muito convencidos e são ntusiastas e pouco a pouco começam a duvidar da da visão. Os discípulos de Jesus, por seu turno, ao princípio, duvidam. Não crêem a seguir à Ressurreição. Tomé não se fia na palavra dos demais e quer tocar o corpo de Cristo ressuscitado. Assim eram aqueles homens: simples, concretos, realistas. A maioria eram pescadores, não eram nem visionários nem místicos. Um grupo de pessoas abatidas, aterrorizadas depois da morte de Jesus. Nunca teriam chegado sozinhos a um auto-convencimento da Ressureição. Não se renderam a uma evidência concreta e experimentável.»
(ANDREA TORNIELLI – O misterioso ‘big bang’ da origem do cristianismo – www.es.catholic.net)

– AQUÁRIO, Era de -«O milénio acaba de passar, e com ele, terminaram os dois mil anos de idade astrológica de Pisces, o peixe, que é também o signo de Jesus (...) Agora, no entanto, estamos a entrar na idade de Aquarius, o carregador de água, cujas ideias afirmam que o homem aprenderá a verdade e será capaz de pensar por si mesmo. A mudança ideológica é enorme, e está a acontecer neste preciso momento». (p.321)

Desde que começou o terceiro milénio, não se tem notado muito a influência aquariana. Antes pelo contrário, com a escalada das múltiplas formas de terrorismo, institucionalizadas ou não.

Por outro lado, como se pode calcular o signo zodiacal de Jesus ? A ligação de Cristo ao peixe é evidentemente outra – ICHTUS – acrónimo de JESUS CRISTO DEUS (THEOS) E SALVADOR (SOSTER) - com que os primeiros cristãos se protegiam.

B

– BAPHOMET - «Quando escrevemos Baphomet, usando o alfabeto hebreu, ela perde as suas três vogais, na tradução, deixando-nos (...) S-V- PH-I-A» (p. 381)

«Não passa de uma deformação da palavra ‘Mahomet’. Está atestado em vários textos, entre outros, no famoso sirvantês Ira et dolor, poema em língua d’oc, composto por um templário anónimo, após a perda de Arsouf, em 1265, no qual o poeta brada dolorosamente: ...
ja nul hom que en Jezu Christ creza
Non remanra, s’el pot, en est paes;
Enans fara bafomairia
Del Mostier de Sancta Maria
o que equivale a dizer que, de uma igreja dedicada à Virgem, far-se-á uma mesquita. Recordemos também o Jeu de Saint-Nicholas, no qual, aliás contra todas as verdades religiosas, se vê um muçulmano a adorar ‘um Maomé com chifres’. Essa assimilação de Maomé a um ídolo, tal como a deformação do termo em ‘Baphomet’ faz parte do folclore da época»
(RÉGINE PERNOUD, Os Templários, Publicações Europa/América, Sintra, 1996, p. 160)

C

- CHAVE DA ABÓBADA - « Todos os arcos de pedra precisam de uma pedra central, em forma de cunha, que, colocada no topo, trava as peças e suporta todo o peso. Esta pedra é, num sentido arquitectónico, a chave da abóbada. Em inglês, chamamos-lhe keystone. – Langodon vigiou-lhe os olhos, à espera de qualquer centelha de reconhecimento.»

Qualquer pessoa minimamente versada na cultura bíblica sabe que a pedra angular é uma metáfora usada no Salmo 118 (22) – a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular – para identificar o Messias, o Salvador.


- CONCÍLIO DE NICEIA - «O estabelecimento de Jesus como ‘Filho de Deus’ foi oficialmente proposto e votado no Concílio de Niceia. (...) E bastante renhida, por sinal – respondeu Teabing. – Em todo o caso, estabelecer a divindade de Jesus era crucial para a unificação do Império Romano e para a base de poder do novo Vaticano». (p. 282)

Niceia, antiga cidade da Ásia Menor (Anatólia), célebre pelos dois concílios ecuménicos que condenaram um o arianismo (325), o outro (787) os iconoclastas quebradores de imagens (seita de heréticos do séc. VIII, que destruíam as imagens dos santos e queriam acabar com o culto aos Santos). Esta heresia fez desaparecer numerosas obras de arte cristã primitiva e extinguiu-se no séc. IX).

As afirmações mais audaciosas e incorrectas do Código Da Vinci prendem-se com a história antiga da Igreja e a pessoa de Jesus:
1. A divindade de Jesus e a sua afirmação como Filho de Deus foram estabelecidas, propostas e votadas no Concílio de Niceia em 325.
2. Antes deste evento, ninguém - nem mesmo os discípulos de Cristo – acreditava que Ele fosse mais que um mortal profeta.
3. O Imperador Constantino instituiu a divindade de Jesus por razões políticas e usou a Igreja Católica como meio de solidificar o seu poder.

«O Concílio de Niceia foi o primeiro concílio ecuménico da Igreja, patrocinado por Constantino que desejava pôr fim à desunião e controvérsia causadas pela heresia Ariana (= Arianismo – Heresia de Ário de Alexandria, fundador da seita dos arianos (256-336)). Ário combatia a unidade e a consubstancialidade em três pessoas da Trindade e sustentava que o Verbo, tirado do nada, era muito inferior a Deus Pai. Considerava Cristo como essencialmente perfeito, mas negava que comungasse da substância do Pai. Esta doutrina pregada por Ário, cerca de 323, e sustentada por imperadores de Constantinopla, como Constâncio Valente, contrabalançou durante algum tempo, o poder do catolicismo. Foi condenada pelo concílio de Niceia. O concílio de Constantinopla (381) vibrou-lhe um rude golpe.

Ário era notável pela sua pregação e estilo de vida ascético. Sustentou que Jesus não era inteiramente divino e que o seria menos que o Pai. O Filho não teria existido durante todo o eterno passado, mas fora criado pelo Pai como um instrumento, primeiro, da Criação, depois, da Salvação. Jesus não seria Deus por natureza mas um Deus menor. Esta crença foi condenada pelo Bispo Alexandre num sínodo local realizado em Alexandria por volta do ano 320, no qual 98 dos 100 bispos votaram contra a doutrina de Ário. Mas os ensinamentos arianos, contudo, atraíram o interesse e depressa se espalharam, devido ao patrocínio do bispo Eusébio .

O primeiro concílio ecuménico de Niceia, em 325, confessou no seu Credo que o Filho de Deus é gerado, não criado, e da mesma substância que o Pai. Decidido por mais de 99% dos bispos e não por uma votação restrita, como DAN BROWN pretende. O carácter experiente dos Bispos – muitos sofreram tortura e prisão em nome da fé - opõe-se à asserção de que teriam aceite as orientações do Imperador para proclamar a natureza divina de Jesus. De resto, como vimos, o próprio Ário, não a negava por completo.

Os elementos disponíveis evidenciam que os primeiros cristãos que conheceram Jesus acreditavam na sua natureza divina. Os evangelhos canónicos vêem na pessoa de Jesus o próprio Deus. Neles, Jesus pensa, sente e actua na clara consciência de não ser um mero profeta, mas antes a Manifestação e Revelação - na história dos homens - do próprio Deus.

Citações do Antigo e do Novo Testamento suportam a divindade de Jesus: ‘Uma virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel (Deus connosco)’. No Baptismo de Jesus: quando Jesus emergiu da água, os céus abriram se, e Ele viu o Espírito de Deus descer sobre Si como uma pomba. Ouviu-se uma voz vinda do Céu “Este é o meu filho muito amado, no qual eu pus a minha complacência.” (Mat. 1:23/3:16-17).

O Evangelho de S. João contém algumas das mais fortes afirmações da divindade de Jesus (João 1:1-3/1:14/5:18/8:56/20:28/).

Em numerosos textos dos Evangelhos, Jesus é intitulado Filho de Deus, é-Lhe assinalado o poder de perdoar os pecados, proclama a sua unidade e pertença ao Pai e realiza muitos milagres, incluindo a ressurreição de Lázaro de entre os mortos. Também as cartas dos Apóstolos afirmam a divindade de Jesus (Paulo, Filipe, Timóteo). O Apocalipse apresenta Jesus como o Rei eterno, vitorioso e ressuscitado. ‘Não tenhais medo, eu sou o primeiro e o último’ - diz Jesus (Apoc:1:17). O Primeiro e o Último é um dos títulos usados no Antigo Testamento para descrever YAHWEH, o único Deus verdadeiro. “O Alfa e o Omega, o primeiro e o último, o princípio e o fim” (Apoc. 22:13).

Há muitos testemunhos de escritores cristãos entre 100 dC e o século IV atinentes à fé cristã na divindade de Jesus. Estes escritos permitem reconstituir o contexto ideológico das propostas e batalhas travadas no concílio de Niceia.


a) Inácio de Antioquia, Bispo:
Foi bispo de Antioquia. Especulou-se que, tal como o apóstolo Paulo, possa, previamente à sua conversão, ter perseguido os cristãos. Capturado pelo exército romano, é conduzido a Roma para ser executado. No caminho escreveu várias cartas às Igrejas locais. Afirmou que o Espírito de Deus encarnou em Jesus, de corpo e alma, aconselhando os cristãos a terem presente, em todas as acções, que Jesus fez neles a sua morada. Cada cristão é templo de Deus.
b) Justino, Mártir (115-200)- nasceu numa família pagã e tornou-se cristão com cerca de 30 anos. Prega que só Cristo é Deus e Homem e a fonte de todas as coisas boas. Combateu afincadamente as infiltrações gnósticas no Cristianismo.
c) Tertuliano (160-225) é o grande pai da Igreja Africana Faz observações idênticas. Escreveu: ‘só Deus é sem pecado. Jesus é o único homem sem pecado’.
d) Orígenes (185-254 ) afirmou que, apesar de o Filho ser Deus, Ele tomou a carne. Tendo sido feito homem, permaneceu aquilo que ele era: Deus.
e) Hipólito (170-236 ) : ‘Só a palavra de Deus provém dEle, sendo, contudo, Deus, tornando-se a substância de Deus.’ »


(CARL E. OLSON/ SANDRA MIESEL - A Fraude de O Código Da Vinci, , Ed. Lucerna, Cascais, 2005, pp. 167 e segs.)

Já muito antes do concílio de Niceia (325 d.C.) a Igreja defrontara e condenara outras heresias (lacerações no seio da comunidade), como, por exemplo, o montanismo (início do séc. II). E já começara a combater o arianismo. Já na 1ª Carta de S. João (2,22) podemos ler «Quem nega o Pai e o Filho deve ser considerado anti-Cristo.».

- CONSTANTINO – «Aaah! – exclamou Teabing, com incontível entusiasmo. – a ironia fundamental do cristianismo! A Bíblia, tal como hoje a conhecemos, foi coligida por um pagão, o imperador romano Constantino, o Grande. (...) Cristãos e pagãos começaram a guerrear-se, e o conflito atingiu proporções tais que ameaçava dividir Roma em duas. Constantino decidiu que era preciso fazer qualquer coisa. Em 325 d.C. resolveu unificar o império sob uma única religião: o cristianismo». (p.280)

Como sabemos, foi Constantino que mudou a capital do império para Bizâncio – Constantinopla. De acordo com esta linha, Constantino escolheu o Cristianismo ao acaso. Em lugar de redobrar o vigor dos seus antecessores na perseguição aos cristãos, optaria por perder a dignidade sacra do imperador (Sol Invictus) cedendo-o a um crucificado 300 anos antes.

No Código Da Vinci afirma-se que Constantino foi um pagão baptizado no leito de morte demasiado fraco para se opor. A religião oficial na época era o culto do Sol Invictus ou Sol Invencível e Constantino era o seu representante e máximo sacerdote. Isto é uma mistura de verdade e erro. Há indícios que evidenciam que Constantino se tornou um Cristão convicto e procurou renunciar ao culto dos Deuses pagãos. Lutou para conciliar a sua ligação ao culto do Sol Invictus com a sua crença no Deus dos Cristãos. Seria uma simplificação demasiado ingénua supor que Constantino apenas beneficiaria em apoiar publicamente a Igreja. Os cristãos eram uma escassa minoria da população, pertencendo, na sua maioria, a grupos populacionais com diminuta importância política e social, as classes baixa e média das cidades. A aristocracia que integrava o Senado em Roma era pagã. Os oficiais do exército e os mais bem posicionados de entre os que prestavam serviço civil eram pagãos. Agradar aos cristãos não traria especiais proveitos e, para tanto, bastaria conceder-lhes tolerância. Não seria necessário reconhecer o Cristianismo como uma religião oficial. Garantiu-lhes liberdade de culto e ordenou a restituição aos Cristãos dos locais de culto que lhes haviam sido retirados.

O culto pagão do Sol tem algumas semelhanças com o Cristianismo. A celebração da liturgia ao Domingo (Sunday, Sonntag), o primeiro dia da semana, iniciou-se no tempo de Paulo e dos outros apóstolos. O Domingo era também o dia festivo do Sol Invictus, cuja adoração foi introduzida no mundo Romano por volta do século segundo e foi suportado pelo Imperador Aureliano (270-5 A .D). A religião ancestral de Roma não era o culto do Sol mas o culto de Roma e dos seus divinos Imperadores e o trio Capitoline - Júpiter, Juno e Minerva. O culto do Sol era monoteísta, a adoração do espírito divino pelo qual se regia todo o Universo, e cujo símbolo era o Sol.

Nas profecias do Antigo Testamento, Cristo é intitulado o Sol da Justiça. Muitos pagãos pensavam que os Cristãos adoravam o Sol porque eles se reuniam ao Domingo e rezavam virados para o oriente.

Constantino quis ser baptizado nas águas do Rio Jordão, onde Jesus fora baptizado. Porém, esperou. Era comum aos Cristãos da época serem baptizados no leito da morte, especialmente se se tratasse de um oficial cujos deveres implicavam a execução de tortura e a morte de criminosos. Os pecados graves, cometidos após o Baptismo, reclamariam uma penitência severa.

Constantino entendeu o Cristinianismo como um meio de unir o Império, de o rejuvenescer e o moralizar. Às motivações políticas, acresceram motivações religiosas, mas não precisava de o adulterar teologicamente, como DAN BROWN sugere.

De acordo com o personagem SIR LEIGH TEABING, a Igreja autorizara Constantino a criar uma religião híbrida, tomando por referência símbolos pagãos. No entanto, os primeiros cristãos não se mostraram dispostos a comprometer com o paganismo, por isso tantos foram perseguidos e mortos pelos romanos nos primeiros três séculos da História da Igreja.

Os cristãos apoderaram-se de alguns símbolos e dias festivos e cristianizavam-nos, eliminando certos elementos não compatíveis com as práticas e doutrinas cristãs, preservando os demais elementos. As actuais fontes das crenças cristãs, como a virgindade de Maria, a morte e ressurreição de Jesus e a sua natureza divina têm raízes em narrativas históricas e não, como pretende o autor do Código, em descrições mitológicas e antecedem as ideias pagãs que com elas possam aparentar alguma conexão.

TEABING afirma: ‘ Nada é original no Cristianismo’ e pretende que o antigo Deus pré-Cristão Mitras foi a inspiração para muitos dos detalhes sobre a pessoa de Jesus e a sua vida: os títulos Filho de Deus e Luz do Mundo, o seu nascimento a 25 Dezembro, a sua morte, o seu enterro num túmulo rochoso e a sua ressurreição três dias volvidos. 25 de Dezembro é também o aniversário de Osíris, Adonis e Dionysus.

Ora, poucos indícios há de que a maioria das religiões pagãs como o culto egípcio de Isis e Osíris ou o de Mitra existissem, na bacia mediterrânica, tal como são descritas no Código Da Vinci e no Holy Blood, Holy Grail, antes da primeira metade do século I. Ao invés. muitos são os indícios de que as religiões pagãs de mistério se tenham apropriado de elementos da Fé Cristã, ao longo dos séculos II e III, período de consolidação do cristianismo. Estas religiões diferiam do cristianismo em muitos aspectos. Baseavam-se no ciclo anual da vida vegetal, no conhecimento oculto, enfatizavam o êxtase emocional por contraponto com o dogma e a doutrina e o seu objectivo central era a experiência mística. Ao contrário dos cristãos que prezavam a tradição apostólica, os pagãos adoptavam elementos de vários rituais pagãos, dividindo as crenças e desrespeitando os ensinamentos instituídos.

Ainda mais notório é o contraste entre o carácter mitológico das religiões pagãs e o carácter histórico dos Evangelhos e do Novo Testamento. As divindades dos mistérios pagãos eram figuras nebulosas dum passado imaginário. Jesus é identificado como uma pessoa real que viveu, homem entre os homens e mulheres do seu tempo, pouco antes dos primeiros escritos evangélicos.

São inegáveis os vestígios da religião pagã na simbologia cristã. Porém, os Cristãos moldaram os elementos que utilizaram como símbolos da fé, conferindo-lhes, assim, um carácter original.

- COINCIDÊNCIA – «Langdon sentia-se tudo menos feliz, e coincidência era um conceito em que não acreditava por aí além. Como alguém que passara a vida a explorar as interligações escondidas de emblemas e ideologias díspares, tinha tendência para ver o mundo como uma trama de histórias e acontecimentos profundamento entretecidos».

Nada de menos criterioso de ponto de vista da ciência e da sua metodologia.

- CRUX GEMMATA - ostentada por BEZU FACHE - «um ideograma cristão de Cristo e dos seus doze apóstolos»

Como poderia o chefe da Polícia Judiciária ostentar um símbolo religioso nos serviços públicos da França que os proíbe nas escolas e em todos os serviços públicos?


D

– DAGOBERTO II, - «Para garantir a segurança do filho ainda não nascido de Jesus Cristo, não teve outro remédio senão fugir da Terra Santa. Com a ajuda do tio de Jesus, José de Arimateia, chegou a França, na altura conhecida como Gália, onde encontrou um refúgio seguro entre a comunidade judaica. Foi aqui, em França, que deu à luz uma filha. Que se chamou Sara.(...) Inúmeros eruditos dessa época registaram a estada de Madalena em França, incluindo o nascimento de Sara e a subsequente árvore genealógica» (p. 306) «(...) a linha de Cristo cresceu secretamente em França até que, no século V, num golpe de ousadia, se misturou pelo casamento com o sangue real francês e deu origem a uma linhagem que conhecemos como dos Merovíngios» (p. 309).

Descendentes dos merovíngios seriam, então, todos os da Casa de Lorena, incluindo Maria Antonieta (por via paterna de Francisco III, da Duque de Lorena) guilhotinada, em 1793, não propriamente pelo Vaticano. E outro tanto com o seu filho, o Delfim, Luís XVII, cujo desaparecimento continua a alimentar fantasias. De resto, veja-se a lista dos grão-mestres do denominado Priorado de Sião (p. 390), onde encontramos Carlos de Lorena (1746-1780) e Maximiliano de Lorena (1780-1801). Mas também os Capetos tinham sangue merovíngio. No mais, vale a pena lembrar que Dagoberto II foi canonizado.

Depois, a ideia de José de Arimateia ser tio de Jesus vem soprada pelo meio, como se não passasse de mera especulação.

- DOSSIERS SECRETOS - «Não havia estudioso do Priorado nem maníaco do Graal que não tivesse lido os Dossiers. Catalogados sob o Número 4º Iml 249, os Dossiers Secrets tinham sido autenticados por muitos especialistas e conformado de forma incontroversa aquilo que os historiadores suspeitam havia muito tempo: os Grão-Mestres do Priorado incluíam Leonardo da Vinci, Botticelli, Sir Isaac Newton, Victor Hugo e, mais recentemente, Jean Cocteau, o famoso artista parisiense» (p. 251).

Sabe-se hoje que tais manuscritos foram forjados e introduzidos ilicitamente na Biblioteca Nacional de Paris. De resto, o seu autor, Philipe de Chérisay, – por não lhe ver paga a quantia prometida para executar a encomenda – chegou a demandar judicialmente os actuais membros do Priorado de Sião.

Relativamente a Botticelli, vale a pena recordar a última fase da sua pintura, reflexo de elevados sentimentos de uma piedade austera e grave, fruto porventura da proximidade com Savonarola, o qual não devia achar graça nenhuma ao Priorado do Sião na cidade de Florença que dominou nos finais do séc. XV.

E

– ESFINGE - «Dizia-se que o falecido presidente francês, que encomendara a pirâmide a Pei , sofria de um complexo faraónico. Responsável por ter enchido Paris de obeliscos, obras de arte e artefactos egípcios, François Miterrand tivera uma tal afinidade com a cultura nilótica que os franceses continuavam a chamar-lhe a Esfinge.» (p.31) a «pirâmide fora, por exigência expressa do presidente Miterrand, construída com exactamente 666 painéis de vidro – estranha exigência que sempre fora um tema quente entre os adeptos da teoria da conspiração, os quais afirmavam que 666 era o número de Satanás» (p.35)

Não se vê que Miterrand tenha promovido assim tanto a egiptologia, em Paris. As demais grandes obras dos seus dois septanatos como Presidente da República deixaram o Arco da DÉFENSE, o QUAI D’ORSAY e LA VILETTE. A menos que se considere que o EURODISNEY é também um sinal esotérico dos cultos egípcios da fertilidade.

Depois, o número 666 – o número da besta - é associado ao anti-Cristo, não por nenhuma fonte gnóstica, mas pelo Apocalipse.

- ESCRITA SUB ROSA - «Os Romanos penduravam uma rosa sobre o local onde se reuniam para indicar que essa reunião era confidencial. Os presentes sabiam que o que quer que fosse dito sob a rosa tinha de permanecer secreto».

A escrita a vermelho indica, na liturgia cristã, aquilo que não se lê em voz alta, mas não significa que seja segredo. A côr vermelha tem variadíssimos sentidos. Escrever sub rosa é escrever a vermelho (rosso, rojo, rouge).

F

– FLOR-DE-LIS

Sempre que virmos representada a flor-de-lis, estaremos a ser destinatários de uma mensagem alusiva ao sagrado feminino e à descendência merovíngia ?

A flor-de-lis, de acordo com a lenda, teria sido adoptada como símbolo da realeza francesa por Luís VII, depois de ter sobrevivido a uma batalha num campo coberto de lírios. Desde então ficou conhecida como flor de S. Luís, flor de luís. Nada tem a ver como Ísis.

Os especialistas supõem, porém, que o lírio heráldico, remonte a Framundo, rei dos francos, no século V. Com Carlos V (1364-80) as pétalas foram reduzidas a três, em honra da Ssma Trindade.

G

- GNÓSTICOS - «uma cadeia ininterrupta de conhecimento» (p.15)

«Uma questão séria, ignorada pelo Código Da Vinci é a seguinte: Por que devem os escritos gnósticos merecer maior credibilidade que os canónicos se foram redigidos 50 a 300 anos após os livros do Novo Testamento? É fácil criticar os escritos canónicos e pôr em causa os episódios ali relatados. Mas, sem os Evangelhos canónicos não conheceríamos o Jesus Histórico, nenhuma narrativa sobre a sua vida, nem o que disse nem como actuou ou se relacionou com os outros.

Os Evangelhos canónicos diferem dos gnósticos por se encontrarem repletos de narrativa, concretos detalhes, figuras históricas, actividade política e observações sobre a vida social e religiosa (*de resto, em sintonia com escritos da época de autores não cristãos, como Flávio Josefo).

Contrariamente à afirmação de que a Igreja primitiva roubara Jesus e encobrira a sua mensagem humana, num impenetrável disfarce divino, usado para expandir o poder, a intenção da Igreja sempre foi a de sublinhar a faceta humana e divina de Cristo e relatar a história da sua vida na terra, sem ocultar o sofrimento, a mágoa, a alegria e o sangue que tão frequentemente a acompanham. A Igreja primitiva esforçou-se em afirmar Jesus como um ser humano histórico que viveu e morreu num lugar e num tempo específico e não numa terra não situada no tempo e no espaço (a terra do nunca). Procurou que a religião cristã se ancorasse na realidade histórica, contrastando com as mitologias aleatórias reinventadas ao sabor dos caprichos de cada sábio gnóstico.

GNOSIS = conhecimento secreto, esotérico. Os gnósticos usam termos que só os próprios compreendem, de conhecimento reservado a uma elite iniciada. Os evangelhos gnósticos descrevem Jesus –não como um carpinteiro, mestre e profeta que viveu entre nós, mas como uma criatura fantasmagórica. Um espírito que, por vezes, habita um corpo e, por vezes, não. Que fala numa linguagem só acessível a um grupo restrito. Nesta corrente se baseia o Código Da Vinci.

Uma das correntes gnósticas afirmava que Jesus apenas aparentava ser um homem. Estes crentes desprezavam o corpo físico e o reino material. Se o mal envolve o reino material, por que razão Jesus teria algo que ver com esse reino? E por que razão nos deveríamos preocupar com a história da vida comum das pessoas comuns? Jesus era um dos mais altos eões - æons (=eões,eternidade), ou seres intermediários - que desceu à terra, não para sofrer e morrer, mas para libertar a divina centelha de luz retida na matéria. Não era um salvador mas um revelador. O gnosticismo era exclusivo, elitista e esotérico (oculto), acessível apenas a uns quantos.

Pelo contrário, o Cristianismo é inclusivo, aberto a todos, exotérico (comum, popular) e não esotérico, ao alcance de todos os que acreditam nas verdades da fé reveladas por Jesus e que com Ele estabelecem uma relação de amor.

É flagrante a contradição entre a afirmação de que os cristãos não acreditariam na natureza divina de Jesus e na sua ressurreição e o entusiasmo com que o pregavam e por Ele entregavam frequentemente a vida, enfrentando a morte nas arenas, nas bocas dos leões, morrendo sob o jugo da espada ou do fogo. Se Jesus não tivesse ressuscitado, os apóstolos não teriam recobrado as forças, emergindo do desalento que lhes incutiu a morte de Jesus, com confiança redobrada.

E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão. Enquanto isto diziam, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dominados pelo espanto e cheios de temor, julgavam ver um espírito. Disse-lhes, então: «Porque estais perturbados e porque surgem tais dúvidas nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho.» Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como, na sua alegria, não queriam acreditar de assombrados que estavam, Ele perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa que se coma?» Deram-lhe um bocado de peixe assado; e, tomando-o, comeu diante deles. Depois, disse-lhes: «Estas foram as palavras que vos disse, quando ainda estava convosco: que era necessário que se cumprisse tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos.» Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar de entre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas.
(S. Cirilo de Alexandria (380-444), bispo e doutor da Igreja - Comentário sobre o Evangelho de João)
"Vede as minhas mãos e os meus pés: sou mesmo eu"
Ao entrar no Cenáculo com todas as portas fechadas, Cristo mostrou uma vez mais que é Deus por natureza e que não é diferente daquele que antes vivia com os discípulos. Ao descobrir o seu lado e ao mostrar a marca dos cravos, manifestava com evidência que reergueu o templo do seu corpo que tinha estado suspenso da cruz, destruindo a morte corporal pois, por natureza, Ele é a vida e é Deus.
Quando chegou o momento de transformar o seu corpo através de uma glória inexprimível e prodigiosa, vemo-lo que se preocupa tanto em confirmar a fé na ressurreição futura da carne que quis, de acordo com o plano divino, aparecer tal como era antes. Assim ninguém pensaria que Ele tinha então um corpo diferente do que tinha morrido na cruz.
Mesmo se Cristo tivesse querido manifestar a glória do seu corpo diante dos discípulos antes de subir para o Pai, os nossos olhos não teriam podido suportar tal visão. Compreendê-lo-eis facilmente se vos recordardes da Transfiguração que anteriormente tinha ocorrido sobre a montanha.
Por isso, a fim de cumprir exactamente o plano divino, o nosso Senhor Jesus apareceu ainda, no Cenáculo, sob o seu aspecto anterior e não segundo a glória que lhe é devida e que convém ao seu Templo transfigurado. Não queria que a fé na ressurreição se baseasse num aspecto e num corpo diferentes dos que recebeu da Santíssima Virgem e em que morreu, depois de ter sido crucificado segundo as escrituras. Com efeito, a morte só tinha poder sobre a sua carne, de onde iria ser expulsa. Porque, se não foi o seu corpo morto que ressuscitou, que espécie de morte foi então vencida?
Na primeira manhã de Páscoa, não foi uma aparição fantasmagórica de Jesus que os apóstolos e as santas mulheres viram. Viram Jesus em carne e osso, mas de uma forma diferente, tal como o carvalho é diferente da bolota que lhe deu origem. Tocamos aqui no mistério de um corpo específico, não só no mistério do corpo de Jesus mas também no mistério do nosso próprio corpo, no corpo que há-de representar-nos exprimindo o melhor de nós, sem nos perturbar o espírito com fadigas e revoltas, reflectindo o que somos com tranquilidade e alegria. É um mistério para além da nossa imaginação, mas é o centro da nossa fé. À medida que envelhecemos, nada na fé faz mais sentido do que a Paixão e a Ressurreição, com a certeza de que o nosso corpo, tal como o de Jesus, tem que sofrer e morrer, mas com a convicção de que, tal como Jesus, teremos também uma vida para além da morte, uma vida de carne e osso, de corpo e alma. »
( CARL OLSON/SANDRA MIESEL - A Fraude..., ob. cit., pp. 66 e segs.)

O dualismo gnóstico

« O mal é o invólucro material ou carnal em que as partículas da luz divina caíram ao começo, na linha do mito de Dionísio na sua forma órfica. O mal não é uma transgressão ética (axiológica) mas do ser (ontológica).Enquanto que, na Bíblia, a expulsão é uma decadência radicalmente ligada a esta transgressão, a queda gnóstica é a das centelhas divinas na prisão da matéria do corpo humano. A redenção consiste em libertar-se deste invólucro carnal e regressar ao Pleroma. O ascetismo caracteriza algumas seitas gnósticas, conhecidas pela sua licenciosidade sexual, outra forma de desvalorização do corpo humano, o qual, para estes grupos, não se encontra destinado à salvação. Com Marco, chefe de uma seita gnóstica do séc. II, a actividade sexual fora do casamento é uma forma de tomada de consciência espiritual. Marco comprometia certas mulheres a tornarem-se profetisas. Ao invés, os naazenos praticavam uma forma de emasculação.

A descrição do jardim do Éden transforma-se do modo seguinte: a árvore do bem e do mal torna-se veículo de conhecimento (gnosis) estabelecida pelo reino divino do Pleroma. Ao invés, a árvore da vida torna-se veículo da escravidão e da dependência estabelecidas pelo reino do Demiurgo. O mensageiro divino do Pleroma – a Serpente – encoraja a mulher a comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Comendo, o homem descobre que o ciumento Demiurgo não é o deus supremo, mas um inimigo de Deus. É um deus invejoso porque se apercebe de que não é o único Deus. O Demiurgo lança então o homem num corpo terrestre. A serpente é o símbolo da sabedoria. A seita dos naazenos e a dos ofitas (da palavra hebraica ‘nahas’ e do grego ‘ophis’, ambas significando serpente) veneram este animal. Alguns viram nesta veneração o fascínio pelas ondulações serpentinas que sugerem o movimento circular perpétuo do universo e o poder cósmico que este movimento comporta. Depois da serpente, Eva era também venerada como iniciada de um conhecimento salvífico.

Na morte, os gnósticos fazem a experiência do despertar, deixando atrás os vestígios da mortalidade, elevando-se através do reino dos planetas, como através de um Purgatório, até que atingem o limite de tudo o que constitui o mal e franqueiam o reino eterno. Esta viagem ascendente é necessária na medida em que são os planetas, éons sujeitos ao Demiurgo, que foram os agentes da privação aos homens da luz no túmulo do seu corpo.

Antropologia gnóstica

Há três classes de seres humanos: os pneumatikoi (espirituais), os psychikoi (psíquicos) e os sarhkikoi (carnais). Os primeiros são aqueles que possuem partículas da divindade, bastando lhes despertar para herdarem o seu destino; os segundos são os que devem trabalhar para a sua salvação, sendo muitas vezes assimilados aos cristãos não gnósticos. É-lhes possível alcançar a salvação pelas obras morais de que os primeiros se encontram dispensados. A última classe é a daqueles que não têm oportunidade nenhuma de alcançar a salvação e se encontram destinados à destruição.

Homem e mulher

A diferença de géneros faz parte da maldade da criação. Originariamente, toda a vida seria andrógina ou hermafrodita, mesmo no mundo dos éons. No tratado sobre as origens do mundo, sete seres andróginos surgem no seio do caos. Têm um nome masculino e um nome feminino. No tratado Trimophica Protennoia (200 d.C.) declara-se aquela que se apresenta desde o início como Protennoia, o pensamento que permanece na Luz: «Sou andrógino. Sou mãe e pai, pois copulo comigo próprio e com aqueles que me amam e é através de mim que tudo se mantém firme. Sou as entranhas que dão forma ao Todo dando origem à luz que brilha no esplendor. Sou o Éon que virá. Sou o cumprimento de tudo, ou seja Meirothea, a glória da Mãe. Projecto som da voz nos ouvidos dos que me conhecem. E convido-vos para a luz exaltada, perfeita».

A redenção passa pela abolição da diferença sexual. Assim, lê – se no Evangelho de Tomé (logia 27) « Disse-lhe Jesus: ‘(...) Se fizerdes o homem e a mulher um só a fim de que o homem não seja mais homem nem a mulher seja mulher, então entrareis no Reino.» A última logia é ainda mais explícita: «Que Maria saia de entre nós, pois as mulheres não são dignas da vida. Disse Jesus: Vede. Eu farei dela homem para que também se torne um espírito vivo como vós, homens! Porque toda a mulher que for feita homem entrará no Reino dos Céus».

Os naazenos acreditavam que Adão tivesse sido hermafrodita. Apoiavam-se, de resto, na Epístola de S. Paulo aos Gálatas (3,28): «Não há judeu nem grego, nem escravo nem homem livre, nem homem nem mulher, porque todos vós sois um em Jesus Cristo.» O contexto soteriológico desta afirmação de Paulo não é tomado em conta pelos gnósticos, nem tão pouco o versículo imediatamente anterior: «Porque vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo: vós que fostes baptizados em Cristo, estais revestidos de Cristo».

Jesus

Para o gnosticismo dos séc. II e III Jesus é um dos éons superiores e, o mensageiro divino, aquele que vem despertar as partículas de luz precipitadas nas criaturas espirituais (os pneumatikoi) . Como éon superior, não pode encarnar, pois de outro modo participaria da materia e não poderia desempenhar o seu papel redentor. No NT encontra-se já uma advertência contra esta ideia, no início do cap. 4 da 1ª Carta de João: «Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, pois muitos falsos profetas apareceram no mundo. Reconhecereis que o espírito é de Deus por isto: todo o espírito que confessa Jesus Cristo que veio em carne mortal (sarki) é de Deus; e todo o espírito que não faz esta confissão de fé acerca de Jesus não é de Deus. Esse é o espírito do Anticristo, do qual ouvistes dizer que tem de vir; pois bem, ele já está no mundo». Alguns gnósticos contudo professam que o Cristo divino, o éon superior, desceu sobre o homem Jesus no momento do seu baptismo por João Baptista e deixou-o antes da crucificação. Nesta perspectiva, Cristo e Jesus são duas entidades diferentes, uma espiritual, a outra material. Outros sustentavam que Jesus possuía um corpo divino e não humano. Outros ainda ensinavam que Jesus era um fantasma e que embora do seu nascimento à morte tivesse parecido humano não tinha sido realmente. A aparência humana é apenas um instrumento ao serviço do fim pretendido pelo Pleroma. No cânone de Marcião o único dos quatro evangelhos tradicionais conservado, o de Lucas, foi esvaziado de todos os elementos que ligassem Jesus à história da sua época. Ora, de todos os evangelhos canónicos o de Lucas é o mais rico de pormenores históricos. Para Marcião, estes elementos são indesejáveis na medida em que apelam para o Jesus histórico e pessoal. Para o docetismo Jesus não podia ter sofrido o suplício da cruz. Quanto à resurreição, Jesus libertou-se do invólucro carnal. Este elemento gnóstico e docetista encontra-se no Corão que afirma não ter sido Jesus crucificado, mas um outro homem em sua vez.

Implicações sociais do gnosticismo

As teorias gnósticas não estão isentas de consequências sociais. Com efeito, se a concepção da realidade terrena como ‘acósmica’, ‘sem ordem’, põe em causa a existência de um direito natural, faz um juízo negativo sobre a vida e sobre a procriação, destruindo as bases da sociedade, da família e da civilização, em geral. Por conseguinte, o gnosticismo não só é alternativo ao cristianismo, como a pensamento grego e ao direito romano.

A afirmação do cristianismo sobre o gnosticismo não representa apenas uma questão intena da Igreja, mas o ponto de partida para a formação de uma civilização, a cristã, com o reconhecimento do valor tanto espiritual como temporal. Por tudo isso, o politólogo Erc Voegelin (1901-1985) interpreta a secularização do ocidente cristão como o efeito da acção de uma série de movimentos revolucionários, entre os que enumera a Reforma protestante, a Revolução Francesa, o marxismo, em que reconhece traços gnósticos comuns.

(ERMANNO PAVESI – El gnosticismo – www.catholic.net)

H

– HERESIA – laceração ou divisão profunda no seio da comunidade. «Ireneu de Lião insiste no facto de o ensino cristão ter garantia de autenticidade na ininterrupta sucessão dos bispos e dos presbíteros. Esta vinculação sugere como a discriminação do herege se situa, não só no que hoje respeita aos conteúdos do Credo, recebidos através de uma cadeia tradicional autorizada, mas também na sintonia com uma associação fraterna que determina, mediante guias constituídos e em continuidade com o património das origens, as modalidades da fé cristã». «Agostinho, que não hesita em considerar como ‘grandes homens’ os iniciadores das grandes heresias (In Psalmos, 1,24) chegará a escrever que os hereges, embora ‘fora da Igreja’, lhe prestam notáveis serviços, obrigando os católicos a procurar e sondar a verdade (De vera religione, 8,15).
(ANNIBALE ZAMBARBIERE, loc. heresia, Christos, Lisboa, 2004, p. 403)

- HIEROS GAMOS -«Ao comungar com a mulher – continuou Langdon – o homem conseguiu atingir um instante em que a sua mente ficava totalmente vazia e ele conseguia ver Deus» (p. 371)

A mulher como instrumento, ao fim e ao cabo, da gnose do homem. Depois, no meio destes rituais orgiásticos deve ter sido difícil ao Priorado de Sião estabelecer nexos de filiação exacta para preservar a linhagem do Sangue Real (Graal) !

I

– ISAAC NEWTON - «Newton está sepultado em Londres. Os seus trabalhos deram origem a novas ciências que incorreram na ira da Igreja». (p.465)

Não certamente da Igreja Católica, cuja influência na Inglaterra do séc. XVIII era inexistente. Por outro lado, Alexander Pope nem sequer esteve presente na inumação de Newton. Muito mais tarde, escreveu-lhe um poema, a título de epitáfio – Nature and Nature’s laws lay hid in night/ God said, ‘Let Newton be’ and all was light.
(MICHAEL HAAG/VERONICA HAAG - The Rough Guide to Da Vinci Code, Londres, 2004, p. 178)

- INGLÊS - « Ao contrário do francês, do espanhol ou do italiano, que tinham as suas raízes no latim – a língua do Vaticano – o inglês estava linguisticamente afastado da máquina de propaganda de Roma, tendo-se consequentemente tornado um idioma secreto e sagrado para as irmandades suficientemente eruditas para o aprenderem» (p. 364)

É bom não esquecer que cerca de metade dos vocábulos da língua inglesa têm raiz no latim.

J

– JEOVÁ (YHWH )– seria um anagrama de Yahweh (masculino) e Shekinah (p. 372)

«De modo surpreendente, Brown afirma que os judeus, no Templo de Salomão, adoravam Yahweh e a sua congénere Shekinah, mediante os préstimos de prostitutas sagradas – provavelmente, numa visão distorcida da corrupção do Templo, depois de Salomão (1 Reis, 14,24, 2 Reis 23, 4-15). Por outro lado, diz que o tetragrama JHWH resulta de ‘Jeovah’, uma união física andrógina entre o masculino Jah e o nome pré-hebraico de Eva, Havah.

Mas como poderia dizer qualquer aluno do primeiro ano de um curso de exegese bíblica, Jehovah é, na realidade, uma interpretação do séc. XVI de YHWH, usando as vogais de Adonai (Senhor). De facto, a deusa não dominava o mundo pré-cristão: nem as religiões de Roma, nem dos ditos bárbaros, nem do Egipto, nem sequer nos territórios semitas. Tão-pouco o culto de helenizado de Ísis parece alguma vez ter incluído o sexo nos seus ritos secretos»
(SANDRA MIESEL, loc. cit., p. 12)

L

– LEONARDO DA VINCI

Leonardo da Vinci, que o nosso tempo considera como a figura do génio universal, considera-se a si próprio como um iletrado – um ‘uomo senza lettere’ . Esta afirmação, feita para provocar aqueles que, em Milão, onde ele se encontra em 1487, invejam a sua posição de engenheiro do duque Ludovico, o Mouro, não é desprovida de fundamento. Destinado por seu pai a uma carreira de comerciante, Leonardo passou pela escola do ábaco (aritmética); nada sabe de latim, motivo por que procura adquirir os seus rudimentos em adulto, e ninguém o iniciou nas ‘humanidades’, ou seja, no conhecimento da literatura e da história da Antiguidade.

« A interpretação revisionista de Brown sobre Leonardo da Vinci é tão distorcida quanto o resto do livro (...) Um escritor que vê num dedo apontado um gesto de cortar o pescoço, que afirma que a Virgem dos Rochedos fora encomendada por uma ordem de religiosas e não por uma confraria masculina de leigos, que sustenta que Da Vinci recebeu centenas de encomendas chorudas da Igreja (na verdade, apenas uma ... e não executada) é simplesmente inconfiável.

A análise da obra de Leonardo é ridícula. Apresenta Monna Lisa como um auto-retrato andrógino, quando é por demais evidente que se trata de uma mulher real, Madonna Lisa, mulher de Francesco di Bartolomeo del Giocondo. (....)».
(SANDRA MIESEL – Dismantling The Da Vinci Code, in Crisis, n.º8, Set.2003 – www.santamelania.it)

M

- MAÇONARIA- « Sophie pareceu perturbada, e Langdon recordou subitamente o que ela lhe contara a respeito de o avô organizar caças ao tesouro – preuves de mérite .O criptex era, na realidade, um conceito semelhante. Por outro lado, provas como aquela eram extremamente comuns nas sociedades secretas. As mais conhecidas eram as da Maçonaria, em que os membros subiam na hierarquia provando ser capazes de guardar um segredo e submetendo-se a rituais e provas de mérito ao longo de muitos anos. As tarefas tornavam-se progressivamente mais difíceis até culminarem na admissão do candidato como maçon do trigésimo segundo grau». (p.249)

Também nos escuteiros, também em muitas profissões e nas artes marciais é comum este tipo de ascensão, mas sem o segredo.

Dan Brown faz a apologia da maçonaria sempre de forma subtil: Templo de Salomão – Templários – Construtores de Catedrais – Maçonaria; o pentáculo (o compasso e o esquadro).


«A Maçonaria é uma fraternidade mundial. Os seus membros estão juntos pela partilha de ideais de natureza moral e metafísica e, na maioria dos seus ramos, por uma crença comum num Ser Supremo. A maçonaria é esotérica, pois certos aspectos da sua actividade interna não são revelados ao público. Os maçons dão várias razões para tanto, uma das quais é a de que a maçonaria usa um sistema iniciático de graus para pôr à prova questões éticas e filosóficas e o seu sistema seria menos eficaz se o observador soubesse de antemão o que irá acontecer. Geralmente, chama-se a si própria ‘um peculiar sistema de moralidade envolto na alegoria e ilustrado por sómbolos»

– MARIA MADALENA - « A Igreja precisava de difamar Maria Madalena para encobrir o seu perigoso segredo: o papel dela como Santo Graal.» (p. 293)

«Sempre que Maria Madalena aparece (nos evangelhos canónicos), é em situações dignas de elogio. Apesar disto, a tradição acabou por converter esta mulher, discípula principal do Senhor e testemunha privilegiada da ressurreição, numa rameira penitente. Que se terá passado ?

Tudo começou com a referência misteriosa de Lucas quando fala dela pela primeira vez: «dela haviam saído sete demónios» (Lc 8,2). Os leitores perguntavam-se : que quer isto dizer? E imaginaram: se teve sete demónios (número simbólico que indica a gravidade da situação), é porque o seu passado deve ter sido vergonhoso e degradante.

Mas os leitores da Bíblia continuaram a perguntar: em que momento é que Jesus expulsou os sete demónios de Madalena? Isto, porque, até aqui, o Evangelho de Lucas só havia referido a cura de uma única mulher: a sogra de Pedro (Lc 4, 38-39). Quando é que esta outra cura teve lugar? Pensaram então ter encontrado a resposta numa segunda mulher, a pecadora pública que foi ter com Jesus, buscando o perdão dos seus pecados e que Lucas apresenta antes da aparição em ‘cena’ da Madalena.

Com efeito, Lucas diz que, um certo dia, Jesus foi convidado a comer na casa de um fariseu chamado Simão. Enquanto estavam à mesa, entrou uma mulher que era uma pecadora pública e, atirando-se aos pés de Jesus começou a chorar. Depois, desatou a cabeleira e, com ela, começou a enxugar-lhe os pés molhados pelas lágrimas. Seguidamente, pôs-se a beijá-los e a ungi-los com perfume. O dono da casa reconheceu imediatamente a mulher: era uma pecadora famosa em toda a cidade e ficou admirado pelo facto de Jesus se deixar tocar por ela.

Jesus, no entanto, sabendo o que ia na cabeça de Simão, defendeu a mulher. Além disso, aproveitou para o criticar porque, como dono da casa, deveria ter observado certos ritos de boas vindas quando da chegada de Jesus (lavar-lhe os pés, beijá-lo, perfumá-lo) e ele não havia feito nada disso. Ao contrário, a mulher, chorando e pedindo perdão pelos seus pecados, havia-se mostrado humilde e agradecida para com Jesus (Lc7, 36-50).

Terminado este relato, Lucas fala pela primeira vez em Maria Madalena (8, 1-3). Então, parece óbvio pensar que pela prostituta anónima que havia chorado pelos seus pecados e havia sido perdoada por Jesus, fosse precisamente a dos sete demónios, à qual Lucas, por delicadeza, não quis nomear para não a pôr em evidência diante dos leitores.

Uma vez convertida em prostituta, aconteceu uma nova confusão. Isto, porque S. Marcos conta que Jesus, poucos dias antes da sua morte, foi de novo convidado para comer, desta vez em Betânia, onde outra mulher se aproximou dele com um frasco de perfume muito caro e lho derramou sobre a cabeça. Os que estavam presentes indignaram-se contra ela pelo desperdício de dinheiro que acabava de fazer. Jesus defendeu-a e aprovou a sua atitude (Mc 14, 3-9).

O facto desta mulher (de Marcos) aparecer a fazer quase a mesma coisa que a pecadora (de Lucas) levou a pensar que se tratava da mesma pessoa, Maria Madalena. Assim, as três mulheres (Maria Madalena com os seus sete demónios, a pecadora anónima e a mulher de Betânia) passaram a ser uma só.

(...) Aberta esta porta, não houve piedade para com a pobre Madalena. A tradição posterior identificou-a ainda com a samaritana promíscua dos seis maridos (Jo, 4) e até com a adúltera surpreendida em pleno escândalo (Jo 8).~

Muitos Santos Padres se opuseram a estas interpretações, como foi o caso de Sto. Agostinho (séc. IV) , Sto. Ambrósio (séc. IV), Sto. Efrém (séc. IV). Mas o papa S. Gregório Magno, numa célebre homilia pronunciada na basílica de S. Clemente, em Roma, na sexta-feira, 14 de Setembro de 591, fixou de uma vez por todas a sua identidade.»

(ARIEL ALVAREZ VALDÉS – Enigmas da Bíblia: Novo Testamento, Difusora bíblica,Lisboa, 2004, pp.175 e segs.)

Já todavia na tradição cristã do oriente, nunca houve qualquer confusão. Por outro lado, sempre se acreditou na morte de Madalena em Éfeso, junto de Maria, Mãe de Jesus e de João.

N

– NEW AGE

«O crescimento contínuo do movimento New Age é uma de entre tantas manifestações do retorno religioso na forma de neopaganismo e de gnose. O New Age propõe uma nova forma de religiosidade que, por algumas manifestações próprias coincide com o sentimento religioso contemporâneo.

Mas, o que é exactamente o New Age? Uma nova moda religiosa? Uma evasão do mundo real ou a projecção de um mundo cheio de ilusão? É aquilo a que alguns chamam o regresso ao IV Reich? Ou ao invés é uma nova mentalidade religiosa que surge n mundo científico, frio e sem sentido transcendental no Ocidente?

(...) Os crentes católicos devem conhecer estas novas sensibilidades religiosas que falam de sincretismo, negam a revelação cristã e propugnam o culto do eu e de numerosas falsificações da fé cristã.

1) Definição e origem

a) O que é o New Age ?
É um conjunto de práticas aparentemente heteróclitas, mas unificadas por uma visão de humanização total (holista): técnicas de ‘ampliação da consciência’ e medicina da alma, astrologia ou channeling (comunicação com a entidade do mundo invisível), controlo do corpo por meio de artes marciais e através do isolamento sensorial ou terapias inócuas; controlo da natureza, ecologia (radical) ou o vegetarianismo. O New Age é um novo modo de ver a realidade das coisas. Segundo o definem os próprios fundadores, este movimento é ‘um novo paradigma’.

Por outro lado, Donald Leonard afirma que é um ‘lago esotérico e misterioso de onde fluem as correntes dos anos 60: ecologistas, movimentos radicais, ambientalistas e pacifistas. O movimento da Nova Era busca a libertação da natureza humana e cósmica das suas múltiplas dores e sofrimentos, não através de paradigmas políticos ou ideológicos, embora o New Age esteja ligado ao Partido Verde, mas por via da meditação e do conhecimento. Faz com que a humanidade penetre no nível de conhecimento espiritual-planetário, paraentrar numa ‘nova era’ caracterizada pela paz e pela felicidade.

A conhecida newager Marilyn Ferguson afirma que o New Age é uma ‘rede sem líderes, que trabalha para realizar mudanças radicais nos Estados Unidos’. Mas, segundo Franc Rodé, trata se de ‘um supermercado de religiões de onde cada um toma o que lhe agrada e deixa o resto’. E segundo as pesquisas sociológicas, trata-se de uma religiosidade destinada a converter-se num fenómeno de massas pela sua ambiguidade, pela sua força e capacidade de servir ao romantismo e ao sentimentalismo religioso da sociedade actual.

b) Origem e inspiradores

À pergunta de como nasce o New Age podemos responder que possui duas fontes principais de nascimento: a corrente do Aquário com Paul Le Cour e a Sociedade Teosófica com Alice Balley.

M.F. Jacques define com o nome de ‘percursores da era de Aquário ‘as correntes esoterocultistas, nascidas na segunda metade do século XIX. Este pensamento esotérico trata da transformação da civilização: de cada vez que o sol entre num novo signo zodiacal, isto é, à volta de cada 2.160 anos. A última transformação verificada foi a do cristianismo na Era de Peixes. Como tal, a próxima grande mudança, acompanhada pelo advento da era de Aquário, corresponderá a uma hecatombe, a que se seguirá a vinda de ‘um grande Rei’, o regresso do Cristo-Aquário e que marcará o início da idade de Ouro. A nova religião, então, será um esoterismo cristão e gnóstico, baseado no Evangelho de S. João, o verdadeiro evangelho de Aquário.

Também Alice Bailey (1880-1949), discípula da Sociedade Teosófica, esperava a transição para uma Nova Era, em que se reconciliariam todas as religiões na identidade das suas origens, baseada no que ela denominava a verdade eterna. Bailey desenvolveu as ideias gnósticas de Helena Blatavsky (1831-1891), como a nova encarnação do Cristo cósmico. ‘A doutrina teosófica da Sra. Blatavsky estriba-se num esquema de tipo gnóstico-neoplatónico; unidade essencial do todo, lei cósmica (karma), manifestações do espírito na matéria (avatara) e o regresso do homem ao espírito’. Crrar-se-ia uma religião mundial em que Deus será semelhante ao Brahman hindu, anunciado por todos os avatares, como Cristo, era após era. O espírito da Nova Era está na lei da reencarnação e continuará a revelação pelo no Salvador ou avatar.

2) Características
A característica principal do New Age é a sua preferência pela reflexão oriental de estilo panteísta, como caminho para viver uma nova religiosidade. Propugna um sistema religioso em que Deus se dissolve no divino e vem a ser uma ‘energia cósmica’. Deus identifica-se com o último da realidade das coisas, especialmente com a psique humana. O movimento da Nova Era busca o transcendente e não o sensível, para se libertar totalmente do terreno e unir-se à consciência cósmica ou consciência colectiva. Exclui a noção de criação e refuta toda a visão dualista do real.

Também se trata de uma visão ‘científica’ da realidade, baseando-se no holismo e na evolução. O holismo da física moderna, que identifica a matéria com as ondas da energia faz do universo, segundo Fritjof Capra, um ‘oceano de energia’ de onde tudo nasce, participa da mesma realidade e encontra-se em evolução constante.

Como técnicas, o New Age adopta a música, a dança, a arte, em geral, as artes marciais, o ioga, o budismo zen, o misticismo, a busca da sabedoria nas civilizações antigas, a magia, as drogas (naturais), o contacto com a natureza (a deusa Gaia) e outros métodos e técnicas. Utiliza a psicologia de Jung (consciência colectiva) e a psicologia humanística de Maslow que se baseia na experiência da unidade com o cosmos.

O New Age busca uma transformação cultural da sociedade, que inclui a substituição das religiões em nome de uma Nova Era. Este movimento nega também as verdades fundamentais da fé cristã, se bem que tenha como texto básico de estudo a Bíblia, especialmente o Evangelho Segundo S. João.

3) A fé do New Age

O New Age exprime uma concepção inovadora do mundo (do cosmos, na sua concepção mais exensa) com os seguintes adjectivos: holística (a realidade das coisas encontra-se no Todo), ecológica (a deusa Gaia é a Terra-Mãe que deve ser adorada), andrógina (o mundo é uma união do masculino e do feminino), mística (o divino pertence a um Todo) e mundial (consciência colectiva).

Neste movimento, transita-se da fé simples ao gnóstico ou às crenças ocultas, da religião à espiritualidade, da oração-súplica à oração-mantra, da obediência à experiência... A fé encontra-se fundamentada numa espiritualidade esotérico-mística em que se procura a unidade com uma visão totalizante das coisas. Promovem-se técnicas para explorar as fontes do Ser e do Uno onde se reforça o narcisismo do ego.

Na fé do New Age, há um profundo sentimento de vazio existencial e de um desejo divino não preenchido, em que se procuram razões para viver. O espiritual identifica-se com o emocional, aparece o culto de um mesmo e existe um misticismo pagão em que se adora uma divindade sem nome.

O mundo caminha para ‘uma maior unidade’ (nas palavras de Teilhard de Chardin). A cosmogénese, ou a organização da matéria em aglomerações sempre diversificadas, com o passar do tempo, produz a biogénese, ou a vida na terra. A vida cria a biosfera que se desenvolve nas formas mais complexas até chegar à criação do cérebro. Aqui encontramo-nos na antropogénese, a ascensão até ao homem. O homem é o resultado final por cima de todos os seres do universo. Por isso, o homem é pessoa enquanto é consciência pensante de si mesmo. Depois, tem origem um desenvolvimento de nível cósmico: a consciência não é apenas vida, mas reflexão. Então, a unidade atinge o domínio absoluto sobre a própria evolução e pode decidir sobre si mesma. Posteriormente, o homem evolui para a noegénese ou a génese do espírito, criando uma nova era de luz e amor.

O objectivo planetário do New Age é a criação de um sistema nervoso verdadeiro e próprio da nova humanidade: a comunidade científica mundial (edicação mundial). Esta é a transformação da era do Aquário que nos levará ao Ómega que é a realidade total e totalizante, o primeiro motor da actividade humana que possui dimensões universais. Também é incorruptível, transcendente, unificadora. É o Amor Divino.

Gnose e razão encontram-se relacionadas entre si, e isto deve-se a uma dúvida fundamental, contemplando a capacidade da razão e da consciência moderna de responder às mais profundas interrogações do homem. O objectivo dos neognósticos ou New Age é reconduzir o abismo que o saber puramente racionalista (positivismo e materialismo ateu) produziu no mundo, desiludido, todavia, e sem esperança.

A revista NEWSWEEK publicava, não há muito tempo, uma análise sobre as inclinações espirituais e religiosas nos Estados Unidos, indicando que a lei da oferta e da procura e os truques comerciais que se estão a aplicar já às diferentes comunidades religiosas cristãs.

Deste modo, a lei do mercado faz com que a eficácia de um pastor protestante ou de um sacerdote católico não semeça pelo seu exemplo de fidelidade às Sagradas Escrituras ou à pregação própria, mas à quantidade de gente que acorre à igreja e à quantidae de dólares arrecadados nas cerimónias religiosas. Assim, para que a religião convença deverá observar as ‘prescrições de qualidade’ próprias de um mercado competitivo, porque aparentemente isto é do que se trata, de ganhar clientela. A NEWSWEEK aponta três:
1. Apresenta-se como um cardápio de restaurante. As diversas confissões e igrejas oferecem doutrinas entre as que cada pessoa escolhe, segundo os seus gostos. Não se trata de pertencer a uma determinada fé, mas de i-la fazendo à medida, escolhendo um pouco desta religião e um pouco de outra.
2. Religiosidade entendida como feeling ou sentimento. Não existe interesse nenhum pela formação religiosa nem pelo aprofundamento da fé ou nos fundamentos próprios da religião. As crenças que se admitem são epidérmicas e não exigem uma adesão de compromisso com nenhuma religião em concreto.
3. Religião fácil. É uma religiosidade baseada numa intensa vida social, com vista a satisfazer o sentimento religioso próprio de todos.

Por outro lado, o credo New Age é ambíguo e procura a satisfação de todos os gostos e meios espirituais a escolher. Evidentemente, possui ‘dogmas’ ou directrizes adoutrinais, ainda que não se apresentem como tal:
1. Recusa radical da filosofia e da religião da Old Age, ou seja, frontal oposição à cultura judaico-cristã. Promove as religiões pagãs (ritos celtas, mitologia germânica).
2. Confronta o dualismo ocidental denominado ‘Deus e homem’, considerando que a humanidade é una, a natureza e a humanidade uma só realidade, o universo e Deus são um só.
3. Propõe o livre exame da percepção da realidade, onde cada um interpreta como quiser as religiões e a realidade existencial que as rodeia, frente ao dogmatismo das religiões tradicionais.
4. Prega a Era de Aquário que teoricamente nos trará uma era de harmonia e paz cósmica ao longo do Terceiro Milénio. Nascerá assim uma nova religião, sob a chegada de um Cristo Aquário libertador.

Frente a este credo, encontramo-nos com outra realidade e o facto é palpável na expansão vertiginosa do New Age por todo o globo – múltiplos seminários, um sem fim de cursos, revistas e livrarias. Concretamente, criaram-se cerca de 50.000 centros e livrarias New Age que, com imagens e rótulos diversos, se reproduzem por todo o lado, comercializando todo o tipo de objectos, plantas, curiosidades diversas. Há cerca de 100.000 livros publicados sobre qualquer tema que desenvolva um pensamento newager, como se tratasse de apostolado escrito. No mais, pululam numerosos supermercados e farmácias especializados em alimentos newagers (alimentos ecológicos, vegetarianos, de relaxe) e medicinas alternativas.»
(New Age: el retorno del gnosticismo? Una nueva moda religiosa ¿ in www.conoze.com)

O

– OPUS DEI – cilício (p.23), proibição de fechaduras em Lexington Avenue (p.23), «os pecados que cometera naquele dia tinham sido santos no seu objectivo. Havia séculos que o direito sagrado sancionava a guerra contra os inimigos de Deus. O perdão estava garantido. Mesmo assim, Silas bem o sabia, a absolvição exigia sacrifício.» (p. 25), «mortificação corporal aconselhada por mons. Escrivá (p. 25) «Dois meses antes, um grupo da congregação numa universidade de Mid West fora apanhado a drogar novos recrutas com mescalina na tentativa de induzir um estado eufórico que os neófitos tomassem por uma experiência religiosa. Um outros estudante universitário usara o seu cilício durante mais tempo do que as recomendadas duas horas diárias e contraíra uma infecção que quase o matara. Em Boston, bastante recentemente, um jovem e desiludido banqueiro doara as poupanças de uma vida inteira à Opus Dei antes de tentar suicidar-se» (p.45). «A Opus Dei é uma prelatura pessoal do próprio Papa» (p. 46)

Aqui temos o exemplo de cruzamento entre ficção/informação, desta feita selada pelo jornalismo, como garantia de veracidade.
Prelatura pessoal significa jurisdição pessoal e não territorial, como é próprio da jurisdição dos bispos nas suas dioceses (cânones 294 e segs. do Código de Direito Canónico, de 1983). Para Dan Brown é uma espécie de Guarda Suiça do Papa, mas oculta e muito mais poderosa.



Publicado por jmeq em 11:01 PM

Carta aberta ao senhor padre Nuno Serras Pereira


Tendo lido o anúncio feito publicar por V. Exa. na edição do PÚBLICO de 2 de Março, na pág. 16, participando recusar a sagrada comunhão às categorias de pessoas que ali identifica, fiquei porém sem saber em que igreja ou capela exerce o seu ministério, pois constitui minha firme vontade optar por receber o SS Corpo de Cristo de outras mãos que não as suas.
Para esse efeito, escusa de gastar os 1386 euros que despendeu. Um breve classificado chegará. Tenho para mim que os lugares próprios para V. Exa. advertir os fiéis que a Igreja lhe confiou são o púlpito e o confessionário, evitando o escândalo público, o qual, por não poder ser-me indiferente, constituirá objecto de um protesto que conto fazer chegar ao cardeal-patriarca de Lisboa.
Deus é amor e só com amor se pode falar de Deus. Se o senhor padre não consegue falar com amor junto daqueles a quem tanto receia "dar" a sagrada comunhão, é caso para rever a sua vocação sacerdotal, entregando-se porventura à contemplação monástica que Nosso Senhor decerto mais apreciará.

André Folque

Membro da Comissão de Liberdade Religiosa
Lisboa



Publicado por jmeq em 05:15 PM

Padre recusa dar comunhão aos católicos que usam métodos contraceptivos.


Anúncio publicado hoje na imprensa

02.03.2005 - 16h13 Lusa

Um padre católico português anunciou hoje a sua recusa em dar a comunhão aos católicos que usam métodos contraceptivos, que recorrem à reprodução assistida ou que aceitam a actual lei em vigor sobre o aborto.
O padre Nuno Serras Pereira invoca o cânone 915 do Código de Direito Canónico para, "na impossibilidade de contactar pessoalmente as pessoas envolvidas", lhes dar conhecimento público de que "está impedido de dar a sagrada comunhão eucarística a todos aqueles católicos que manifestamente têm perseverado em advogar, contribuir para, ou promover a morte de seres humanos inocentes".

Nesta categoria incluem-se, de acordo com o padre Nuno Serras Pereira, todos os que usam "diversas pílulas, DIU [dispositivo intrauterino] e pílula do dia seguinte" e os que recorrem a "técnicas de fecundação extra-corpórea, selecção embrionária, criopreservação, experimentação em embriões" e outros métodos de reprodução medicamente assistida.

Votar ou participar em campanhas a favor da legalização do aborto, aceitar ou concordar com a actual lei em vigor e defender a eutanásia também são motivos que impedem o padre de dar a comunhão.

O cânone 915 diz que "não são admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto", explicou à Lusa o professor Saturino Costa Gomes, director do Instituto Superior de Direito Canónico.

Ou seja, "os sacerdotes podem recusar a comunhão" a todos os católicos relativamente aos quais têm conhecimento de que cometeram ou cometem um pecado grave, segundo o que está estabelecido nos preceitos da Igreja Católica.

O Patriarcado não quis prestar declarações sobre o assunto.



Publicado por jmeq em 05:14 PM

DESENVOLVER A EUROPA: UM NOVO PACTO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL.


Publicado no jornal "PÚBLICO" em 24 de Fevereiro de 2005

Por José Sócrates, Göran Persson e Poul Nyrup Rasmussen

A Europa está novamente numa encruzilhada. Tendo realizado com êxito a integração de dez novos Estados na União Europeia, enfrentamos agora o desafio de fazer da União alargada um sucesso, digno dos seus 450 milhões de cidadãos. A formidável tarefa de ratificar o Tratado Constitucional Europeu será um feito único. Mas o nosso primeiro desafio prático será, talvez, esta Primavera, quando revirmos a nossa estratégia para tornar a Europa um continente de mais e melhor emprego, de bem-estar social e de sustentabilidade ambiental.
O muito elogiado modelo europeu é admirado em todo o mundo. Difundimos a cobertura dos serviços de saúde e dos serviços sociais básicos, estamos a progredir no sentido de alcançar os níveis ambientais internacionais e somos agora o maior bloco comercial no mundo.
Mas existe um vasto consenso de que muito do nosso potencial continua por alcançar. O crescimento estagnou. A percentagem da população a trabalhar, no universo da população activa, continua longe do objectivo, situando-se nos 63 por cento, nível inaceitavelmente baixo. Num número considerável de Estados-membros existem ainda muitas pessoas desempregadas e à procura de trabalho. E enfrentamos ainda desafios demográficos que podem minar os nossos sistemas de segurança social, se não lhes dermos resolução desde já.
Desenvolver a Europa não é uma tarefa fácil. Mas não há espaço para pessimismos. Nós temos a capacidade, os recursos e os instrumentos para agir. A Agenda de Lisboa demonstra-o. Criada em 2000, e munida com uma dimensão ambiental em 2001, tem determinado a estratégia de desenvolvimento da Europa. Pretende contrariar a falácia segundo a qual competitividade económica, elevados níveis de bem-estar social e sustentabilidade ambiental eram incompatíveis e impossíveis de atingir em conjunto. É hoje consensual que a Finlândia, a Dinamarca e a Suécia estão entre as cinco nações mais competitivas, ao lado de Taiwan e dos Estados Unidos. Mas os padrões de competitividade destas três nações europeias e dos Estados Unidos, ou de Taiwan, provam o acerto do paradigma de Lisboa. Finlândia, Dinamarca e Suécia conseguiram combinar competitividade com elevados níveis ambientais e sociais. Os Estados Unidos e Taiwan estão longe de os alcançar.
Temos assistido a progressos na concretização dos objectivos da Estratégia de Lisboa desde 2000. Foram criados mais de seis milhões de novos empregos - criação de emprego que se manteve enquanto o crescimento económico ocorria. Há também mais mulheres a trabalhar actualmente, e estamos perto de alcançar o objectivo de aumentar o número de mulheres com emprego para os 60 por cento, em 2010. Mas existe ainda um longo caminho a percorrer.
Este progresso mostra que as três dimensões de Lisboa funcionam. Mas o que foi alcançado até ao momento não é suficiente. É claro que o progresso para alcançar a Estratégia de Lisboa e um maior crescimento estão ligados. Um não pode acontecer sem o outro. Cada um de nós deve trabalhar para alcançar estes objectivos nos nossos Estados-membros, mas devemos igualmente trabalhar em simultâneo e de forma coordenada.
Em conjunto, devemos centrar-nos numa estratégia de desenvolvimento da Europa e reforçar os seus mecanismos de implementação. Necessitaremos de mais cooperação, mais empenho e maior escrutínio das nossas políticas nacionais conjugadas. Agora que vamos proceder à revisão intercalar da Estratégia de Lisboa no Conselho Europeu de 23 de Março próximo, devemos reconhecer que uma estratégia global de desenvolvimento deve ser destacada. Completar o mercado interno e melhorar os mecanismos europeus de competitividade das empresas fazem parte de uma equação maior. As empresas europeias não funcionam no vácuo. Elas existem no contexto de uma sociedade. Por esta razão, o progresso social e ambiental tem de avançar de mãos dadas com a competitividade. Os trabalhadores e cidadãos europeus querem mais empregos, mas também melhor qualidade de vida.
Passos maiores devem ser dados para limitar a produção que prejudica o ambiente e o consumo através de melhor regulação e mais investimento. A agressão ambiental impede a competitividade de longo prazo. Da mesma forma, as políticas sociais e a segurança social devem ser desenhadas como um investimento no capital humano. Políticas activas no mercado de trabalho, escoradas numa segurança social geradora de capacidades, ajudando os desempregados a ganhar nova motivação e novas competências num curto espaço de tempo. Uma estratégia real para garantir a não discriminação das mulheres dando-lhes mais e melhores empregos, bem como providenciar cuidados infantis gratuitos ou de custos aceitáveis para todos e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, tanto de homens como de mulheres. Acção contra a pobreza, mantendo as pessoas no emprego ou em formação ao longo da vida, apoiando-as em tempos de mudança.
A chave para o progresso sustentável e para um melhor nível de vida na Europa está na combinação daquilo que fazemos, juntos e separados; temos de entender que as reformas no mercado de trabalho, nas políticas de emprego e no incremento da produtividade - isto é, do lado da oferta - não nos garantem números suficientes de mais e melhor emprego por si só, sem que haja iniciativas para aumentar a procura. São cruciais investimentos públicos específicos, bem como políticas públicas para o ambiente, para a educação e a formação ao longo da vida, para infra-estruturas e para políticas activas de emprego. Devem perseguir-se políticas macroeconómicas específicas, pró-activas e ambiciosas como suplemento à inovação ligada à iniciativa privada e ao espírito empreendedor. A Estratégia de Lisboa pode alcançar estes objectivos. Mas temos de elevar os nossos esforços ao nível das nossas ambições, tanto individual como colectivamente, actuando em simultâneo através da nossa interdependência mútua de uma forma pró-activa.
É fundamental que a Estratégia de Lisboa venha a constituir um pacto com os trabalhadores europeus, cidadãos e empresas. Este pacto deve ser uma verdadeira parceria que traga benefícios de valor para todos. Nenhum "accionista" pode ficar de fora. Uma agenda simplesmente económica não será suficiente para restabelecer a ligação entre a Europa e os seus cidadãos.
Nós propomos que se faça da Estratégia de Lisboa um plano de acção concreto a cinco anos para "Desenvolver a Europa", com a indicação precisa de decisões e passos a adoptar a nível nacional e da União, seguindo o modelo do programa do Mercado Único de 1992. Primeiro: manter a abordagem baseada no reforço mútuo das três dimensões. Segundo: estabelecer o objectivo de reduzir para metade o desemprego até 2010. Terceiro: assegurar os recursos financeiros para implementar a Agenda de Lisboa, através do orçamento comunitário e dos orçamentos nacionais. Quarto: concentrar a Agenda de Lisboa num conjunto de objectivos primordiais em cada uma das suas três dimensões, concentrando esforços e conferindo um maior impacto político sempre que esses objectivos não sejam atingidos. Quinto: reforçar o método aberto de coordenação, promovendo a revisão pelos pares e fortalecendo o papel do Conselho Europeu de Primavera, introduzindo planos de acção nacionais e aumentando o envolvimento dos parlamentos nacionais, de forma a que se estabeleça um sentimento de apropriação a nível nacional.
Isto representa desenvolver uma Europa alargada com, e para, a sociedade. Significa quebrar barreiras e efectivamente ligar a Agenda de Lisboa às aspirações das nossas comunidades. Só assim poderemos colher todos os benefícios do potencial da Europa.

Secretário-geral do Partido Socialista, primeiro-ministro da Suécia e presidente do Partido dos Europeus Socialistas



Publicado por jmeq em 06:44 PM

A MAÇONARIA E A DEFINIÇÃO DO SENTIDO DA HISTÓRIA.


Entre as organizações que protagonizaram esta visão imanente e laicista da história, avulta a importância da Maçonaria que, a partir de meados do século XVII, fez sentir a sua influência em todas as grandes correntes de pensamento e nas principais alterações sócio-políticas. Não a referiria explicitamente, se um recente acontecimento não a tivesse trazido para as primeiras páginas das notícias e tivesse criado, em muitos católicos, interrogações e perplexidade. De facto, as cerimónias fúnebres de uma importante personalidade do Estado e membro destacado da Maçonaria, realizadas nos espaços da Basílica da Estrela, foram ocasião dessa confusão, não tanto por o “depósito” do defunto se ter feito numa das capelas mortuárias da Basílica, em princípio abertas a quantos respeitosamente as procuram, mas porque o Grão-Mestre da Maçonaria, com o nosso desconhecimento, convocou para um “ritual maçónico”, em honra do defunto, a realizar num espaço da Basílica. Esta iniciativa, que considero imprudente e indevida, provocou indignação em muitos católicos, que incessantemente têm pedido um esclarecimento da Hierarquia da Igreja.

É uma longa e atribulada história a das relações da Maçonaria com a Igreja durante os últimos três séculos, expressa em ataques, anti-clericalismo, rejeição da dimensão misteriosa da fé e da verdade revelada, a que a Igreja respondeu com várias condenações, com penas de excomunhão para os católicos que aderissem à Maçonaria. É um processo que tem de ser situado nas grandes transformações culturais e sócio-políticas desse período, em que elementos como a compreensão da natureza e legitimidade do poder político, a promoção e defesa da liberdade individual, os processos revolucionários em cadeia e a “questão romana” que pôs fim ao poder temporal dos Papas, foram pontos quentes a alimentar um conflito. Conceitos, então polémicos, como o da liberdade de consciência e de tolerância, são hoje aceites pela própria Igreja, no quadro de sociedades democráticas e pluralistas. A verdadeira reacção à visão do mundo veiculada pela Maçonaria, têm os católicos de encontrá-la na profundidade da sua fé, sobretudo quando a celebram na Eucaristia, como inspiradora da vida e da história, fonte de sentido e fundamento de uma ordem moral. Sem essa coerência de profundidade, cairão em rejeições e anátemas, pelo menos desenquadrados da actual maneira de conceber a missão da Igreja no mundo.

A questão crucial, sobre a qual os católicos têm o direito de esperar uma resposta do seu Bispo, é esta: a fé católica e a visão do mundo que ela inspira, são compatíveis com a Maçonaria e a sua visão de Deus, com o fundamento de verdade e de moralidade e o sentido da história que veicula? E a resposta é negativa. Um católico, consciente da sua fé e que celebra a Eucaristia não pode ser mação. E se o for convictamente, não pode celebrar a Eucaristia. E a incompatibilidade reside nas visões inconciliáveis do sentido do homem e da história.

A Maçonaria sempre afirmou, e continua a afirmar, a prioridade absoluta da razão natural como fundamento da verdade, da moralidade e da própria crença em Deus. A Maçonaria não é um ateísmo, pois admite um “deus da razão”. Exclui qualquer revelação sobrenatural, fonte de verdades superiores ao homem, porque têm a sua fonte em Deus, não aceitando a objectividade da verdade que a revelação nos comunica, caindo na relatividade da verdade a que cada razão individual pode chegar, fundamentando aí o seu conceito de tolerância. A Igreja também aceita a tolerância, mas em relação às pessoas e não em relação à objectividade da verdade.

Esta atitude perante Deus e perante a verdade gera uma “sabedoria” global, ou seja, uma visão coerente da realidade, que é incompatível com a visão do homem e da sociedade que brotam da fé cristã, que supõe a inter-acção de Deus e do homem, no diálogo fecundo e apaixonante da natureza e da graça. A Igreja tem o dever de orientar os católicos e é a eles que digo que a nossa fé e o sentido da vida que ela inspira é incompatível com o quadro gnóstico de sentido veiculado pela Maçonaria.

Haverá, ainda hoje, uma luta entre a Maçonaria e a Igreja? Não nos termos em que se pôs no passado, embora não devamos ser ingénuos: a Maçonaria, sobretudo em algumas das suas “obediências”, lutará sempre contra valores inspiradores da sociedade que tenham a sua origem na dimensão sobrenatural da nossa fé. Sempre que isso acontecer, demos testemunho da esperança que está em nós (1Pet. 3,15). A expressão de uma visão laicista da sociedade assenta também sobre a falta de coerência dos cristãos com as implicações sociais da fé que professam e da Eucaristia que celebram.



(Texto incluído na Nota Pastoral relativa à Quaresma de 2005, subscrita pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo)



Publicado por jmeq em 07:38 PM

BREVE MANIFESTO ANTI-PORTAS EM PORTUGUÊS SUAVE.


"Real Senhor ía passando... Encostado à bananeira, diz o preto para preta: está bonita a brincadeira."

1.- Estava eu 'posto em sossego' - aprestando o barquito da família para umas passeatas na Ria -, quando soube que vinham albergar em Aveiro nada menos que 2-intelectuais-2 de Lisboa, apostados em trocar a missanga de meia-dúzia de refervidas ideias por um açafate cheio do marfim eleitoral deste Distrito.
De pronto apostado em estragar-lhes o negócio, ainda ponderei então a conveniência de dar um salto algarvio à Praia dos Tomates - para um tonificante estágio 'à la minuta', junto da elite bem-pensante e vegetariana da Capital em férias.
Todavia, depressa desisti desse passeio para o sul - confiado em que a singela funda-de-David, que sempre me acompanha, bastaria para atingir e abater essas aves de arribação.
Não é que não goste de pássaros. Gosto. Mas detesto os cucos políticos - que usurpam e se instalam com à-vontade nos ninhos feitos por outros companheiros (ía a escrever 'camaradas' - expressão regional caída em desuso, mas recuperável).

2.- Deixando os eufemismos, a verdade é que venho lutando desde há muitos anos (frustradamente embora) contra o latrocínio institucional de que a região de Aveiro vem sendo vítima: designadamente, tiraram-nos o Centro Tecnológico da Cerâmica; o Centro de Desportos Náuticos foi também para Coimbra; o discreto porto da Figueira da Foz vem sendo privilegiado em relação ao porto-de-mar de Aveiro; a nossa Universidade só começou a receber dotações decentes depois de saturada a Universidade do Minho; as questões da bacia do Vouga são tratadas na Hidráulica do Mondego; a Direcção dos Serviços da Segurança Social de Aveiro foi transferida para Coimbra; os nossos Serviços de Saúde foram degradados para 'sub-regionais'; a Agricultura do Distrito passou a ser dirigida pela Lusa Atenas e por Braga (!); e a supervisão da Educação na região foi repartida entre o Porto e a dita Coimbra.

3.- Só nos faltava agora mais essa: sermos doravante representados no Parlamento por dois intelectuais da Capital!
Era o cúmulo passarem os Deputados por Aveiro a ser gente de fora - 'estrangeiros' para aqui impontados por Lisboa, como 'comissários políticos para zona subdesenvolvida' ou 'tutores de indígenas carecidos de enquadramento'.
Tinha que reagir - e reagi !

4.- Na verdade, o Distrito de Aveiro sempre foi terra de franco acolhimento para quem vem de fora - para aqui trabalhar e viver, valorizando a região (que se torna também sua). Aliás, é esse um dos segredos do nosso crescimento e desenvolvimento. É esta uma das características da nossa identidade: somos gente aberta e hospitaleira, tolerante e liberal, civilizada, moderna, culta e progressiva; todavia - até por isso - nunca tolerámos que nos impontassem mentores!

5.- Disposto a barrar a promoção (à nossa custa) a tais intrusos, procurei apurar quem realmente sejam.

6.- Quanto ao Dr. Pacheco Pereira, foi-me fácil saber que, antes e depois do '25 de Abril', foi comunista radical - daqueles que (aos gritos de "nem mais um soldado para as colónias") impediram designadamente que Portugal pudesse ter evitado a guerra civil em Timor (e a subsequente invasão indonésia - com os dramas e horrores tão sobejamente conhecidos).
Com sólida formação marxista-leninista, o Dr. Pacheco Pereira tem vários livros publicados sobre o movimento operário e os conflitos sociais em Portugal no início do século.
Constou-me ter agora no prelo um longo escrito sobre as motivações íntimas que o terão levado a renegar o comunismo - opção ideológica que (a manter-se) não lhe teria permitido 'fazer carreira' no PSD, como é evidente...
Todavia, segundo notícias de certo semanário, o Dr. Pacheco Pereira recusa o jogo de equipa que a social-democracia pressupõe: ditadorzinho, não quer na campanha eleitoral em curso a companhia do Dr. Gilberto Madail - que limita às vulgares tarefas de motorista: guiá-lo pelo Distrito (que mal conhece). Realmente, o Dr. Pacheco Pereira ainda carece de alguma reciclagem democrática...

7.- Quanto ao Dr. Portas, esfalfei-me a correr bibliotecas e alfarrabistas - à procura dos livros que tivesse dado à luz, donde pudesse inferir qual seja afinal a corrente de pensamento que o norteia. Baldadamente. De facto, o Dr. Paulo Portas apenas publicou um 'folheto de cordel' (que me custou 750$00) sobre os malefícios da integração do nosso país na Comunidade Europeia - opúsculo sem qualquer novidade em relação aos numerosos bilhetes-postais que vem subscrevendo no seu jornal (sem erros ortográficos, mas com pouco fôlego - valha a verdade).
Digamos que tais escritos estão para o 'ensaio' como as quadras populares para o 'poema' - na forma e no conteúdo.
Trata-se de breves crónicas fúteis (embora não tanto como as do MEC, que aliás lhe leva a palma no sentido de humor e imaginação). Espremidas - pingam apenas cinco ou seis ideias, que não chegam sequer para conformar o anarco-conservadorismo (?) que se arroga ser a sua actual matriz ideológica.

8.- Certo é porém ter sido com essas 'quadras soltas' que o Dr. Portas concorreu aos jogos florais da política recente - ganhando (por 'menção honrosa') a viagem turística ao círculo eleitoral de Aveiro, que o Partido Popular oferecia como prémio para o melhor trabalho apresentado por amadores sobre o tema do 'antieuropeísmo primário'.
Tenho-me esforçado por lhe estragar tal passeio - com algum êxito.

9.- Julgavam o Dr. Portas e o enfadado Pacheco Pereira (outro excurcionista) que as respectivas candidaturas a deputado por Aveiro eram 'favas contadas'. Não nos conhecendo, supunham que os aveirenses ('provincianos' como nos chamam) ficaríamos enlevados e até agradecidos pela sorte (grande) de passarmos a ser representados no Parlamento por 'lisboetas de tão alto gabarito' (a expressão não é minha, evidentemente).
Terão assim ficado surpreendidos pelo 'impedimento' que - logo após a 1ª anunciação - eu próprio (parente muito chegado da noiva) entendi opôr firmemente ao casamento-de-conveniência que pretendiam contraír com a minha querida região de Aveiro (num escandaloso golpe-de-baú eleitoral - para usar linguagem de telenovela).
Como consequência imediata, eles - que tencionavam 'casar por procuração' (que é como quem diz sem-sequer-cá-pôr-os-pés) - tiveram que se dar ao incómodo inesperado de interromper as regaladas férias que gozavam e vir mesmo mostrar-nos os seus dotes.
Estraguei-lhes o arranjinho!

10.- O primeiro a comparecer foi o Dr. Portas.
Chegou de fato novo e ideias velhas.
E instalou-se num hotel da região - escolhido pela mãezinha (no Guia Michelin).
Desde então, quase não tem feito outra coisa senão passar a 'cassete' - que gravou contra a participação de Portugal na Comunidade Europeia.
Tão desenvolto como qualquer vendedor de banha-da-cobra, impinge a quem se acerca as suas críticas à integração (aliás com a mesma monotonia com que o Marco Paulo repete ter dois amores).
E confunde deliberadamente os erros crassos cometidos pelo cavaquismo (nas negociações internacionais e no desenvolvimento interno das políticas sectoriais da integração) com a própria integração - o que constitui uma desonestidade intelectual inaceitável.
Pior é quando reclama que seja submetida a referendo a nossa entrada na União Europeia - depois de já termos entrado (e... recebido os milhões e milhões que essa opção facultou aos incompetentes governos do PSD) ! Aliás, o Portas não explica sequer que mirífica alternativa à comparticipação na CE teríamos podido escolher.

11.- Confrontado com questões políticas mais comezinhas (como a regionalização e o tratamento dos resíduos tóxicos), não tem opinião própria ou não sabe para que lado lhe convém cair - e refugia-se então na evasiva: reclama um plebiscito 'adequado'.

12.- Fundamentalista e vaidoso, o Dr. Portas parece estar convencido de que não existe mais nenhum português inteligente e verdadeiramente patriota - além dele e do Dr. Manuel Monteiro.
Aliás, o Portas tem o nosso povo em fraquíssima conta...
Não obstante, messias da restauração, reclama 'missionários' (sic) para o seu ridículo sebastianismo - sem revelar de que Alcácer Quibir pretende afinal a reconquista.

13.- Inseguro, o jovem Portas sublima os seus problemas existenciais numa catarse de legitimidade duvidosa: exacerba as opiniões políticas que defende a um grau de intolerância que excede manifestamente o radicalismo aceitável de quem se move apenas por convicções arreigadas - tornando-se injusto, maledicente e agressivo.
Aliás, o frenesim que reveste a sua militância é bem um indício dessa terapêutica (praticada que foi, também, por 'chefes' cujos nomes a História registou - mal comparando...).

14.- Políticamente, o Portas é um 'bluff' - produto acabado de certos meios intelectualóides da Capital, que funcionam em circuito fechado: por convites mútuos, elogios recíprocos e esquemas de sobrevivência imediata.
Entre muitos outros, fazem parte de tal 'entourage' o avinagrado Vasco Pulido Valente ('avinagrado' de vinagre - entenda-se) e sua piedosa esposa, D. Constança Cunha e Sá - ambos comungando os chorudos ordenados que "O Independente" (assim chamado) do Dr. Portas lhes paga, pelas crónicas de mal-dizer que semanalmente ali escrevinham, no cómodo formato A4.
Também o inefável Miguel Esteves Cardoso colabora no endeusamento do Portas, rebuscando a favor do patrão os trocadilhos que lhe deram notoriedade há mais de 20 anos - aquando era uma espécie de menino-prodígio da escrita fútil.
Pena que tenha deixado de ser prodígio e se mantenha menino; pena que desperdice agora o seu inegável talento juvenil a produzir romances pornográficos - ainda que muito apreciados pelas pegas e pederastas do Intendente e pelo crítico Henrique Monteiro, que os reputa (o termo é adequado) como peças exemplares da literatura moderna.

15.- O Portas é elitista. Mas simula demagogicamente interessar-se pelos problemas daqueles a quem, no seu milieu, é uso chamar 'as classes baixas' - como aconteceu recentemente na Bairrada, quando fingiu participar na vindima que gente simples e autêntica da terra levava a cabo (por castigo andando agora, há já várias noites, a pôr 'creme nívea' na sua mãozinha mimosa, nunca antes maltratada por qualquer alfaia agrícola).

16.- O Portas é dissimulado: esconde da opinião pública parte da sua verdadeira identidade.
Concretamente, oculta que é monárquico - opção que, sendo embora legítima, tinha obrigação de revelar àqueles a quem pede o voto para deputado da República !
É a tal 'falta de transparência política' que critica - nos outros, claro...

17.- O Portas é um democrata precário: por falta de formação ou informação, por carência de convicções ou por incoerência, rejeita a aplicabilidade universal da regra '"um homem-um voto" - verdadeiro axioma da Democracia essencial.
Assim sendo, não me admiraria nada que o Dr. Portas resvalasse a curto prazo para a defesa de soluções autoritárias para a governação dos portugueses, que (no seu entender) revelam "uma estranha tendência para o precipício".

18.- Eleitoralmente, o Portas é desleal: vicia as regras do jogo. Na verdade, tendo-se feito substituir formalmente na direcção d' "O Independente" (assim chamado), usa agora tal semanário como jornal-de-campanha privativo, aí publicitando escandalosamente os seus palpites e auto-elogios e atacando e denegrindo os adversários - com a cumplicidade na batota do respectivo 'conselho editoral' !
Porque não sou 'queixinhas', não vou lamentar-me nem reclamar contra tão anómalo procedimento - junto da comissão-de-ética do Sindicato dos Jornalistas, junto da Alta Autoridade para a Comunicação Social ou mesmo junto da Comissão Nacional de Eleições.
Não vou sequer queixar-me à mãezinha do Dr. Paulo Portas. Tão-pouco protestarei junto do Dr. Nobre Guedes - tido por 'dono do jornal' -, até porque sei que anda absorvidíssimo por visitas diárias a feiras e mercados e pelas demais tarefas da sua própria 'candidatura a sanguessuga' (também pelo PP), sem que lhe reste tempo para se preocupar com subtilezas e ninharias éticas.
Aliás, provavelmente não será especialista em 'deontologia profissional do jornalismo'.
Assim sendo, remeto a apreciação da chocante conduta do Dr. Portas e d' "O Independente" para a opinião pública e para os jornalistas Daniel Reis, Cáceres Monteiro, César Principe e José Carlos de Vasconcelos - tidos por profissionais honestos, competentes e livres (aliás como muitos outros). Concretamente, permito-me perguntar-lhes se acham que o comportamento daquele semanário e do Dr. Portas (que usa fazer a apologia dos valores morais sociais) seja éticamente aceitável.

19.- De facto, não é fácil ser-se coerente e sério em política !

20.- Particularmente difícil é porém 'fazer carreira política' em Portugal - sobretudo quando não se dispõe do apoio de qualquer dos 'lobbies' que condicionam quase toda a nossa actual vida pública. Estou a referir-me à 'solidariedade corporativa' na promoção individual de que beneficiam os membros da Maçonaria, os confrades da Opus Dei, os agentes dos grupos económicos e - mais recentemente - os parceiros da comunidade 'gay'. Trata-se de organizações ou agregados que mantêm intervenção (directa ou indirecta) praticamente em todas as estruturas da nossa vida colectiva - também nos partidos políticos e na comunicação social.
Agindo concertada ou avulsamente,os membros de tais 'lobbies' têm grande influência sobre muitas tomadas de posição de quem-de-direito e sobre a formação da opinião pública.
Podem designadamente ajudar ao aparecimento de pretensos génios artísticos, 'heróis sociais' ou ídolos-de-pés-de-barro (como são muitos dos políticos de sucesso).

21.- Por definição, as interferências do género são discretas ou mesmo subliminares - e passam geralmente desapercebidas aos cidadãos influenciáveis.
Na verdade, quem é que, de manhã, ao acompanhar a torrada e o galão do dejejum com a leitura do 'Público', pondera que esse jornal tem dono - e que o editorialista Vicente Jorge Silva é capataz dos respectivos interesses (mesmo quando - agora instalado - escreve considerações que fazem lembrar os tempos remotos e diferentes em que foi considerado pelos situacionistas de então como um jovem rasca da 'geração de 60') ?
E quem perceberá que está a ser condicionado na formação da sua opinião, quando escuta na rádio uma análise ou critica - injustamente lisonjeira - da acção de um diplomata, do trabalho de um artista ou da capacidade de um político homossexual proferida por outro homossexual, se não souber que tal apreciação reporta afinal a solidariedade de pessoas da mesma minoria ?

22.- A acção de todos ou alguns desses 'lobbies' perpassa de facto os principais partidos - transversalmente.
E, por vezes, é no espírito-de-corpo ou jogo de conveniências dos respectivos protagonistas que se encontra explicação para surpreendentes convívios gastronómicos no 'Gambrinus' ou na província e para inesperados apoios ou solidariedades espúrias ocasionalmente detectáveis nos mais variados campos da nossa vida colectiva.

23.- Republicano convicto, socialista humanista e democrata sem transigências, tenho feito o meu discreto percurso de político-não-profissional apenas com a ajuda dos activistas locais do PS e o firme apoio da gente bairrista da região de Aveiro - sem compromissos em relação a qualquer daquelas estruturas ou 'forças de pressão'. Livre e independente como sempre, enfrento a presente conjuntura eleitoral com justificada confiança.
Estrêla de 3ª grandeza nos céus confinados do meu Distrito, nada me ofusca o brilho fugaz do citado Dr. Portas - cometa ocasional, que desaparecerá deste firmamento tão depressa como apareceu (e... sem deixar rasto).
Tão-pouco me perturba a dimensão aparente do Dr. Pacheco Pereira - lua nova doutras galáxias, que (perdido o fulgor militante que o marxismo-leninismo lhe emprestava) agora só é visível quando reflecte a claridade frouxa dessa extensa nebulosa que se chama PSD.
24.- Na minha terra, sou mais forte do que eles !

25.- Na noite do próximo dia 1 de Outubro, espero poder pendurar no meu cinto de caça política as tais duas aves de arribação - espécies exóticas lisboetas pouco apreciadas na região cinegética de Aveiro: um garnisé-cantante e um pavão-de-monco-caído.
Esses troféus servirão de espantalho a futuras transmigrações para esta 'zona demarcada entre o Douro e o Buçaco' !

Carlos Candal.

Publicado por jmeq em 06:24 PM

BLOCO E PCP CRITÍCAM HOMÍLIA DE PRIOR DE PARÓQUIA DE LISBOA.



Jornal "PÚBLICO" - Segunda-feira, 07 de Fevereiro de 2005

O padre Lereno, prior da paróquia de S. João de Brito, em Lisboa, resolveu politizar a missa que celebrou, ontem e, durante a homilia fez apelo a alguns princípios éticos cristãos ao mesmo tempo que condenou o aborto e a eutanásia, a homossexualidade e o divórcio. A missa foi transmitida pela Antena 1, o que ampliou os ouvintes e acabou por suscitar as críticas do PCP e do Bloco de Esquerda.

"Um cristão deve aprovar por voto uma ética que não seja indigna de si próprio. Por exemplo, a vida", disse. "A ética cristã promove a vida humana desde a concepção até à morte natural. Aborto nunca, eutanásia nunca. O matrimónio, a família. A família é a célula mãe da sociedade e da igreja", observou o padre Lereno, adiantando que "a ética cristã reprova que seja equiparada à família uma união de facto de um homem com outro homem, de uma mulher com outra mulher". O prior de S. João de Brito, na zona de Alvalade, afirmou ainda que a mesma ética reclama que a aliança matrimonial seja indissolúvel. "Poligamia, nunca. Divórcio, nunca", afirmou.

Tanto o PCP como o BE reagiram à intervenção do padre Lereno, que interpretaram como um apelo ao voto no único partido que faz da defesa do direito à vida uma bandeira eleitoral: o CDS.

"Creio que a hierarquia da Igreja Católica - e eu separo a hierarquia da participação de muito católicos nesta campanha eleitoral, que com a CDS estão nesta batalha por mais justiça social e contra o desemprego - está a afunilar para uma questão sensível , tentando confundir aqueles que têm um entendimento diferente do direito à vida, quando o que deveríamos discutir é se estamos dispostos a conviver com essa situação iníqua do aborto clandestino", disse Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, que acrescentou. "Esta posição da hierarquia é inaceitável na medida em que inevitavelmente acaba por estar a tomar partido", acrescentou o líder comunista, que fez questão de recordar que a Igreja Católica "em muitos momentos" acompanhou o PCP "nas profundas preocupações sociais que hoje determinam a realidade nacional".

Já o dirigente do BE Francisco Louçã considerou que esta homilia não é um exemplo representativo da Igreja católica. "Já contámos com a colaboração de vários padres com posições mais tolerantes nas nossas iniciativas. Lamento que um padre faça campanha pelo PSD e pelo PP, isso é uma vergonha para ele", disse Louçã.

O PS e o CDS recusaram pronunciar-se sobre a homília transmitida pela Antena 1.

Publicado por jmeq em 12:29 PM

QUANTO PIOR, MELHOR!


Por PEDRO URBANO Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2005 (Jornal O Pùblico)


 Ao que parece, o povo anda amargurado com o rumo do país. E, antecipando os resultados (sejam quais forem) das próximas eleições, começa já a angustiar-se. Tem calma, ó povo trágico que não confias em ninguém: desta vez os psiquiatras estão preparados, a indústria farmacêutica tem os armazéns cheios e as farmácias já prometeram montar tendas de assistência rápida junto aos locais de voto (ao lado das roulottes de venda de farturas). Não tens motivos para entrar em pânico: há anti-depressivos para todos, ninguém vai ficar sem consulta.


 II. Mas porquê tanto sofrimento? Quanto pior for o próximo governo, melhor. A caravela está, sabe-lo muito bem, encalhada no lodo há várias décadas; pode desfazer-se de vez, mas não se pode afundar. (Um país encalhado não se afunda.) E se se desfizesse? O tabuado está de tal modo podre que já não serve para lenha. Sequer. (O madeirame? Não te preocupes, ó povo egrégio: já passou por tantos aviltamentos em 800 anos de história que aguenta o próximo governo, por pior que seja, seja ele qual for. Já aguentou muitos outros.)


III. Aliás, bom mesmo seria que o próximo governo fosse mau, muito mau mesmo, o pior possível, pior mesmo que os anteriores, mesmo que isso te pareça impossível. (Não é impossível, é possível, provável e desejável.) Porque quanto pior for, mais depressa acontece alguma coisa e seja o que for que aconteça será melhor do que tudo aquilo que vem acontecendo. Mais depressa despertas da letargia e mais depressa acabas com a asquerosa orgia da mediocridade a que tens assistido, aparvalhado, todos estes anos. Por exemplo. Ou mais depressa os castelhanos põem isto na ordem; a desordem é tanta que até os chouriços da Galiza apodrecem antes de chegarem às prateleiras das mercearias. Ou os suevos, que começam a estar fartos de tanta festança à custa do porquinho-mealheiro deles. Ou, quem sabe?, os brasileiros; são simpáticos, são realistas, devem-te Tordesilhas e mais dois ou três favores e, pelo menos, sabem fazer um Carnaval a sério (e na devida altura), e não esses desfiles grotescos encabeçados pela Miss Leitão da Bairrada, vigiada de perto pelo noivo. (Ainda por cima, armado em pequeno marialva.) Ou os ucranianos, por que não? Trabalham, são educados e esforçam-se. Seja quem for, aliás. Se é para morrer, esta República, que morra depressa, para dar lugar a outra; em vez de ficar mais cem anos a agonizar com o corpo coberto de chagas e de parasitas.


IV. É isso, tens que fazer alguma coisa. Votar, por exemplo. (Não, o Partido da Abstenção não pode governar, mesmo com maioria absoluta. Sim, votar faz-te doer a alma e faz-te sentir sujo e conivente com toda a nojeira. Também as vacinas doem, não há nada a fazer; se a alma te inchar, desinfecta com álcool e junta-lhe um pouco de gelo; acabará por passar.) Deixa-te de criancices, vota. Vota nos pequenos partidos se ainda acreditas nesta República e queres morrer acreditando nela; não servirá de grande coisa mas, pelo menos, cumpriste a tua obrigação e ficarás de bem com a tua consciência. Vota num dos dois grandes, se deixaste de acreditar nela; depressa a liquidarão. E se detestas o mundo e toda a gente e ainda não resolveste a tua moratória da adolescência, vota nos anõezinhos perversos; nunca hão-de governar (seja o que for) nos próximos dez mil anos, mas conseguem chatear toda a gente. (Seja como for, são como a erva daninha: arranca-se de um lado, nasce do outro.)


V. Quais dois "grandes" partidos?, perguntas tu, agora, que deixaste de lhes achar graça. Deixa-te de sarcasmos, ninguém te mandou fiar na omnipotência deles quando o dinheiro dos protestantes caía do céu e as vacas eram engordadas a pão-de-ló. (Já foram grandes? Ainda têm dois ou três vultos? Também uma sopa estragada pode ter levado a melhor couve e o azeite mais fino. E daí?) Deixa-te de lérias, deixa-te de lamúrias, deixa-te de esquisitices: ou comes ou calas ou os atiras, a todos, pela borda fora; não há mais nada, não adianta chorinhos. De qualquer modo, no ponto a que as coisas chegaram, quanto pior, melhor.


VI. Hesitas, portanto, entre esses dois e não tens a certeza em qual vais votar? Não te rales: são farinha do mesmo saco. Aliás, faças o que fizeres, um deles sairá vencedor. É como a fantástica guerra das televisões: mesmo que não vejas nenhum canal, mesmo que te pareça que já ninguém está para aturar a idiotia televisiva, há-de haver sempre um velhinho solitário que deixou o aparelho ligado para conseguir adormecer; é quanto basta, alguém há-de festejar a vitória. E como, de qualquer modo, não podes desligar nenhum governo tirando-lhe a ficha, nem ir ao clube alugar um governo melhor, mais vale escolheres aquilo que queres ver nos próximos anos. (Quatro, na pior das hipóteses.) O mau ou o péssimo. (A menos que seja o contrário.)


VII. Preferes as séries documentais sobre o mundo animal? Não desdenhas concursos idiotas? A juventude aos saltos e aos pinotes distrai-te? Aprecias a ficção foleira ao estilo de Hollywood? Vota no Partido Mau. Se ganharem, a exaltação será tão grande que se elevarão nos céus, rumo ao infinito. Todos eles: o domador vencido (não é mau sujeito, mas nem o galinhame o leva a sério), os leões adormecidos, os barões reumáticos e as baronesas cansadas; não fazem nada, há anos, ninguém notará a diferença. Com sorte, pode ser que levem atrás deles as jovens hienas histéricas e os galaripos que andaram a criar e a alimentar (à tua custa) todos estes anos. Na pior das hipóteses acabarão por se comer uns aos outros: já não há dinheiro para sustentar tanta bicharada e os despojos do que resta do poder neste país não chegam sequer para saciar a voracidade dos abutres sem partido e sem coluna vertebral que hão-de aparecer (nunca faltam) na Grande Gala de Distribuição de Papéis, Avenças e Outras Serventias.


VIII. Ou preferes os espectáculos de variedades, os grandes entertainers e os malabaristas arrojados? E ignoras o que seja a alta intelectualidade (não és o único) mas adoras ver pedantes a auto-elogiarem-se e a enaltecerem-se uns aos outros? E achas que o país deve ir ao fundo de uma vez e que, mal por mal, deve fazê-lo em grande estilo, com caviar, champanhe francês e orquestra a tocar? E sentes-te republicano e achas que não acreditas em Deus mas, no fundo, gostas de reis e veneras bispos e cardeais? Então não hesites mais: vota no Partido Péssimo. Desta vez não conseguiram desencantar nenhum rei, mas o príncipe é novo, ambicioso e sanguíneo; não tardará a proclamar-se imperador. Com sorte, pode ser que se engane e mande queimar toda a lixeira que se acumula há anos na grandiosa capital do império procrastinado; ao som da lira, de preferência. Na pior das hipóteses, mandará limpar o sarampo aos irmãos (é bíblico, é estalinista, é inevitável) e acabará os seus dias num mosteiro, afundado em remorsos por ter ousado tentar matar o Pai (Freud explica-te porquê). Ou raivoso por ter falhado.


Professor da Universidade de Coimbra



Publicado por jmeq em 08:29 PM

PEÇAS DE LAVATÓRIO DE JIMMIE DURHAM ROUBADAS NA FIGUEIRA.


Jornal "PUBLICO" - Terça-feira, 28 de Dezembro de 2004

Várias peças de uma escultura integrada numa exposição de arte contemporânea no Centro de artes e Espectáculos (CAE) da Figueira da Foz, desapareceram do local, disse ontem fonte do centro.

O CAE tem patente, até final de Janeiro, uma exposição organizada pelo Centro Cultural de Belém (CCB) intitulada "Eu, Tu, Eles", que inclui obras de artistas portugueses e estrangeiros da colecção de arte contemporânea do Instituto das Artes (IA).

As peças desaparecidas - partes de um lavatório partido - estavam no chão junto ao lavatório. A obra, "As Frases", é do artista plástico Jimmie Durham, norte-americano descendente dos índios Cherokee e um nome consagrado desde os anos 70 com uma obra anárquica e poética.

O administrador do CAE, Nuno Encarnação, confirmou o desaparecimento, frisando que a situação "está a ser averiguada". "Estamos a efectuar os procedimentos normais, averiguar como desapareceram, mas não temos ainda dados objectivos. Quando existe um sítio aberto ao público é natural que possam ocorrer situações destas."

Contactada pela Lusa, a responsável pela colecção de arte contemporânea do IA, Paula Leitão, disse que o instituto não foi informado do desaparecimento das peças, e por isso não podia fazer comentários.



Publicado por jmeq em 06:34 PM

2005 SERÁ EL AÑO DE LA GRAN CONVULSIÓN.


El año 2004 ha terminado con densos nubarrones sobre el panorama político nacional. Más densos que en los peores momentos de la transición. ZP ha traído la Gran Crispación, comparado con la cual la Pequeña Crispación del período aznarista, parece un juego de niños. ZP ha creado los problemas rompiendo los equilibrios políticos que se habían creado en la transición y ha abierto interrogantes que se desvelarán a lo largo del 2005. Por que a ZP, además, de “bambi”, “el cansao”, y otros tantos apelativos que responden perfectamente a su “ideosincrsia”, le podemos añadir otro más: el de “bombero pirómano”. Allí donde hay normalidad crea una polémica y allí donde existe, la exacerba. Todo ello, eso sí, con “buen rollito”.

El Plan Ibarreche, adelante

Batasuna ha hecho lo que era lógico: ha salvado su honor ante sus electores, dividiendo su voto. Era lógico que apoyara, finalmente, el plan secesionista. Cerrada la puerta a la vía insurreccional y a la estrategia de guerra de guerrillas, liquidada ETA, al nacionalismo radical le quedaba solo la vía gradualista para intentar mejorar sus posiciones y superar el trauma que supone el funeral de ETA. Permach, Otegui y Salaberría han apoyado la iniciativa con los votos justos para que saliera adelante. No podían hacer otra cosa y, de hecho, era lo más inteligente que han hecho en muchos años. Ahora bien…
Ahora es cuando el PNV tiene un verdadero problema. Aunque la debilidad esté instalada en la cúpula del Estado, ZP no es “el Estado”, sino un gestor que no puede ignorar la realidad de la correlación de fuerzas, tanto en el País Vasco como en el resto de España. Ciertamente, el Partido Socialista Vasco es en buena medida responsable de lo que está ocurriendo. Presos de la tesis de que el nacionalismo es imprescindible para la gobernabilidad del País Vasco, en 1984, aun habiendo ganado las elecciones autonómicas, entregaron la “lendakaritza” al PNV. Desde entonces, una parte del corazón de los socialistas vascos ha estado con el nacionalismo moderado. Verdadero drama, por que la otra parte les decía, cada vez con mayor rotundidad, que precisamente el nacionalismo era el responsable de la situación de pre-guerra civil que había estallado en la zona desde la transición. Recordamos, una vez más, nuestra tesis: el verdadero criminal político en el País Vasco no es ETA (ETA es una banda de deficientes mentales, sedientos de sangre y de un primitivismo y una simplicidad insultantes para el sentido común), sino el nacionalismo, radical o moderado, pero el nacionalismo a fin de cuentas.
Esta tesis no la ha compartido nunca un sector del PSE. Odón Elorza, arquetipo de la cobardía, ha ido allí en donde, no sólo los nacionalistas moderados, sino también los radicales, le han marcado. Y no ha sido el único. De hecho, solamente en el período en que Redondo Terreros ocupaba la Secretaría General, las cosas han estado claras: hay culpables y hay inocentes, hay asesinos y asesinados, no hay medias tintas. Pero, en cualquier otro período –incluso en los momentos más duros del GAL-, los socialistas vascos siempre han tendido una mano al PNV con el que gobernaron durante ocho largos años en los que la educación vasca se convirtió en el troquel de nuevos batasuneros y cantera de Jarrai y de ETA.
Hoy penúltimo día del año, 39 diputados han votado que sí y 35 que no. De haberse abstenido los tres miembros de Batasuna, el resultado habría sido 36 a 35; y si hubieran seguido el voto de sus demás compañeros de grupo, el resultado habría sido de 36 a 38... esto es, habría sido rechazado. Los 3 batasunos han dado su voto, después de poner verde a Ibarreche y a su “plan”, por que de lo que se trataba era de agradecer al “putchista” Atucha, el no haber disuelto el grupo parlamentario de Batasuna y, sobre todo, salvar la cara ante el electorado propio que en las próximas elecciones habrá sido ganado en buena medida por el PNV. Pero, en el fondo, la postura de Batasuna reconoce la derrota estratégica de ETA y el fin de una época.
El discurso de Ibarreche era exultante desde el momento en que sabía que tres batasunos iban a votar por su plan. Aseguró que “nada ni nadie le impedirán convocar un referéndum para ratificar su proyecto soberanista” (aun a pesar de que una encuesta pagada por el propio gobierno vasco, demostraba hoy mismo que la población no estaba para muchas aventuras y que el nivel de desconocimiento de las propuestas de Ibarreche era absoluto). En un alarde de cinismo, dos días después de que Atucha realizara la maniobra más vil y miserable que ha protagonizado un presidente de una cámara legislativa, propia de repñublicas subdesarrolladas y babaneras, robando un voto por un evidente error técnico, después de ese insulto a la democracia y al sentido común, Ibarreche se ha permitido dar lecciones de democracia: “la esencia de la democracia y la clave de la solución es el derecho de la sociedad vasca a decidir su propio futuro” y más adelante: “Vamos a darle la palabra al pueblo”… pero la encuesta del propio gobierno vasco indica que el pueblo permanece muy ajeno a estas iniciativas y, en cuanto a que un nacionalista pontifique sobre la “esencia de la democracia”, después del tufo a golpe y a fraude protagonizado por Atuche con la cuestión del “voto perdido”, es, literalmente, repugnante.
En lo que Ibarreche tiene razón es en que “no hay vuelta atrás”. No la hay. Ni para el PNV, ni para ERC: o llegan hasta el final –lo que lleva al enfrentamiento- o quedan como mentirosos ante su electorado. El PNV está obligado a insistir en esta política durante la campaña electoral de las autonómicas vascas de primavera e intentar, por todos los medios –por todos- obtener una mayoría absoluta que le permita llevar su plan a referendo.
Las dudas de otro tiempo del PSE, su entrega del poder al PNV en 1984, han traído estos lodos. Y, en estos momentos, ZP no es la persona, precisamente, con más carácter y energía para afrontar esta situación. El problema que entra en la curva previa a la recta final, a partir de hoy, alcanzará su máximo clímax a partir de conocerse el resultado de la consulta autonómica de primavera: si el PNV obtiene mayoría absoluta (lo cual no parece evidente) la secesión está servida. Si los resultados se mantienen como en esta legislatura, nos espera más crispación. Si, finalmente, el “bloque constitucionalista” supera al PNV, no parece tan claro que los socialistas vascos prefieran pactar con el PP antes que con el PNV. La tesis de Pachi López sigue siendo igual de suicida que la que ha adornado al socialismo vasco en otros tiempos: no se puede excluir al PNV de la gobernabilidad. Y esta posición con ese portento de debilidad y de “buen rollito” que se sienta en la Moncloa, da como resultado una secesión por fases.

El bobo y sus bobos

Cuando ZP se preocupa de decir que no ve ninguna diferencia entre “nación” y “nacionalidad” (a despecho de todos los tratadistas que si la ven) lo que está haciendo es apoyar a la fracción del PSE que ha propuesto una redefinición del País Vasco como “nación” en su proyecto de reforma del Estatuto. A estos genios se les olvida que a toda “nación” corresponde un “Estado”, no una “administración autónoma”.
En realidad, la opinión pública y, particularmente, los analistas políticos, incluso los que inicialmente han sido más próximos a ZP y encontraron en él presuntas virtudes, están más que alarmados por la deriva que está tomando el país. El hombre que decía haber llegado para eliminar la “crispación”, ha conseguido que en ocho meses, la crispación parezca haber realizado un parto múltiple. Está clara cuál es el “pequeño defecto” de ZP: no sabe decir que no.
Vienen los maricones a pedir matrimonio en igualdad condiciones que los héteros. Dice que sí. Aparecen las asociaciones de feministas eternamente airadas tronando contra la violencia doméstica y pidiendo leyes que creen la figura del “divorcio-exprés” y les dice que sí. Llega Maragall a la Moncloa a tomar café y, de pasada, le dice que, por cierto, “Catalunya es una nación”. Y ZP, asiente. Luego aparece Bono e Ibarra diciendo que la única nación es España… y, claro, también dice que sí. Y cuando no tiene ni idea de lo que hay que decir, crea una comisión para que otros pongan las ideas y él poder decir si, a A y a no-A.
Esta incapacidad para decir “no” es el principal handicap de ZP-Presidente. Una cosa es postular “talante” y “buen rollito” en la campaña electoral y en los primeros meses de gestión y otra tener que afrontar la política cotidiana: el no es al político lo que el agua al pez, aquello con lo que tiene que bregar si desea sobrevivir.
Pero la falta de personalidad de ZP se hace cada día más palpable incluso para sus propios correligionarios. Muchos empiezan a pensar que se equivocaron en el congreso del 2000. En estas navidades han proliferado los chistes sobre Moratinos (uno de los ministros que iniciaron su andadura con más prestigio acumulado, hoy es una pura irrisión), las ministras del 50% de cuota, sin excepción, han demostrado su nulidad y su inadecuación para el cargo. Cuando la Justicia está en un marasmo absoluto, López Aguilar reforma cualquier cosa menos la Ley del Jurado que hoy casi apoya y que ha sido otra de las causas de la paralización del sistema judicial, crea leyes donde no hacían falta (violencia doméstica) por que ya existía un código penal explícito y promueve una reforma de las altas instancias judiciales para rodearse de magistrados que sirvan al PSOE con fidelidad perruna. Por su parte, Alonso, desde Interior, anda perdido, ZP le ha dicho que monte una “alarma antiterrorista” y él lo ha montado; en realidad, vive de las rentas del período anterior y todavía no ha aterrizado en un cargo que le supera, visiblemente. Bono ha demostrado ser un cateto en el cuartel. Caldera… ha promovido la ley de regularización masiva de inmigrantes que va a complicar el problema de la inmigración como ninguna otra medida anterior. En resumen: un fracaso de gestión que rebasa cualquier previsión por pesimista que fuera. No es posible que sean tan malos gestores… pues si, ha resultado que son mucho peores de lo que podíamos imaginar y de lo que el país puede asumir. El gobierno ZP es la evidencia más clara de la justeza del “Principio de Peter” según el cual, un incompetente, para seguir destacando, se ve obligado por una tendencia natural, ha elegir como colaboradores a gente con un mayor nivel de incompetencia, los cuales, a su vez, por supervivencia, nombrarán a otro nivel inferior de incompetentes y se preocuparán de eliminar a aquellos funcionarios y mandos que hayan demostrado eficacia.

La que se avecina por Catalunya

Las encuestas de la Generalitat de Catalunya son más triunfales que las del gobierno autónomo vasco. Una encuesta confirmaba hoy mismo que Maragall se “había consolidado” como presidente de la Generalitat. Bien es cierto que, leyendo la letra pequeña, recibía la calificación de 5,1 en una escala de 1 a 10, pero, al menos un aprobado pelado le servía para evitar el oprobio del suspenso. La misma encuesta no ha preguntado por su “cap de govern” del que lo único que se sabe es que cada tarde a las 19:00 se va para Torredembarra (150 km de la Plaça de Sant Jaime) a reponer fuerzas. Si hubieran preguntado por él en la encuesta, muy probablemente el problema no sería calificarlo, sino que los encuestados le conocieran.
En realidad, a lo largo de este año, Maragall ha hecho “grandes planes”. Tiene su propio proyecto de reforma del Estatuto y lo va a tirar adelante con los votos de todos los partidos, incluida una fracción del PP que no se siente con ánimos de poner un poco de sensatez en el asunto. Vamos a ver: si en el País Vasco el 60% de la población ignora los contenidos del Plan Ibarreche y el 60% dice que el Estatuto vasco está bien como está… en Catalunya, si hay un tema que no está en la calle y que no interesa a los ciudadanos es, precisamente, la reforma del Estatut.
Maragall es una de esas personas que tienen vocación de “estadista”, pero no de gestor. Ya en su período de alcalde de Barcelona, aparecía cada mañana por su oficina con grandes proyectos, la mayoría de los cuales se le olvidaban con la quinta Ginebra a.m. De tanto en tanto, alguno salía bien (los Juegos Olímpicos, por ejemplo). No es de extrañar que, a lo largo de este año, los peajes hayan subido más en Catalunya que en cualquier otra zona de España o que las zonas azules de Barcelona sean las más caras de España, cuando, en realidad, el programa de ERC o el del propio PSC preveían abaratar estos costes. La realidad es que, a fuerza de preocuparse por los “grandes temas” (que si el Forum, que si una reforma del Estatut, que si la reforma Constitucional, que si Catalunya en Europa, etc), los temas cotidianos han sido completamente olvidados por el Govern. De hecho, hace un año, nadie daba un duro por la continuidad del actual tripartito mucho más allá de 20 o 24 meses. De ahí que los tres partidos que componen el gobierno catalán, estén mucho más preocupados por apalancar a sus miembros en puestos clave, enriquecerse ellos mismos y a los amigos en el tiempo más breve posible (en sólo 10 meses se han duplicado los gastos de imagen del gobierno catalán en relación al período anterior… cuando nadie, en realidad, sabe en qué se gastan esos fondos, por que nunca como hoy existe la sensación de falta de gobierno en Catalunya) y, “trabajar” al propio electorado. Tal es el trabajo que realiza Carod desde que fue apeado del Govern a causa de sus chupitos con la cúpula de ETA.
Por que Carod está en campaña electoral permanente. Es posible que haya llegado a su techo electoral. Los resultados del cava catalán en la campaña de Navidades van a ser elocuentes: si las ventas se han reducido más de un 30%, Carod será un cadáver político. Ayer mismo, Carod participó en la manifestación posterior a la derrota de la selección catalana ante la Argentina (0-3 y un millón de euros en el gasto de traer a los argentinos al amistoso en el que los equipos catalanes eludieron emplear a sus jugadores más emblemáticos, por cierto). La derrota picó y dolió, pero mucho más el hecho de que solamente, entre 5.000 personas (cifras reales) y 10.000 (cifras oficiales) se manifestaran en las Ramblas pidiendo selecciones catalanas.
El nacionalismo catalán es curioso: sus únicas fechas emblemáticas son derrotas. El 11 de septiembre es una derrota. A partir de la Batalla de Muret, el nacionalismo catalán no puede exhibir más glorias que las derrotas propias en los escenarios más exóticos. Es el nacionalismo de la derrota y la amargura interior, de la queja permanente y el lloriqueo constante que tanto y tan bien practicó Pujol con una maestría digna de encomio. Es normal que con una derrota de 0-3, el nacionalismo catalán recupere sus mejores hábitos y se manifieste por las Ramblas con pancartas contra las olimpiadas de Madrid 2012. Parece que lo del cava no ha sido suficiente. El riesgo es que el boicot al cava catalán (los empresarios del sector no son, precisamente, los más nacionalistas, por cierto) se extienda a otros sectores puede resultar la tumba de ERC. En Catalunya nadie torpedea impunemente al mundo empresarial. Allí, hasta el más nacionalista habla en tagalo, si es necesario, para realizar una venta.

Doce meses de gestión, un verano en el que un autobús recorrió toda Catalunya promoviendo el nuevo Estatut, no han servido para gran cosa. La discusión no está en la calle, pero llegará el día en el que ZP deberá decir lo que hacer: dirá, por supuesto, que sí. Ahora bien, eso no le generará por ensalmo la mayoría de 2/3 que requiere en la cámara baja para modificar la constitución. Así que, ERC seguirá su campaña electoral y, necesariamente, deberá romper amarras con ZP. Eso le beneficiará en Catalunya, pero perjudicará a su socio, tanto en Catalunya (Ciutadans pel Canvi - PSC) como en el Estado (PSOE). Pero ¿qué le importa a Carod que se hunda su socio? En el fondo, Carod alberga un profundo resentimiento contra Maragall y los socialistas por hacer de corifeos a la derecha que tronó cuando el asunto del chiquiteo con la cúpula de ETA en Persignan. Y, Carod nunca ha ocultado que quiere la poltrona de Maragall. De ahí que Maragall haya intentado protegerse otorgando a CiU y a Mas el título de líder de la oposición con despacho, gabinete y presupuesto propio.

Así pues, una previsión realista implica que la fecha de caducidad del tripartito catalán se situará entre julio y septiembre y que, muy probablemente, tendremos elecciones anticipadas en el último trimestre del 2005. Esto entrañará también la pérdida de apoyo parlamentario por parte de ZP y si, ERC asume una postura obstruccionista, no le quedará a ZP más remedio que disolver las cortes.

En esa hipótesis, el PP, si quiere recuperar la mayoría absoluta (que va a ser necesaria para recomponer el país de los destrozos del año y medio de ZP), va tener que darse prisa en asumir un nuevo curso y enterrar definitivamente las líneas más problemáticas de la política exterior aznarista. Eso, o de lo contrario, el aznarismo va a pesar como una losa sobre Rajoy, de la misma forma que la sombra de Felipe González, pesó sobre la calva del candidato socialista en las elecciones del 2000. Y tampoco esto parece claro que pueda ser asumido por un PP que, tras haber superado sus problemas internos, precisa tiempo e ideas nuevas para recomponer su credibilidad ante el electorado de centro-derecha. Mientras no aparezca otra fuerza política de envergadura capaz de atraer a una franja de electores del PP y, al mismo tiempo de ganar el voto de descontentos de la izquierda, el PP permanecerá como el niño autista, confortado en su mundo interior y en la seguridad de que no tiene competencia en el tema de la unidad nacional, las iniciativas anti-ZP, o el torpedeo a la política del absurdo de ZP.
Eso es lo que, como mínimo, podemos esperar de 2005. Luego están, naturalmente, los males mayores: una economía que cojea, una opinión pública que considera que su situación personal es peor ahora que hace un año, un “efecto llamada” que va a convulsionar la vida española, unos patronos que se van a resistir a sacar a la superficie a los dos millones de inmigrantes ilegales, un gobierno que, no sólo carece de ideas, sino que tiene malas ideas, y, una situación internacional en la que los primeros entusiasmos de ZP de creación de un eje “hispano-franco-alemán” se habrán disuelto, con un referéndum sobre la Constitución Europea que promete batir records de absentismo en el electorado y así sucesivamente.
Todo esto induce a pensar que 2005, va a ser el año inolvidable que pasará a la historia como el “año en que todos sufrimos”.

© Ernesto Milà – infokrisis –infokrisis@yahoo.es

Publicado por jmeq em 03:33 PM

PROMETEU DERROTADO


Segunda-feira, 03 de Janeiro de 2005

á 250 anos, o tremor de terra de Lisboa provocou um debate político de fundo na Europa. O maremoto do Índico terá o mesmo efeito.

A catástrofe natural mostra a fraqueza da sociedade perante a natureza. Desmente de modo brutal o optimismo da acção política contemporânea.

O tremor de terra de 1755 também desmentiu os Iluministas optimistas. Leibniz dava a base filosófica aos ultras das Luzes cuja cabeça de cartaz era Rousseau: um Deus perfeito tinha feito um mundo que não podia deixar de ser perfeito. A sociedade má impedia a difusão da luz. A revolução iluminaria todos e então tudo seria possível.

As dezenas de milhares de mortos de Lisboa tornavam mais difícil a defesa desta tese. Voltaire, um iluminista céptico, adiantou-se no ataque aos optimistas: «Filósofos enganados que gritais: 'Está tudo bem'/ correi, contemplai estas ruínas horrorosas». No ano seguinte, escreveu o «Cândido», uma sátira do optimismo militante: o herói vê o bem em tudo; vem a Lisboa e é condenado pela Inquisição.

Rousseau, modesto como de costume, tomou-se por o «Cândido» e acusou Voltaire de mandar o homem «sofrer para sempre»; observou que «a maior parte dos males físicos são obra do homem» - morrera muita gente em Lisboa por os prédios serem altos. E acusou Voltaire de acreditar no Diabo, ao passo que ele acreditava em Deus.

Este debate, porém, situa-se mais na Terra do que no Céu. Pois trata da acção humana. Prometeu foi roubar o fogo aos deuses por supor que podemos tudo. Podemos? Rousseau respondia «sim»; Voltaire dava um «não» rotundo. O debate sobre o tremor de terra de Lisboa sinalizou a possibilidade da revolução e a impossibilidade do terror revolucionário.

O debate de hoje ecoa o de 1755. Prometeu teve nova derrota. Mas recusamos acreditar nela. A reacção dominante aos efeitos do maremoto no Índico é: «Se tivesse havido uma informação precoce...». Ou seja: a natureza foi boa e a sociedade continua a ser má. Má, mas toda poderosa. Apesar de nem o mais assanhado ecologista imputar os terramotos à acção humana. E a tal informação não ter evitado o abalo sísmico nem o grosso dos seus efeitos.

Optimistas, os partidos políticos de todo o mundo terão que fazer novas promessas prometeicas: trabalharemos para evitar os males do maremoto. E todos os outros males. Richard A. Posner sugere-nos mais investimento na prevenção dos grandes riscos, tipo maremoto. Assim evitaremos uma catástrofe - e uma catástrofe é, para um novo Rousseau do New York Times, o único obstáculo a que «a nossa espécie continue a existir por milhões de anos». Por milhões de anos!!! Assim aumentará o conflito entre a realidade e as representações que dela fazemos: face ao abismo, demos um passo em frente. Falta-nos um Voltaire. Que, aliás, no poema acima citado, escreveu, em veia mais messiânica do que tecnocrática: «tudo está bem hoje, eis a ilusão/ Um dia tudo estará bem, eis a nossa esperança».

Luis Salgado de Matos (PÚBLICO de 03JAN05)



Publicado por jmeq em 12:11 PM

O SUAVE MILAGRE - EÇA DE QUEIROZ.


Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do lago de Tiberíade – mas a nova dos seus milagres penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar.

Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo profeta, um rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males humanos. E, enquanto descansava, sentado à beira da Fonte dos Vergéis, contou ainda que esse rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo de um decurião romano, só com estender sobre ele a sombra das suas mãos; e que noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerasenos, onde começava a colheita do bálsamo, ressuscitara a filha de Jairo, homem considerável e douto que comentava os livros na sinagoga. E como em redor, assombrados, seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe perguntassem se esse era, em verdade, o Messias da Judeia, e se diante dele refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as sombras de duas torres, as sombras de Gog e de Magog – o homem, sem mesmo beber daquela água tão fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja até Áscalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar: as crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam pelos caminhos se além da esquina do muro, ou de sob o sicômoro, não surgiria uma claridade, e nos bancos de pedra, às portas da cidade, os velhos, correndo os dedos pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tão sapiente certeza, os ditames antigos.

Ora então vivia em Enganim um velho, por nome Obed, de uma família pontifical de Samaria, que sacrificara nas aras do monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas – e com o coração tão cheio de orgulho como seu celeiro de trigo. Mas um vento árido e abrasado, esse vento de desolação que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se estiravam na latada airosa, só deixara, em torno dos olmos e pilares despidos, sarmentos de cepas mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. E Obed, agachado à soleira da sua porta, com a ponta do manto sobre a face, palpava a poeira, lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.

Apenas ouvira porém desse novo rabi da Galileia que alimentava as multidões, amedrontava os demónios, emendava todas as desventuras – Obed, homem lido, que viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um desses feiticeiros, tão costumados na Palestina, como Apolónio, ou rabi Ben-Dossa, ou Simão, «o Subtil». Esses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrelas, para eles sempre claras e fáceis nos seus segredos; com uma vara afugentam de sobre as searas os moscardos gerados nos lodos do Egipto; e agarram entre os dedos as sombras das árvores, que conduzem, como toldos bené6cos, para cima das eiras, à hora da sesta. Jesus da Galileia, mais novo, com magias mais viçosas decerto, se ele largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria os seus vinhedos. Então Obed ordenou aos seus servos que partissem, procurassem por toda a Galileia o rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim, no país de Issacar.

Os servos apertaram os cinturões de couro – e largaram pela estrada das caravanas, que, costeando o lago, se estende até Damasco. Uma tarde, avistaram sobre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves 6nas do monte Hérmon. Depois, na frescura de uma manhã macia, o lago de Tiberíade resplandeceu diante deles, transparente, coberto de silêncio, mais azul que o céu, todo orlado de prados floridos, de densos vergéis, de rochas de pórfiro, e de alvos terraços por entre os palmares, sob o voo das rolas. Um pescador que desamarrava preguiçosamente a sua barca de uma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os servos. O rabi de Nazaré? Oh! desde o mês de Ijar, o rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordão leva as águas.

Os servos correndo, seguiram pelas margens do rio, até adiante do vau, onde ele se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tribo dos Essénios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, nela beira da água, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaram-no, porque o povo ama aqueles homens de coração tão limpo, e claro, e cândido como as suas vestes cada manhã levadas em tanques purificados. E sabia ele da passagem do novo rabi da Galileia que, como os Essénios, ensinava a doçura, e curava as gentes e os gados? O Essénio murmurou que o rabi atravessara o oásis de Engaddi, depois se adiantara para além... – Mas onde, além? – Movendo um ramo de flores roxas que colhera, o Essénio mostrou as terras de além-Jordão, a planície de Moab. Os servos vadearam o rio – e debalde procuravam Jesus, arquejando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Makaur... No Poço de Jacob repousava uma larga caravana, que conduzia para o Egipto mirra, especiarias e bálsamos de Gilead, e os cameleiros, tirando a água com os baldes de couro, contaram aos servos de Obed que em Gadara, pela lua nova, um rabi maravilhoso, maior que David ou Isaías, arrancara sete demónios do peito de uma tecedeira, e que, à sua voz, um homem degolado pelo salteador Barrabás se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, esperançados, subiram logo açodadamente pelo caminho dos peregrinos até Gadara, cidade de altas torres, e ainda mais longe até às nascentes de Amalha... Mas Jesus, nessa madrugada, seguido por um povo que cantava e sacudia ramos de mimosa, embarcara no lago, num batel de pesca, e à vela navegara para Magdala. E os servos de Obed, descoroçoados, de novo passavam o Jordão na Ponte das Filhas de Jacob. Um dia, já com as sandálias rotas dos longos caminhos, pisando já as terras da Judeia Romana, cruzaram um fariseu sombrio, que recolhia a Efraim, montado na sua mula. Com devota reverência detiveram o homem da Lei. Encontrara ele, por acaso, esse profeta novo da Galileia que, como um deus passeando na Terra, semeava milagres? A adunca face do fariseu escureceu enrugada – e a sua cólera retumbou como um tambor orgulhoso:

– Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! Onde ouvistes que existissem profetas ou milagres fora de Jerusalém? Só Jeová tem força no seu Templo. De Galileia surdem os néscios e os impostores...

E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de dísticos sagrados – o furioso doutor saltou da mula e, com as pedras da estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando: «Racca! Racca!» e todos os anátemas rituais. Os servos fugiram para Enganim. E grande foi a desconsolação de Obed, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam – e todavia, radiantemente, como uma alvorada por detrás de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galileia.

Por esse tempo, um centurião romano, Públio Sétimo, comandava o forte que domina o vale de Cesareia, até à cidade e ao mar. Públio, homem áspero, veterano da campanha de Tibério contra os Partos, enriquecera durante a revolta de Samaria com presas e saques, possuía minas na Ática e gozava, como favor supremo dos deuses, a amizade de Flaco, legado imperial da Síria. Mas uma dor roía a sua prosperidade muito poderosa como um verme rói um fruto muito suculento. Sua filha única, para ele mais amada que vida ou bens, definhava com um mal subtil e lento, estranho mesmo ao saber dos esculápios e mágicos que ele mandara consultar a Sídon e a Tiro. Branca e triste como a lua num cemitério, sem um queixume, sorrindo palidamente a seu pai definhava, sentada na alta esplanada do forte, sob um velário, alongando saudosamente os negros olhos tristes pelo azul do mar de Tiro, por onde ela navegara de Itália, numa galera enfestoada. Ao seu lado, por vezes, um legionário, entre as ameias, apontava vagarosamente ao alto a flecha, e varava uma grande águia, voando de asa serena, no céu rutilante. A filha de Sétimo seguia um momento a ave torneando até bater morta sobre as rochas – depois, mais triste, com um suspiro, e mais pálida, recomeçava a olhar para o mar.

Então Sétimo, ouvindo contar, á mercadores de Chorazim, deste rabi admirável, tão potente sobre os espíritos, que sarava os males tenebrosos da alma, destacou três decúrias de soldados para que o procurassem por Galileia, e por todas as cidades da Decápole, até à costa e até Áscalon. Os soldados enfiaram os escudos nos sacos de lona, espetaram nos elmos ramos de oliveira – e as suas sandálias ferradas apressadamente se afastaram, ressoando sobre as lajes de basalto da estrada romana que desde Cesareia até ao lago cona toda a tetrarquia de Herodes. As suas armas de noite, brilhavam no topo das colinas, por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais, rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a palha das medas: e as mulheres, assustadas, para os amansar, logo acudiam com bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que eles bebiam de um trago, sentados à sombra dos sicômoros. Assim correram a Baixa Galileia – e, do rabi, só encontraram o sulco luminoso nos corações. Enfastiados com as inúteis marchas, desconfiando que os Judeus sonegassem o seu feiticeiro para que os Romanos não aproveitassem do superior feitiço, derramavam com tumulto a sua cólera, através da piedosa terra submissa. À entrada das aldeias pobres detinham os peregrinos, gritando o nome do rabi, rasgando os véus às virgens: e, à hora em que os cântaros se enchem nas cisternas, invadiam as ruas estreitas dos burgos, penetravam nas sinagogas, e batiam sacrilegamente com os punhos das espadas nas Thebahs, os santos armários de cedro que continham os Livros Sagrados. Nas cercanias de Hébron arrastaram os solitários pelas barbas para fora das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o rabi – e dois mercadores fenícios que vinham de Jope com uma carga de malóbatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por esse delito cem dracmas a cada decurião. Já a gente dos campos, mesmos os bravios pastores de Idumeia, que levam as reses brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as serranias, apenas luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando violento. E da beira dos eirados, as velhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos desgrenhados, e arrogavam sobre eles as Más Sortes, invocando a vingança de Elias. Assim tumultuosamente erraram até Áscalon: não encontraram Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sandálias nas areias ardentes.

Uma madrugada, perto de Cesareia, marchando num vale, avistaram sobre um outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o fino e claro pórtico de um templo. Um velho, de compridas barbas brancas, coroado de folhas de louro, vestido com uma túnica cor de açafrão, segurando uma curta lira de três cordas, esperava gravemente, sobre os degraus de mármore, a aparição do Sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo sacerdote. Conhecia ele um novo profeta que surgira na Galileia, e tão destro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho? Serenamente, alargando os braços, o sereno velho exclamou por sobre a rociada verdura do vale:

– Oh romanos! pois acreditais que em Galileia ou Judeia apareçam profetas consumando milagres? Como pode um bárbaro alterar a ordem instituída por Zeus?... Mágicos e feiticeiros são vendilhões, que murmuram palavras ocas, para arrebatar a espórtula dos simples... Sem a permissão dos imortais nem um galho seco pode tombar da árvore, nem seca folha pode ser sacudida na árvore. Não há profetas, não há milagres... Só Apolo Délfico conhece o segredo das coisas!

Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os soldados recolheram à fortaleza de Cesareia. E grande foi o desespero de Sétimo, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tiro – e todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia, sempre mais consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do Hérmon e, através dos hortos reanima e levanta as açucenas pendidas.

Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos de enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!

Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; Sétimo, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus o conduzissem, por seu mando a Cesareia. Errando esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Sétimo. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.

A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:

– Oh filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Corazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hébron até ao mar! Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?

A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:

– Oh mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!

E a mãe, em soluços:

– Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.

De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:

– Mãe, eu queria ver Jesus...

E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:

– Aqui estou.



Eça de Queiroz, Contos



Publicado por jmeq em 01:17 PM

A QUESTÃO AFINAL É DE REGIME.



Por ANTÓNIO DE SOUSA-CARDOSO

Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2004

jovem democracia portuguesa acordou, há cerca de três semanas, surpreendida por um acto Presidencial inusitado para que não estava preparada e que parece ter, a despeito das muitas omissões, um pelo menos aparente agasalho constitucional. Para além do estranho (quase) unanimismo na opinião publicada que, com mais ou menos reservas, proclama um sentimento de velada compreensão pelo Presidente da República, o que pensarão os portugueses?

Primeiro facto estranho: A anunciada dissolução do Parlamento. Os portugueses sabem que existia maioria parlamentar estável e coesa. Nenhum português assistiu a desinteligências graves nos partidos da coligação que condicionassem o exercício próprio das funções de uma maioria Parlamentar. Os portugueses ficaram suspensos de uma explicação cabal para esta tão drástica medida. Desconfiavam do pior, claro está. Algo de muito grave que permitisse justificar a aparente desproporção da iniciativa tomada com a crueza dos factos conhecidos.

Segundo facto estranho: O Presidente demora doze longos dias a dar qualquer explicação ao País. Com este silêncio, permitiu as maiores especulações, as reacções mais violentas por parte de "quem se sentiu" e, decorrentemente, um ambiente de instabilidade e falta de credibilidade institucional que ao próprio Presidente cumpre vigiar e preservar.

Terceiro facto estranho: O Presidente mostra vontade de que o Orçamento do Estado, sobre o qual tinha mostrado tantas reservas, fosse aprovado antes da dissolução da Assembleia. Para ser vigiado e executado por quem, pensaram os portugueses?

Doze dias depois, os portugueses assistem às explicações do Presidente. Tudo visto, o chefe de Estado vem dizer que uma série de episódios ou incidentes suscitados pelo Governo no período de quatro meses, causou no próprio Presidente a ideia geral de que haveria uma "substancial instabilidade" e uma deterioração da credibilidade e imagem do Governo.

Os portugueses abrem a boca de espanto. O Presidente invocando incidentes que não nomeia, da estrita responsabilidade do Governo, mantém o Governo e dissolve a Assembleia onde permanecia uma maioria estável e coesa. O Presidente que invoca que o Governo não garante a consolidação orçamental e o crescimento económico, está quieto durante doze dias para que a Assembleia que quer dissolver, aprove precisamente o Orçamento que concretiza a política económica e financeira do mesmo Governo.

Os portugueses puxam pela cabeça. A memória do "pântano" está ainda fresca. A que incidentes se referiria o Presidente? À conhecida e muito propalada demissão de um comentador politico de uma estação televisiva? À sesta do primeiro-ministro antes de participar num evento de moda? À saída barulhenta de um dos ministros? Às criticas de alguns sectores económicos à proposta de Orçamento? Ao artigo de um antigo primeiro-ministro da mesma família política do Governo, falando da teoria da "moeda boa"?

Mesmo sabendo que a "substancial instabilidade" brota do conjunto destes factos e não de um isoladamente, os portugueses recordam o Governo anterior, com sucessivos episódios e incidentes, com membros do Governo que saíam barulhentamente, com anteriores primeiros-ministros da mesma família política a escreverem artigos críticos sobre a governação de então. Com o absoluto descontrolo das contas públicas. Com a ausência total das reformas que o País reclamava. Quais as diferenças, perguntam os Portugueses?

Para além da sesta, a diferença parece ser a de que o Governo de então não estava baseado numa maioria parlamentar estável. A diferença parece ser que o então primeiro-ministro se demitiu reconhecendo que o país caminhava para um "pântano". A diferença parece ser a de que o partido que minoritariamente sustentava o Governo tinha acabado de perder, estrondosamente, umas eleições autárquicas. O que vez então o Presidente? Insistiu com o primeiro-ministro para que continuasse.

Do que podem suspeitar os portugueses? Sabem que o Presidente foi líder do maior partido da oposição, batendo-se galhardamente contra os adversários políticos que hoje constituem o actual Governo. Sabem que o Presidente foi eleito pela família política do actual partido da oposição, contra os votos daqueles que elegeram a actual maioria. Sabem que o Presidente está quase no final do seu segundo mandato. É um Presidente a prazo que pode ainda querer no final do mandato, como aconteceu com o seu antecessor, ter o seu partido espaço de intervenção e de acção política.

Não vale a pena falar de eventuais teorias da conspiração, justificando que o Presidente fez agora o que não fez há quatro meses, porque não sentiu no seu partido credibilidade suficiente para vencer eleições. Chega pensar que, com estes dados, o Presidente confirmou aquilo que é natural na Chefia de Estado republicana. A dificuldade em ser imparcial e independente. A dificuldade em estar acima do jogo partidário de que ainda recentemente se emergiu. A dificuldade, em suma, de ser o Presidente de todos os Portugueses.

Quem já jogou o jogo, quem foi inclusive capitão de uma das equipas, não está em condições de ser um árbitro a prazo do mesmo campeonato. Esta a ideia sobre a qual vale a pena que os portugueses reflictam.

A questão não é tanto de qual o sistema político que a Constituição deveria acolher. A questão é muito mais de qual o regime que melhor se adequa às características que são exigíveis ao Chefe de Estado numa democracia moderna. Se quisermos um exemplo comparativo basta um olhar para a vizinha Espanha. Em quase 30 anos de democracia teve quatro primeiros-ministros: Adolfo Suarez, Filipe Gonzalez, José Maria Aznar e, desde Março, José Luis Zapatero. Cada um dos líderes de governo teve oportunidade de criar as suas equipas, executar os seus programas e apresentar contas ao eleitorado. Nos mesmos 30 anos de Democracia, em Portugal acaba de se demitir o XVI Governo Constitucional.

A Espanha passou para o pelotão da frente, nós fomos sendo ultrapassados. A Espanha que é um País com questões nacionais por resolver, com instabilidade social, com terrorismo, com uma imprensa livre e acutilante. Por detrás desta estabilidade geradora de riqueza esteve a Monarquia. Acima das conjunturas do momento, para além dos partidos e dos seus interesses, imune a grupos e lobbies, esteve e está o Rei. Sem estados de alma, sem preocupações de curto prazo, sem nenhuma agenda que não a determinada pelo interesse nacional. Foi o garante da transição, consolidou a Democracia. É agora o garante da estabilidade, da coesão nacional e da soberania do Estado.

Num momento difícil para Portugal, interrompemos pela discricionariedade do Chefe de Estado mais um ciclo político. E depois, senhor Presidente? O que pode acontecer se nas eleições de 20 de Fevereiro os portugueses decidirem confirmar o voto na maioria que sustentou o XVI Governo? O que fará Vossa Excelência que tomou decisões graves por "sucessivos episódios" se o sufrágio popular designar os mesmos partidos, chefiados pelos mesmos líderes para assumirem funções legislativas e governativas para os próximos quatro anos? Este sim, constituirá um grave incidente que nenhum sistema político em República será capaz de resolver.

Julgo que no final de tudo isto o senhor Presidente da República prestou um único serviço ao País: o de demonstrar com a sua acção inusitada que nunca como hoje se tornou tão relevante, tão actual, uma profunda e séria reflexão sobre qual o regime que melhor serve o futuro de Portugal e dos portugueses. Presidente da Causa Real



Publicado por jmeq em 03:25 PM

O DIREITO À ESPERANÇA.



Por MÁRIO PINTO

Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2004

1. No rescaldo desta grande "trapalhada" democrática da dissolução da Assembleia da República, que foi alegadamente o remédio para as "trapalhadas" do Governo, talvez possamos concordar em que, tudo somado, a coisa não foi exaltante. E de tal modo que não se apagará do currículo da nossa vida política, para regalo dos teóricos e cisma dos analistas. Segue-se um largo período em que o País, que tem estado em crise e talvez iniciando um declínio, ficará sem um governo que governe, e só pode aspirar a ver geridos assuntos correntes, o que quer que isso seja.

Portanto, restam as eleições. Como sempre, resta a esperança. Acerca da esperança, o nosso povo, que tem muito mais sabedoria do que os pós-modernistas acreditam, tem duas sentenças. Uma é: quem espera, sempre alcança. Outra é: quem espera, desespera. Parecem contradizer-se, mas eu não creio que sejam contraditórias; são alternativas. Quando se espera, é-se tentado pelo desespero. Então, ou se desespera, e o povo deixa-nos reticências, ou se mantém firme a esperança, e o povo diz que se alcança. "A contrario", quem desespera não alcança.

É este também o combate que na vida espiritual cristã se conhece, quando se ensina que deve sempre manter-se a esperança contra toda a desesperança - aquele que desespera, perde-se. Talvez seja este o pecado contra o Espírito Santo, único que não pode ser perdoado, diz a Escritura. Pela simples razão de que se deixa de desejar-esperar o perdão.

2. Mas, note-se bem, a esperança não é um acto passivo. É o mais activo dos actos, porque resiste quando já todos se esgotaram. É a mais humilde mas mais resistente das virtudes, é a última reserva do homem, perante Deus, perante o mundo, perante si próprio.

E se é activa, então activemos a nossa esperança. Na circunstância, trata-se de pôr de lado a quezília político-partidária, que é inútil e já sobra, e desafiar os partidos para apresentarem programas de governo que sejam claros, precisos, completos. Não necessitamos de mais programas que descrevam o ideal para cada sector da vida do País. Como por exemplo: promover isto, intensificar aquilo, acabar com aqueloutro. Sejamos mais concretos e apontados ao período da legislatura. Necessitamos de saber como é que cada partido quer resolver problemas bem precisos e identificados. Ou seja: faça cada partido a lista dos problemas que considera decisivos para arrancar com um verdadeiro, digno e sustentado desenvolvimento; e diga, para cada problema, a solução que se compromete a aplicar.

3. Por favor, não omitam como vão fazer as reformas mil vezes repetidas como necessárias ao País: a reforma da Administração Pública; a reforma do monopólio da educação pública; a reforma do monopólio estatal do sistema nacional de saúde; a revisão de certos bloqueios constitucionais; a reforma da justiça; um plano exigente de regeneração de todo o sistema fiscal, para ser justo, leve quanto possível, e acabar com a fuga aos impostos; a reforma do sistema labiríntico da urbanização, que tem desgraçado o País; a luta contra a corrupção e o combate à criminalidade e à insegurança; a reforma dos regimes aplicáveis aos detentores de cargos políticos, para os prestigiar, responsabilizar e dignificar; o combate à burocracia; condições ágeis de iniciativa económica; em todos os domínios, controlo e avaliação dos desempenhos, transparentes e eficazes, premiando o mérito e tratando justamente o demérito.

Isto é apenas uma lista de exemplos. E vários destes exemplos desdobram-se em muitos problemas, que pedem respostas específicas, concretas, como no caso da magna reforma da Administração Pública.

Sim, também são necessárias declarações inequívocas de orientação. Por exemplo: a favor ou contra a liberdade de educação? Isto é, contra ou a favor do monopólio da escola pública? A favor ou contra o monopólio de prestador directo de serviços do Estado no serviço nacional de saúde? A favor ou contra a igualização do regime de trabalho no sector público e no privado (exceptuados os órgãos e serviços de soberania e os corpos de exercício de poderes públicos)? A reforma do Estado Social, em que sentido?

Além disso, há questões muito melindrosas do ponto de vista ético e moral. Digam-nos os partidos muito claramente o que pensam acerca do aborto e da eutanásia. Das experiências e manipulações genéticas. Do casamento, da heterossexualidade e da homossexualidade, da família e da adopção. Não queiram omitir estas coisas para depois nos surpreenderem com medidas dramáticas sobre assuntos tão melindrosos. Se não assumem posições e querem deixar os assuntos para referendo, queiram dizê-lo sem papas na língua, porque os portugueses preferem decidir por referendo questões fundamentais para as suas concepções de vida do que assistir à rasquice dos debates parlamentares na matéria. Porque não havemos de recorrer mais facilmente ao referendo, se afinal descremos da classe política e, por outro lado, todos os dias as televisões e as rádios referendam tudo no País? Para não falar de outros tantos referendos que são as declarações diárias de corporações sindicais e outras, sem esquecer as ONGs, "em nome do seu povo"?

4. Os tempos que aí vêm serão muito difíceis, a avaliar por tantos relatórios, declarações e análises. As declarações de figuras eminentes e responsáveis são inequívocas. Os portugueses já o sentem. Portanto, na campanha eleitoral, a clareza dos diagnósticos, a clareza dos programas de governo e o confronto democrático são preferíveis à deterioração da nossa situação nacional: política, económica, social e cultural. Se a nova legislatura não vier reerguer o País, pode seguir-se uma grave crise nacional. Mais uma. O que aparenta ser muito de admitir. Até agora, os vários partidos que começam a ensaiar discursos de campanha eleitoral continuam a dar-nos cantos de cigarra, como escreveu Rui Machete no "Diário de Notícias", em vez de nos garantirem trabalhos de formiga.

5. ADENDA. Sobre "o direito a morrer". Há dias, Eduardo Prado Coelho achou no PÚBLICO que a nova lei francesa que concede a certos doentes o "direito de morrer" (eutanásia) é "uma decisão histórica". Histórica... é capaz de ser. Mas a verdadeira questão é saber se é boa ou má. Prado Coelho louva-a; eu condeno-a. Esta divergência, que não pode aqui ser explanada por falta de espaço, os leitores facilmente a compreenderão, porque não é nova; é uma velhíssima "vexata quaestio" com milénios. O que surpreende é que, aparentemente, ela parece ter deixado de ser complexa e polémica para alguns.

Em sentido contrário ao desta nova lei, o primeiro-ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, terá dito que "a vida não pertence aos políticos". Prado Coelho escreve simplesmente que este dito foi um momento menos feliz do ilustre político. Eis como se arruma uma declaração irrespondível; eis como se deita fora um problema, em vez de o enfrentar e resolver. Num momento mais feliz, Raffarin deverá agora dizer, depois da lei aprovada: "afinal, enganei-me: de facto a vida pertence aos políticos".



Publicado por jmeq em 03:20 PM