O CÓDIGO DA VINCI DE A-Z.
«Sophie, todas as fés do mundo se baseiam em invenções. É essa a definição de fé: aceitação daquilo que imaginamos ser verdade» (p. 408).
«De facto, com este romance aproveita-se alguma cultura geral, recheada de muita informação disseminada, mas deve ser assimilada criticamente em virtude dos seus diferentes níveis de rigor. É uma obra que contribui para despertar o interesse pela História da Arte e as suas conexões com a simbólica das religiões. Portanto, ganha-se no reavivar da memória para certos aspectos da herança cultural humana, mas perde-se em complexidade, em profundidade e em seriedade no tratamento de questões complicadas. Estas, assim simplificadas, misturadas e baralhadas, disseminam muita confusão e pouco esclarecimento.»
(J. EDUARDO FRANCO – O Código da Conspiração , in Brotéria, vol. 159 (6), Dez. 2004, p. 483)
A
- APÓCRIFOS - «O Evangelho de Filipe é sempre um bom sítio para começar. Sophie leu a passagem: ‘E a companheira do Salvador é Maria Madalena. Cristo amava-a mais do que a todos os discípulos e costumava beijá-la muitas vezes na boca. Os outros discípulos sentiam-se ofendidos por isto e expressavam a sua desaprovação. Perguntavam-lhe: ‘Porque é que a amas mais que a todos nós ? (...) Como qualquer estudioso do aramaico lhe dirá, a palavra companheira, naquele tempo, significava literalmente esposa» (pp. 295-296).
Companheiros são, por exemplo, os discípulos de Emaús. Companheiro é o que partilha o pão. Depois, os evangelhos apócrifos dão para todos os gostos. Por exemplo, no chamado evangelho de Tomé e no de Maria, quando os discípulos interrogam o Senhor sobre como poderá salvar-se Maria Madalena, é-lhes retorquido, sem mais, que ela será transformada em homem: «Eu a guiarei de modo a fazer dela um macho, pois, uma mulher que seja feita homem entrará no reino dos Céus» (evangelho de Tomé).
«Como podemos saber que os apóstolos não eram uns visionários ?
Neles produz-se o processo exactamente inverso ao dos visionários. Estes, num primeiro momento, estão muito convencidos e são ntusiastas e pouco a pouco começam a duvidar da da visão. Os discípulos de Jesus, por seu turno, ao princípio, duvidam. Não crêem a seguir à Ressurreição. Tomé não se fia na palavra dos demais e quer tocar o corpo de Cristo ressuscitado. Assim eram aqueles homens: simples, concretos, realistas. A maioria eram pescadores, não eram nem visionários nem místicos. Um grupo de pessoas abatidas, aterrorizadas depois da morte de Jesus. Nunca teriam chegado sozinhos a um auto-convencimento da Ressureição. Não se renderam a uma evidência concreta e experimentável.»
(ANDREA TORNIELLI – O misterioso ‘big bang’ da origem do cristianismo – www.es.catholic.net)
– AQUÁRIO, Era de -«O milénio acaba de passar, e com ele, terminaram os dois mil anos de idade astrológica de Pisces, o peixe, que é também o signo de Jesus (...) Agora, no entanto, estamos a entrar na idade de Aquarius, o carregador de água, cujas ideias afirmam que o homem aprenderá a verdade e será capaz de pensar por si mesmo. A mudança ideológica é enorme, e está a acontecer neste preciso momento». (p.321)
Desde que começou o terceiro milénio, não se tem notado muito a influência aquariana. Antes pelo contrário, com a escalada das múltiplas formas de terrorismo, institucionalizadas ou não.
Por outro lado, como se pode calcular o signo zodiacal de Jesus ? A ligação de Cristo ao peixe é evidentemente outra – ICHTUS – acrónimo de JESUS CRISTO DEUS (THEOS) E SALVADOR (SOSTER) - com que os primeiros cristãos se protegiam.
B
– BAPHOMET - «Quando escrevemos Baphomet, usando o alfabeto hebreu, ela perde as suas três vogais, na tradução, deixando-nos (...) S-V- PH-I-A» (p. 381)
«Não passa de uma deformação da palavra ‘Mahomet’. Está atestado em vários textos, entre outros, no famoso sirvantês Ira et dolor, poema em língua d’oc, composto por um templário anónimo, após a perda de Arsouf, em 1265, no qual o poeta brada dolorosamente: ...
ja nul hom que en Jezu Christ creza
Non remanra, s’el pot, en est paes;
Enans fara bafomairia
Del Mostier de Sancta Maria
o que equivale a dizer que, de uma igreja dedicada à Virgem, far-se-á uma mesquita. Recordemos também o Jeu de Saint-Nicholas, no qual, aliás contra todas as verdades religiosas, se vê um muçulmano a adorar ‘um Maomé com chifres’. Essa assimilação de Maomé a um ídolo, tal como a deformação do termo em ‘Baphomet’ faz parte do folclore da época»
(RÉGINE PERNOUD, Os Templários, Publicações Europa/América, Sintra, 1996, p. 160)
C
- CHAVE DA ABÓBADA - « Todos os arcos de pedra precisam de uma pedra central, em forma de cunha, que, colocada no topo, trava as peças e suporta todo o peso. Esta pedra é, num sentido arquitectónico, a chave da abóbada. Em inglês, chamamos-lhe keystone. – Langodon vigiou-lhe os olhos, à espera de qualquer centelha de reconhecimento.»
Qualquer pessoa minimamente versada na cultura bíblica sabe que a pedra angular é uma metáfora usada no Salmo 118 (22) – a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular – para identificar o Messias, o Salvador.
- CONCÍLIO DE NICEIA - «O estabelecimento de Jesus como ‘Filho de Deus’ foi oficialmente proposto e votado no Concílio de Niceia. (...) E bastante renhida, por sinal – respondeu Teabing. – Em todo o caso, estabelecer a divindade de Jesus era crucial para a unificação do Império Romano e para a base de poder do novo Vaticano». (p. 282)
Niceia, antiga cidade da Ásia Menor (Anatólia), célebre pelos dois concílios ecuménicos que condenaram um o arianismo (325), o outro (787) os iconoclastas quebradores de imagens (seita de heréticos do séc. VIII, que destruíam as imagens dos santos e queriam acabar com o culto aos Santos). Esta heresia fez desaparecer numerosas obras de arte cristã primitiva e extinguiu-se no séc. IX).
As afirmações mais audaciosas e incorrectas do Código Da Vinci prendem-se com a história antiga da Igreja e a pessoa de Jesus:
1. A divindade de Jesus e a sua afirmação como Filho de Deus foram estabelecidas, propostas e votadas no Concílio de Niceia em 325.
2. Antes deste evento, ninguém - nem mesmo os discípulos de Cristo – acreditava que Ele fosse mais que um mortal profeta.
3. O Imperador Constantino instituiu a divindade de Jesus por razões políticas e usou a Igreja Católica como meio de solidificar o seu poder.
«O Concílio de Niceia foi o primeiro concílio ecuménico da Igreja, patrocinado por Constantino que desejava pôr fim à desunião e controvérsia causadas pela heresia Ariana (= Arianismo – Heresia de Ário de Alexandria, fundador da seita dos arianos (256-336)). Ário combatia a unidade e a consubstancialidade em três pessoas da Trindade e sustentava que o Verbo, tirado do nada, era muito inferior a Deus Pai. Considerava Cristo como essencialmente perfeito, mas negava que comungasse da substância do Pai. Esta doutrina pregada por Ário, cerca de 323, e sustentada por imperadores de Constantinopla, como Constâncio Valente, contrabalançou durante algum tempo, o poder do catolicismo. Foi condenada pelo concílio de Niceia. O concílio de Constantinopla (381) vibrou-lhe um rude golpe.
Ário era notável pela sua pregação e estilo de vida ascético. Sustentou que Jesus não era inteiramente divino e que o seria menos que o Pai. O Filho não teria existido durante todo o eterno passado, mas fora criado pelo Pai como um instrumento, primeiro, da Criação, depois, da Salvação. Jesus não seria Deus por natureza mas um Deus menor. Esta crença foi condenada pelo Bispo Alexandre num sínodo local realizado em Alexandria por volta do ano 320, no qual 98 dos 100 bispos votaram contra a doutrina de Ário. Mas os ensinamentos arianos, contudo, atraíram o interesse e depressa se espalharam, devido ao patrocínio do bispo Eusébio .
O primeiro concílio ecuménico de Niceia, em 325, confessou no seu Credo que o Filho de Deus é gerado, não criado, e da mesma substância que o Pai. Decidido por mais de 99% dos bispos e não por uma votação restrita, como DAN BROWN pretende. O carácter experiente dos Bispos – muitos sofreram tortura e prisão em nome da fé - opõe-se à asserção de que teriam aceite as orientações do Imperador para proclamar a natureza divina de Jesus. De resto, como vimos, o próprio Ário, não a negava por completo.
Os elementos disponíveis evidenciam que os primeiros cristãos que conheceram Jesus acreditavam na sua natureza divina. Os evangelhos canónicos vêem na pessoa de Jesus o próprio Deus. Neles, Jesus pensa, sente e actua na clara consciência de não ser um mero profeta, mas antes a Manifestação e Revelação - na história dos homens - do próprio Deus.
Citações do Antigo e do Novo Testamento suportam a divindade de Jesus: ‘Uma virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel (Deus connosco)’. No Baptismo de Jesus: quando Jesus emergiu da água, os céus abriram se, e Ele viu o Espírito de Deus descer sobre Si como uma pomba. Ouviu-se uma voz vinda do Céu “Este é o meu filho muito amado, no qual eu pus a minha complacência.” (Mat. 1:23/3:16-17).
O Evangelho de S. João contém algumas das mais fortes afirmações da divindade de Jesus (João 1:1-3/1:14/5:18/8:56/20:28/).
Em numerosos textos dos Evangelhos, Jesus é intitulado Filho de Deus, é-Lhe assinalado o poder de perdoar os pecados, proclama a sua unidade e pertença ao Pai e realiza muitos milagres, incluindo a ressurreição de Lázaro de entre os mortos. Também as cartas dos Apóstolos afirmam a divindade de Jesus (Paulo, Filipe, Timóteo). O Apocalipse apresenta Jesus como o Rei eterno, vitorioso e ressuscitado. ‘Não tenhais medo, eu sou o primeiro e o último’ - diz Jesus (Apoc:1:17). O Primeiro e o Último é um dos títulos usados no Antigo Testamento para descrever YAHWEH, o único Deus verdadeiro. “O Alfa e o Omega, o primeiro e o último, o princípio e o fim” (Apoc. 22:13).
Há muitos testemunhos de escritores cristãos entre 100 dC e o século IV atinentes à fé cristã na divindade de Jesus. Estes escritos permitem reconstituir o contexto ideológico das propostas e batalhas travadas no concílio de Niceia.
a) Inácio de Antioquia, Bispo:
Foi bispo de Antioquia. Especulou-se que, tal como o apóstolo Paulo, possa, previamente à sua conversão, ter perseguido os cristãos. Capturado pelo exército romano, é conduzido a Roma para ser executado. No caminho escreveu várias cartas às Igrejas locais. Afirmou que o Espírito de Deus encarnou em Jesus, de corpo e alma, aconselhando os cristãos a terem presente, em todas as acções, que Jesus fez neles a sua morada. Cada cristão é templo de Deus.
b) Justino, Mártir (115-200)- nasceu numa família pagã e tornou-se cristão com cerca de 30 anos. Prega que só Cristo é Deus e Homem e a fonte de todas as coisas boas. Combateu afincadamente as infiltrações gnósticas no Cristianismo.
c) Tertuliano (160-225) é o grande pai da Igreja Africana Faz observações idênticas. Escreveu: ‘só Deus é sem pecado. Jesus é o único homem sem pecado’.
d) Orígenes (185-254 ) afirmou que, apesar de o Filho ser Deus, Ele tomou a carne. Tendo sido feito homem, permaneceu aquilo que ele era: Deus.
e) Hipólito (170-236 ) : ‘Só a palavra de Deus provém dEle, sendo, contudo, Deus, tornando-se a substância de Deus.’ »
(CARL E. OLSON/ SANDRA MIESEL - A Fraude de O Código Da Vinci, , Ed. Lucerna, Cascais, 2005, pp. 167 e segs.)
Já muito antes do concílio de Niceia (325 d.C.) a Igreja defrontara e condenara outras heresias (lacerações no seio da comunidade), como, por exemplo, o montanismo (início do séc. II). E já começara a combater o arianismo. Já na 1ª Carta de S. João (2,22) podemos ler «Quem nega o Pai e o Filho deve ser considerado anti-Cristo.».
- CONSTANTINO – «Aaah! – exclamou Teabing, com incontível entusiasmo. – a ironia fundamental do cristianismo! A Bíblia, tal como hoje a conhecemos, foi coligida por um pagão, o imperador romano Constantino, o Grande. (...) Cristãos e pagãos começaram a guerrear-se, e o conflito atingiu proporções tais que ameaçava dividir Roma em duas. Constantino decidiu que era preciso fazer qualquer coisa. Em 325 d.C. resolveu unificar o império sob uma única religião: o cristianismo». (p.280)
Como sabemos, foi Constantino que mudou a capital do império para Bizâncio – Constantinopla. De acordo com esta linha, Constantino escolheu o Cristianismo ao acaso. Em lugar de redobrar o vigor dos seus antecessores na perseguição aos cristãos, optaria por perder a dignidade sacra do imperador (Sol Invictus) cedendo-o a um crucificado 300 anos antes.
No Código Da Vinci afirma-se que Constantino foi um pagão baptizado no leito de morte demasiado fraco para se opor. A religião oficial na época era o culto do Sol Invictus ou Sol Invencível e Constantino era o seu representante e máximo sacerdote. Isto é uma mistura de verdade e erro. Há indícios que evidenciam que Constantino se tornou um Cristão convicto e procurou renunciar ao culto dos Deuses pagãos. Lutou para conciliar a sua ligação ao culto do Sol Invictus com a sua crença no Deus dos Cristãos. Seria uma simplificação demasiado ingénua supor que Constantino apenas beneficiaria em apoiar publicamente a Igreja. Os cristãos eram uma escassa minoria da população, pertencendo, na sua maioria, a grupos populacionais com diminuta importância política e social, as classes baixa e média das cidades. A aristocracia que integrava o Senado em Roma era pagã. Os oficiais do exército e os mais bem posicionados de entre os que prestavam serviço civil eram pagãos. Agradar aos cristãos não traria especiais proveitos e, para tanto, bastaria conceder-lhes tolerância. Não seria necessário reconhecer o Cristianismo como uma religião oficial. Garantiu-lhes liberdade de culto e ordenou a restituição aos Cristãos dos locais de culto que lhes haviam sido retirados.
O culto pagão do Sol tem algumas semelhanças com o Cristianismo. A celebração da liturgia ao Domingo (Sunday, Sonntag), o primeiro dia da semana, iniciou-se no tempo de Paulo e dos outros apóstolos. O Domingo era também o dia festivo do Sol Invictus, cuja adoração foi introduzida no mundo Romano por volta do século segundo e foi suportado pelo Imperador Aureliano (270-5 A .D). A religião ancestral de Roma não era o culto do Sol mas o culto de Roma e dos seus divinos Imperadores e o trio Capitoline - Júpiter, Juno e Minerva. O culto do Sol era monoteísta, a adoração do espírito divino pelo qual se regia todo o Universo, e cujo símbolo era o Sol.
Nas profecias do Antigo Testamento, Cristo é intitulado o Sol da Justiça. Muitos pagãos pensavam que os Cristãos adoravam o Sol porque eles se reuniam ao Domingo e rezavam virados para o oriente.
Constantino quis ser baptizado nas águas do Rio Jordão, onde Jesus fora baptizado. Porém, esperou. Era comum aos Cristãos da época serem baptizados no leito da morte, especialmente se se tratasse de um oficial cujos deveres implicavam a execução de tortura e a morte de criminosos. Os pecados graves, cometidos após o Baptismo, reclamariam uma penitência severa.
Constantino entendeu o Cristinianismo como um meio de unir o Império, de o rejuvenescer e o moralizar. Às motivações políticas, acresceram motivações religiosas, mas não precisava de o adulterar teologicamente, como DAN BROWN sugere.
De acordo com o personagem SIR LEIGH TEABING, a Igreja autorizara Constantino a criar uma religião híbrida, tomando por referência símbolos pagãos. No entanto, os primeiros cristãos não se mostraram dispostos a comprometer com o paganismo, por isso tantos foram perseguidos e mortos pelos romanos nos primeiros três séculos da História da Igreja.
Os cristãos apoderaram-se de alguns símbolos e dias festivos e cristianizavam-nos, eliminando certos elementos não compatíveis com as práticas e doutrinas cristãs, preservando os demais elementos. As actuais fontes das crenças cristãs, como a virgindade de Maria, a morte e ressurreição de Jesus e a sua natureza divina têm raízes em narrativas históricas e não, como pretende o autor do Código, em descrições mitológicas e antecedem as ideias pagãs que com elas possam aparentar alguma conexão.
TEABING afirma: ‘ Nada é original no Cristianismo’ e pretende que o antigo Deus pré-Cristão Mitras foi a inspiração para muitos dos detalhes sobre a pessoa de Jesus e a sua vida: os títulos Filho de Deus e Luz do Mundo, o seu nascimento a 25 Dezembro, a sua morte, o seu enterro num túmulo rochoso e a sua ressurreição três dias volvidos. 25 de Dezembro é também o aniversário de Osíris, Adonis e Dionysus.
Ora, poucos indícios há de que a maioria das religiões pagãs como o culto egípcio de Isis e Osíris ou o de Mitra existissem, na bacia mediterrânica, tal como são descritas no Código Da Vinci e no Holy Blood, Holy Grail, antes da primeira metade do século I. Ao invés. muitos são os indícios de que as religiões pagãs de mistério se tenham apropriado de elementos da Fé Cristã, ao longo dos séculos II e III, período de consolidação do cristianismo. Estas religiões diferiam do cristianismo em muitos aspectos. Baseavam-se no ciclo anual da vida vegetal, no conhecimento oculto, enfatizavam o êxtase emocional por contraponto com o dogma e a doutrina e o seu objectivo central era a experiência mística. Ao contrário dos cristãos que prezavam a tradição apostólica, os pagãos adoptavam elementos de vários rituais pagãos, dividindo as crenças e desrespeitando os ensinamentos instituídos.
Ainda mais notório é o contraste entre o carácter mitológico das religiões pagãs e o carácter histórico dos Evangelhos e do Novo Testamento. As divindades dos mistérios pagãos eram figuras nebulosas dum passado imaginário. Jesus é identificado como uma pessoa real que viveu, homem entre os homens e mulheres do seu tempo, pouco antes dos primeiros escritos evangélicos.
São inegáveis os vestígios da religião pagã na simbologia cristã. Porém, os Cristãos moldaram os elementos que utilizaram como símbolos da fé, conferindo-lhes, assim, um carácter original.
- COINCIDÊNCIA – «Langdon sentia-se tudo menos feliz, e coincidência era um conceito em que não acreditava por aí além. Como alguém que passara a vida a explorar as interligações escondidas de emblemas e ideologias díspares, tinha tendência para ver o mundo como uma trama de histórias e acontecimentos profundamento entretecidos».
Nada de menos criterioso de ponto de vista da ciência e da sua metodologia.
- CRUX GEMMATA - ostentada por BEZU FACHE - «um ideograma cristão de Cristo e dos seus doze apóstolos»
Como poderia o chefe da Polícia Judiciária ostentar um símbolo religioso nos serviços públicos da França que os proíbe nas escolas e em todos os serviços públicos?
D
– DAGOBERTO II, - «Para garantir a segurança do filho ainda não nascido de Jesus Cristo, não teve outro remédio senão fugir da Terra Santa. Com a ajuda do tio de Jesus, José de Arimateia, chegou a França, na altura conhecida como Gália, onde encontrou um refúgio seguro entre a comunidade judaica. Foi aqui, em França, que deu à luz uma filha. Que se chamou Sara.(...) Inúmeros eruditos dessa época registaram a estada de Madalena em França, incluindo o nascimento de Sara e a subsequente árvore genealógica» (p. 306) «(...) a linha de Cristo cresceu secretamente em França até que, no século V, num golpe de ousadia, se misturou pelo casamento com o sangue real francês e deu origem a uma linhagem que conhecemos como dos Merovíngios» (p. 309).
Descendentes dos merovíngios seriam, então, todos os da Casa de Lorena, incluindo Maria Antonieta (por via paterna de Francisco III, da Duque de Lorena) guilhotinada, em 1793, não propriamente pelo Vaticano. E outro tanto com o seu filho, o Delfim, Luís XVII, cujo desaparecimento continua a alimentar fantasias. De resto, veja-se a lista dos grão-mestres do denominado Priorado de Sião (p. 390), onde encontramos Carlos de Lorena (1746-1780) e Maximiliano de Lorena (1780-1801). Mas também os Capetos tinham sangue merovíngio. No mais, vale a pena lembrar que Dagoberto II foi canonizado.
Depois, a ideia de José de Arimateia ser tio de Jesus vem soprada pelo meio, como se não passasse de mera especulação.
- DOSSIERS SECRETOS - «Não havia estudioso do Priorado nem maníaco do Graal que não tivesse lido os Dossiers. Catalogados sob o Número 4º Iml 249, os Dossiers Secrets tinham sido autenticados por muitos especialistas e conformado de forma incontroversa aquilo que os historiadores suspeitam havia muito tempo: os Grão-Mestres do Priorado incluíam Leonardo da Vinci, Botticelli, Sir Isaac Newton, Victor Hugo e, mais recentemente, Jean Cocteau, o famoso artista parisiense» (p. 251).
Sabe-se hoje que tais manuscritos foram forjados e introduzidos ilicitamente na Biblioteca Nacional de Paris. De resto, o seu autor, Philipe de Chérisay, – por não lhe ver paga a quantia prometida para executar a encomenda – chegou a demandar judicialmente os actuais membros do Priorado de Sião.
Relativamente a Botticelli, vale a pena recordar a última fase da sua pintura, reflexo de elevados sentimentos de uma piedade austera e grave, fruto porventura da proximidade com Savonarola, o qual não devia achar graça nenhuma ao Priorado do Sião na cidade de Florença que dominou nos finais do séc. XV.
E
– ESFINGE - «Dizia-se que o falecido presidente francês, que encomendara a pirâmide a Pei , sofria de um complexo faraónico. Responsável por ter enchido Paris de obeliscos, obras de arte e artefactos egípcios, François Miterrand tivera uma tal afinidade com a cultura nilótica que os franceses continuavam a chamar-lhe a Esfinge.» (p.31) a «pirâmide fora, por exigência expressa do presidente Miterrand, construída com exactamente 666 painéis de vidro – estranha exigência que sempre fora um tema quente entre os adeptos da teoria da conspiração, os quais afirmavam que 666 era o número de Satanás» (p.35)
Não se vê que Miterrand tenha promovido assim tanto a egiptologia, em Paris. As demais grandes obras dos seus dois septanatos como Presidente da República deixaram o Arco da DÉFENSE, o QUAI D’ORSAY e LA VILETTE. A menos que se considere que o EURODISNEY é também um sinal esotérico dos cultos egípcios da fertilidade.
Depois, o número 666 – o número da besta - é associado ao anti-Cristo, não por nenhuma fonte gnóstica, mas pelo Apocalipse.
- ESCRITA SUB ROSA - «Os Romanos penduravam uma rosa sobre o local onde se reuniam para indicar que essa reunião era confidencial. Os presentes sabiam que o que quer que fosse dito sob a rosa tinha de permanecer secreto».
A escrita a vermelho indica, na liturgia cristã, aquilo que não se lê em voz alta, mas não significa que seja segredo. A côr vermelha tem variadíssimos sentidos. Escrever sub rosa é escrever a vermelho (rosso, rojo, rouge).
F
– FLOR-DE-LIS
Sempre que virmos representada a flor-de-lis, estaremos a ser destinatários de uma mensagem alusiva ao sagrado feminino e à descendência merovíngia ?
A flor-de-lis, de acordo com a lenda, teria sido adoptada como símbolo da realeza francesa por Luís VII, depois de ter sobrevivido a uma batalha num campo coberto de lírios. Desde então ficou conhecida como flor de S. Luís, flor de luís. Nada tem a ver como Ísis.
Os especialistas supõem, porém, que o lírio heráldico, remonte a Framundo, rei dos francos, no século V. Com Carlos V (1364-80) as pétalas foram reduzidas a três, em honra da Ssma Trindade.
G
- GNÓSTICOS - «uma cadeia ininterrupta de conhecimento» (p.15)
«Uma questão séria, ignorada pelo Código Da Vinci é a seguinte: Por que devem os escritos gnósticos merecer maior credibilidade que os canónicos se foram redigidos 50 a 300 anos após os livros do Novo Testamento? É fácil criticar os escritos canónicos e pôr em causa os episódios ali relatados. Mas, sem os Evangelhos canónicos não conheceríamos o Jesus Histórico, nenhuma narrativa sobre a sua vida, nem o que disse nem como actuou ou se relacionou com os outros.
Os Evangelhos canónicos diferem dos gnósticos por se encontrarem repletos de narrativa, concretos detalhes, figuras históricas, actividade política e observações sobre a vida social e religiosa (*de resto, em sintonia com escritos da época de autores não cristãos, como Flávio Josefo).
Contrariamente à afirmação de que a Igreja primitiva roubara Jesus e encobrira a sua mensagem humana, num impenetrável disfarce divino, usado para expandir o poder, a intenção da Igreja sempre foi a de sublinhar a faceta humana e divina de Cristo e relatar a história da sua vida na terra, sem ocultar o sofrimento, a mágoa, a alegria e o sangue que tão frequentemente a acompanham. A Igreja primitiva esforçou-se em afirmar Jesus como um ser humano histórico que viveu e morreu num lugar e num tempo específico e não numa terra não situada no tempo e no espaço (a terra do nunca). Procurou que a religião cristã se ancorasse na realidade histórica, contrastando com as mitologias aleatórias reinventadas ao sabor dos caprichos de cada sábio gnóstico.
GNOSIS = conhecimento secreto, esotérico. Os gnósticos usam termos que só os próprios compreendem, de conhecimento reservado a uma elite iniciada. Os evangelhos gnósticos descrevem Jesus –não como um carpinteiro, mestre e profeta que viveu entre nós, mas como uma criatura fantasmagórica. Um espírito que, por vezes, habita um corpo e, por vezes, não. Que fala numa linguagem só acessível a um grupo restrito. Nesta corrente se baseia o Código Da Vinci.
Uma das correntes gnósticas afirmava que Jesus apenas aparentava ser um homem. Estes crentes desprezavam o corpo físico e o reino material. Se o mal envolve o reino material, por que razão Jesus teria algo que ver com esse reino? E por que razão nos deveríamos preocupar com a história da vida comum das pessoas comuns? Jesus era um dos mais altos eões - æons (=eões,eternidade), ou seres intermediários - que desceu à terra, não para sofrer e morrer, mas para libertar a divina centelha de luz retida na matéria. Não era um salvador mas um revelador. O gnosticismo era exclusivo, elitista e esotérico (oculto), acessível apenas a uns quantos.
Pelo contrário, o Cristianismo é inclusivo, aberto a todos, exotérico (comum, popular) e não esotérico, ao alcance de todos os que acreditam nas verdades da fé reveladas por Jesus e que com Ele estabelecem uma relação de amor.
É flagrante a contradição entre a afirmação de que os cristãos não acreditariam na natureza divina de Jesus e na sua ressurreição e o entusiasmo com que o pregavam e por Ele entregavam frequentemente a vida, enfrentando a morte nas arenas, nas bocas dos leões, morrendo sob o jugo da espada ou do fogo. Se Jesus não tivesse ressuscitado, os apóstolos não teriam recobrado as forças, emergindo do desalento que lhes incutiu a morte de Jesus, com confiança redobrada.
E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão. Enquanto isto diziam, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dominados pelo espanto e cheios de temor, julgavam ver um espírito. Disse-lhes, então: «Porque estais perturbados e porque surgem tais dúvidas nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho.» Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como, na sua alegria, não queriam acreditar de assombrados que estavam, Ele perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa que se coma?» Deram-lhe um bocado de peixe assado; e, tomando-o, comeu diante deles. Depois, disse-lhes: «Estas foram as palavras que vos disse, quando ainda estava convosco: que era necessário que se cumprisse tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos.» Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar de entre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas.
(S. Cirilo de Alexandria (380-444), bispo e doutor da Igreja - Comentário sobre o Evangelho de João)
"Vede as minhas mãos e os meus pés: sou mesmo eu"
Ao entrar no Cenáculo com todas as portas fechadas, Cristo mostrou uma vez mais que é Deus por natureza e que não é diferente daquele que antes vivia com os discípulos. Ao descobrir o seu lado e ao mostrar a marca dos cravos, manifestava com evidência que reergueu o templo do seu corpo que tinha estado suspenso da cruz, destruindo a morte corporal pois, por natureza, Ele é a vida e é Deus.
Quando chegou o momento de transformar o seu corpo através de uma glória inexprimível e prodigiosa, vemo-lo que se preocupa tanto em confirmar a fé na ressurreição futura da carne que quis, de acordo com o plano divino, aparecer tal como era antes. Assim ninguém pensaria que Ele tinha então um corpo diferente do que tinha morrido na cruz.
Mesmo se Cristo tivesse querido manifestar a glória do seu corpo diante dos discípulos antes de subir para o Pai, os nossos olhos não teriam podido suportar tal visão. Compreendê-lo-eis facilmente se vos recordardes da Transfiguração que anteriormente tinha ocorrido sobre a montanha.
Por isso, a fim de cumprir exactamente o plano divino, o nosso Senhor Jesus apareceu ainda, no Cenáculo, sob o seu aspecto anterior e não segundo a glória que lhe é devida e que convém ao seu Templo transfigurado. Não queria que a fé na ressurreição se baseasse num aspecto e num corpo diferentes dos que recebeu da Santíssima Virgem e em que morreu, depois de ter sido crucificado segundo as escrituras. Com efeito, a morte só tinha poder sobre a sua carne, de onde iria ser expulsa. Porque, se não foi o seu corpo morto que ressuscitou, que espécie de morte foi então vencida?
Na primeira manhã de Páscoa, não foi uma aparição fantasmagórica de Jesus que os apóstolos e as santas mulheres viram. Viram Jesus em carne e osso, mas de uma forma diferente, tal como o carvalho é diferente da bolota que lhe deu origem. Tocamos aqui no mistério de um corpo específico, não só no mistério do corpo de Jesus mas também no mistério do nosso próprio corpo, no corpo que há-de representar-nos exprimindo o melhor de nós, sem nos perturbar o espírito com fadigas e revoltas, reflectindo o que somos com tranquilidade e alegria. É um mistério para além da nossa imaginação, mas é o centro da nossa fé. À medida que envelhecemos, nada na fé faz mais sentido do que a Paixão e a Ressurreição, com a certeza de que o nosso corpo, tal como o de Jesus, tem que sofrer e morrer, mas com a convicção de que, tal como Jesus, teremos também uma vida para além da morte, uma vida de carne e osso, de corpo e alma. »
( CARL OLSON/SANDRA MIESEL - A Fraude..., ob. cit., pp. 66 e segs.)
O dualismo gnóstico
« O mal é o invólucro material ou carnal em que as partículas da luz divina caíram ao começo, na linha do mito de Dionísio na sua forma órfica. O mal não é uma transgressão ética (axiológica) mas do ser (ontológica).Enquanto que, na Bíblia, a expulsão é uma decadência radicalmente ligada a esta transgressão, a queda gnóstica é a das centelhas divinas na prisão da matéria do corpo humano. A redenção consiste em libertar-se deste invólucro carnal e regressar ao Pleroma. O ascetismo caracteriza algumas seitas gnósticas, conhecidas pela sua licenciosidade sexual, outra forma de desvalorização do corpo humano, o qual, para estes grupos, não se encontra destinado à salvação. Com Marco, chefe de uma seita gnóstica do séc. II, a actividade sexual fora do casamento é uma forma de tomada de consciência espiritual. Marco comprometia certas mulheres a tornarem-se profetisas. Ao invés, os naazenos praticavam uma forma de emasculação.
A descrição do jardim do Éden transforma-se do modo seguinte: a árvore do bem e do mal torna-se veículo de conhecimento (gnosis) estabelecida pelo reino divino do Pleroma. Ao invés, a árvore da vida torna-se veículo da escravidão e da dependência estabelecidas pelo reino do Demiurgo. O mensageiro divino do Pleroma – a Serpente – encoraja a mulher a comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Comendo, o homem descobre que o ciumento Demiurgo não é o deus supremo, mas um inimigo de Deus. É um deus invejoso porque se apercebe de que não é o único Deus. O Demiurgo lança então o homem num corpo terrestre. A serpente é o símbolo da sabedoria. A seita dos naazenos e a dos ofitas (da palavra hebraica ‘nahas’ e do grego ‘ophis’, ambas significando serpente) veneram este animal. Alguns viram nesta veneração o fascínio pelas ondulações serpentinas que sugerem o movimento circular perpétuo do universo e o poder cósmico que este movimento comporta. Depois da serpente, Eva era também venerada como iniciada de um conhecimento salvífico.
Na morte, os gnósticos fazem a experiência do despertar, deixando atrás os vestígios da mortalidade, elevando-se através do reino dos planetas, como através de um Purgatório, até que atingem o limite de tudo o que constitui o mal e franqueiam o reino eterno. Esta viagem ascendente é necessária na medida em que são os planetas, éons sujeitos ao Demiurgo, que foram os agentes da privação aos homens da luz no túmulo do seu corpo.
Antropologia gnóstica
Há três classes de seres humanos: os pneumatikoi (espirituais), os psychikoi (psíquicos) e os sarhkikoi (carnais). Os primeiros são aqueles que possuem partículas da divindade, bastando lhes despertar para herdarem o seu destino; os segundos são os que devem trabalhar para a sua salvação, sendo muitas vezes assimilados aos cristãos não gnósticos. É-lhes possível alcançar a salvação pelas obras morais de que os primeiros se encontram dispensados. A última classe é a daqueles que não têm oportunidade nenhuma de alcançar a salvação e se encontram destinados à destruição.
Homem e mulher
A diferença de géneros faz parte da maldade da criação. Originariamente, toda a vida seria andrógina ou hermafrodita, mesmo no mundo dos éons. No tratado sobre as origens do mundo, sete seres andróginos surgem no seio do caos. Têm um nome masculino e um nome feminino. No tratado Trimophica Protennoia (200 d.C.) declara-se aquela que se apresenta desde o início como Protennoia, o pensamento que permanece na Luz: «Sou andrógino. Sou mãe e pai, pois copulo comigo próprio e com aqueles que me amam e é através de mim que tudo se mantém firme. Sou as entranhas que dão forma ao Todo dando origem à luz que brilha no esplendor. Sou o Éon que virá. Sou o cumprimento de tudo, ou seja Meirothea, a glória da Mãe. Projecto som da voz nos ouvidos dos que me conhecem. E convido-vos para a luz exaltada, perfeita».
A redenção passa pela abolição da diferença sexual. Assim, lê – se no Evangelho de Tomé (logia 27) « Disse-lhe Jesus: ‘(...) Se fizerdes o homem e a mulher um só a fim de que o homem não seja mais homem nem a mulher seja mulher, então entrareis no Reino.» A última logia é ainda mais explícita: «Que Maria saia de entre nós, pois as mulheres não são dignas da vida. Disse Jesus: Vede. Eu farei dela homem para que também se torne um espírito vivo como vós, homens! Porque toda a mulher que for feita homem entrará no Reino dos Céus».
Os naazenos acreditavam que Adão tivesse sido hermafrodita. Apoiavam-se, de resto, na Epístola de S. Paulo aos Gálatas (3,28): «Não há judeu nem grego, nem escravo nem homem livre, nem homem nem mulher, porque todos vós sois um em Jesus Cristo.» O contexto soteriológico desta afirmação de Paulo não é tomado em conta pelos gnósticos, nem tão pouco o versículo imediatamente anterior: «Porque vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo: vós que fostes baptizados em Cristo, estais revestidos de Cristo».
Jesus
Para o gnosticismo dos séc. II e III Jesus é um dos éons superiores e, o mensageiro divino, aquele que vem despertar as partículas de luz precipitadas nas criaturas espirituais (os pneumatikoi) . Como éon superior, não pode encarnar, pois de outro modo participaria da materia e não poderia desempenhar o seu papel redentor. No NT encontra-se já uma advertência contra esta ideia, no início do cap. 4 da 1ª Carta de João: «Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, pois muitos falsos profetas apareceram no mundo. Reconhecereis que o espírito é de Deus por isto: todo o espírito que confessa Jesus Cristo que veio em carne mortal (sarki) é de Deus; e todo o espírito que não faz esta confissão de fé acerca de Jesus não é de Deus. Esse é o espírito do Anticristo, do qual ouvistes dizer que tem de vir; pois bem, ele já está no mundo». Alguns gnósticos contudo professam que o Cristo divino, o éon superior, desceu sobre o homem Jesus no momento do seu baptismo por João Baptista e deixou-o antes da crucificação. Nesta perspectiva, Cristo e Jesus são duas entidades diferentes, uma espiritual, a outra material. Outros sustentavam que Jesus possuía um corpo divino e não humano. Outros ainda ensinavam que Jesus era um fantasma e que embora do seu nascimento à morte tivesse parecido humano não tinha sido realmente. A aparência humana é apenas um instrumento ao serviço do fim pretendido pelo Pleroma. No cânone de Marcião o único dos quatro evangelhos tradicionais conservado, o de Lucas, foi esvaziado de todos os elementos que ligassem Jesus à história da sua época. Ora, de todos os evangelhos canónicos o de Lucas é o mais rico de pormenores históricos. Para Marcião, estes elementos são indesejáveis na medida em que apelam para o Jesus histórico e pessoal. Para o docetismo Jesus não podia ter sofrido o suplício da cruz. Quanto à resurreição, Jesus libertou-se do invólucro carnal. Este elemento gnóstico e docetista encontra-se no Corão que afirma não ter sido Jesus crucificado, mas um outro homem em sua vez.
Implicações sociais do gnosticismo
As teorias gnósticas não estão isentas de consequências sociais. Com efeito, se a concepção da realidade terrena como ‘acósmica’, ‘sem ordem’, põe em causa a existência de um direito natural, faz um juízo negativo sobre a vida e sobre a procriação, destruindo as bases da sociedade, da família e da civilização, em geral. Por conseguinte, o gnosticismo não só é alternativo ao cristianismo, como a pensamento grego e ao direito romano.
A afirmação do cristianismo sobre o gnosticismo não representa apenas uma questão intena da Igreja, mas o ponto de partida para a formação de uma civilização, a cristã, com o reconhecimento do valor tanto espiritual como temporal. Por tudo isso, o politólogo Erc Voegelin (1901-1985) interpreta a secularização do ocidente cristão como o efeito da acção de uma série de movimentos revolucionários, entre os que enumera a Reforma protestante, a Revolução Francesa, o marxismo, em que reconhece traços gnósticos comuns.
(ERMANNO PAVESI – El gnosticismo – www.catholic.net)
H
– HERESIA – laceração ou divisão profunda no seio da comunidade. «Ireneu de Lião insiste no facto de o ensino cristão ter garantia de autenticidade na ininterrupta sucessão dos bispos e dos presbíteros. Esta vinculação sugere como a discriminação do herege se situa, não só no que hoje respeita aos conteúdos do Credo, recebidos através de uma cadeia tradicional autorizada, mas também na sintonia com uma associação fraterna que determina, mediante guias constituídos e em continuidade com o património das origens, as modalidades da fé cristã». «Agostinho, que não hesita em considerar como ‘grandes homens’ os iniciadores das grandes heresias (In Psalmos, 1,24) chegará a escrever que os hereges, embora ‘fora da Igreja’, lhe prestam notáveis serviços, obrigando os católicos a procurar e sondar a verdade (De vera religione, 8,15).
(ANNIBALE ZAMBARBIERE, loc. heresia, Christos, Lisboa, 2004, p. 403)
- HIEROS GAMOS -«Ao comungar com a mulher – continuou Langdon – o homem conseguiu atingir um instante em que a sua mente ficava totalmente vazia e ele conseguia ver Deus» (p. 371)
A mulher como instrumento, ao fim e ao cabo, da gnose do homem. Depois, no meio destes rituais orgiásticos deve ter sido difícil ao Priorado de Sião estabelecer nexos de filiação exacta para preservar a linhagem do Sangue Real (Graal) !
I
– ISAAC NEWTON - «Newton está sepultado em Londres. Os seus trabalhos deram origem a novas ciências que incorreram na ira da Igreja». (p.465)
Não certamente da Igreja Católica, cuja influência na Inglaterra do séc. XVIII era inexistente. Por outro lado, Alexander Pope nem sequer esteve presente na inumação de Newton. Muito mais tarde, escreveu-lhe um poema, a título de epitáfio – Nature and Nature’s laws lay hid in night/ God said, ‘Let Newton be’ and all was light.
(MICHAEL HAAG/VERONICA HAAG - The Rough Guide to Da Vinci Code, Londres, 2004, p. 178)
- INGLÊS - « Ao contrário do francês, do espanhol ou do italiano, que tinham as suas raízes no latim – a língua do Vaticano – o inglês estava linguisticamente afastado da máquina de propaganda de Roma, tendo-se consequentemente tornado um idioma secreto e sagrado para as irmandades suficientemente eruditas para o aprenderem» (p. 364)
É bom não esquecer que cerca de metade dos vocábulos da língua inglesa têm raiz no latim.
J
– JEOVÁ (YHWH )– seria um anagrama de Yahweh (masculino) e Shekinah (p. 372)
«De modo surpreendente, Brown afirma que os judeus, no Templo de Salomão, adoravam Yahweh e a sua congénere Shekinah, mediante os préstimos de prostitutas sagradas – provavelmente, numa visão distorcida da corrupção do Templo, depois de Salomão (1 Reis, 14,24, 2 Reis 23, 4-15). Por outro lado, diz que o tetragrama JHWH resulta de ‘Jeovah’, uma união física andrógina entre o masculino Jah e o nome pré-hebraico de Eva, Havah.
Mas como poderia dizer qualquer aluno do primeiro ano de um curso de exegese bíblica, Jehovah é, na realidade, uma interpretação do séc. XVI de YHWH, usando as vogais de Adonai (Senhor). De facto, a deusa não dominava o mundo pré-cristão: nem as religiões de Roma, nem dos ditos bárbaros, nem do Egipto, nem sequer nos territórios semitas. Tão-pouco o culto de helenizado de Ísis parece alguma vez ter incluído o sexo nos seus ritos secretos»
(SANDRA MIESEL, loc. cit., p. 12)
L
– LEONARDO DA VINCI
Leonardo da Vinci, que o nosso tempo considera como a figura do génio universal, considera-se a si próprio como um iletrado – um ‘uomo senza lettere’ . Esta afirmação, feita para provocar aqueles que, em Milão, onde ele se encontra em 1487, invejam a sua posição de engenheiro do duque Ludovico, o Mouro, não é desprovida de fundamento. Destinado por seu pai a uma carreira de comerciante, Leonardo passou pela escola do ábaco (aritmética); nada sabe de latim, motivo por que procura adquirir os seus rudimentos em adulto, e ninguém o iniciou nas ‘humanidades’, ou seja, no conhecimento da literatura e da história da Antiguidade.
« A interpretação revisionista de Brown sobre Leonardo da Vinci é tão distorcida quanto o resto do livro (...) Um escritor que vê num dedo apontado um gesto de cortar o pescoço, que afirma que a Virgem dos Rochedos fora encomendada por uma ordem de religiosas e não por uma confraria masculina de leigos, que sustenta que Da Vinci recebeu centenas de encomendas chorudas da Igreja (na verdade, apenas uma ... e não executada) é simplesmente inconfiável.
A análise da obra de Leonardo é ridícula. Apresenta Monna Lisa como um auto-retrato andrógino, quando é por demais evidente que se trata de uma mulher real, Madonna Lisa, mulher de Francesco di Bartolomeo del Giocondo. (....)».
(SANDRA MIESEL – Dismantling The Da Vinci Code, in Crisis, n.º8, Set.2003 – www.santamelania.it)
M
- MAÇONARIA- « Sophie pareceu perturbada, e Langdon recordou subitamente o que ela lhe contara a respeito de o avô organizar caças ao tesouro – preuves de mérite .O criptex era, na realidade, um conceito semelhante. Por outro lado, provas como aquela eram extremamente comuns nas sociedades secretas. As mais conhecidas eram as da Maçonaria, em que os membros subiam na hierarquia provando ser capazes de guardar um segredo e submetendo-se a rituais e provas de mérito ao longo de muitos anos. As tarefas tornavam-se progressivamente mais difíceis até culminarem na admissão do candidato como maçon do trigésimo segundo grau». (p.249)
Também nos escuteiros, também em muitas profissões e nas artes marciais é comum este tipo de ascensão, mas sem o segredo.
Dan Brown faz a apologia da maçonaria sempre de forma subtil: Templo de Salomão – Templários – Construtores de Catedrais – Maçonaria; o pentáculo (o compasso e o esquadro).
«A Maçonaria é uma fraternidade mundial. Os seus membros estão juntos pela partilha de ideais de natureza moral e metafísica e, na maioria dos seus ramos, por uma crença comum num Ser Supremo. A maçonaria é esotérica, pois certos aspectos da sua actividade interna não são revelados ao público. Os maçons dão várias razões para tanto, uma das quais é a de que a maçonaria usa um sistema iniciático de graus para pôr à prova questões éticas e filosóficas e o seu sistema seria menos eficaz se o observador soubesse de antemão o que irá acontecer. Geralmente, chama-se a si própria ‘um peculiar sistema de moralidade envolto na alegoria e ilustrado por sómbolos»
– MARIA MADALENA - « A Igreja precisava de difamar Maria Madalena para encobrir o seu perigoso segredo: o papel dela como Santo Graal.» (p. 293)
«Sempre que Maria Madalena aparece (nos evangelhos canónicos), é em situações dignas de elogio. Apesar disto, a tradição acabou por converter esta mulher, discípula principal do Senhor e testemunha privilegiada da ressurreição, numa rameira penitente. Que se terá passado ?
Tudo começou com a referência misteriosa de Lucas quando fala dela pela primeira vez: «dela haviam saído sete demónios» (Lc 8,2). Os leitores perguntavam-se : que quer isto dizer? E imaginaram: se teve sete demónios (número simbólico que indica a gravidade da situação), é porque o seu passado deve ter sido vergonhoso e degradante.
Mas os leitores da Bíblia continuaram a perguntar: em que momento é que Jesus expulsou os sete demónios de Madalena? Isto, porque, até aqui, o Evangelho de Lucas só havia referido a cura de uma única mulher: a sogra de Pedro (Lc 4, 38-39). Quando é que esta outra cura teve lugar? Pensaram então ter encontrado a resposta numa segunda mulher, a pecadora pública que foi ter com Jesus, buscando o perdão dos seus pecados e que Lucas apresenta antes da aparição em ‘cena’ da Madalena.
Com efeito, Lucas diz que, um certo dia, Jesus foi convidado a comer na casa de um fariseu chamado Simão. Enquanto estavam à mesa, entrou uma mulher que era uma pecadora pública e, atirando-se aos pés de Jesus começou a chorar. Depois, desatou a cabeleira e, com ela, começou a enxugar-lhe os pés molhados pelas lágrimas. Seguidamente, pôs-se a beijá-los e a ungi-los com perfume. O dono da casa reconheceu imediatamente a mulher: era uma pecadora famosa em toda a cidade e ficou admirado pelo facto de Jesus se deixar tocar por ela.
Jesus, no entanto, sabendo o que ia na cabeça de Simão, defendeu a mulher. Além disso, aproveitou para o criticar porque, como dono da casa, deveria ter observado certos ritos de boas vindas quando da chegada de Jesus (lavar-lhe os pés, beijá-lo, perfumá-lo) e ele não havia feito nada disso. Ao contrário, a mulher, chorando e pedindo perdão pelos seus pecados, havia-se mostrado humilde e agradecida para com Jesus (Lc7, 36-50).
Terminado este relato, Lucas fala pela primeira vez em Maria Madalena (8, 1-3). Então, parece óbvio pensar que pela prostituta anónima que havia chorado pelos seus pecados e havia sido perdoada por Jesus, fosse precisamente a dos sete demónios, à qual Lucas, por delicadeza, não quis nomear para não a pôr em evidência diante dos leitores.
Uma vez convertida em prostituta, aconteceu uma nova confusão. Isto, porque S. Marcos conta que Jesus, poucos dias antes da sua morte, foi de novo convidado para comer, desta vez em Betânia, onde outra mulher se aproximou dele com um frasco de perfume muito caro e lho derramou sobre a cabeça. Os que estavam presentes indignaram-se contra ela pelo desperdício de dinheiro que acabava de fazer. Jesus defendeu-a e aprovou a sua atitude (Mc 14, 3-9).
O facto desta mulher (de Marcos) aparecer a fazer quase a mesma coisa que a pecadora (de Lucas) levou a pensar que se tratava da mesma pessoa, Maria Madalena. Assim, as três mulheres (Maria Madalena com os seus sete demónios, a pecadora anónima e a mulher de Betânia) passaram a ser uma só.
(...) Aberta esta porta, não houve piedade para com a pobre Madalena. A tradição posterior identificou-a ainda com a samaritana promíscua dos seis maridos (Jo, 4) e até com a adúltera surpreendida em pleno escândalo (Jo 8).~
Muitos Santos Padres se opuseram a estas interpretações, como foi o caso de Sto. Agostinho (séc. IV) , Sto. Ambrósio (séc. IV), Sto. Efrém (séc. IV). Mas o papa S. Gregório Magno, numa célebre homilia pronunciada na basílica de S. Clemente, em Roma, na sexta-feira, 14 de Setembro de 591, fixou de uma vez por todas a sua identidade.»
(ARIEL ALVAREZ VALDÉS – Enigmas da Bíblia: Novo Testamento, Difusora bíblica,Lisboa, 2004, pp.175 e segs.)
Já todavia na tradição cristã do oriente, nunca houve qualquer confusão. Por outro lado, sempre se acreditou na morte de Madalena em Éfeso, junto de Maria, Mãe de Jesus e de João.
N
– NEW AGE
«O crescimento contínuo do movimento New Age é uma de entre tantas manifestações do retorno religioso na forma de neopaganismo e de gnose. O New Age propõe uma nova forma de religiosidade que, por algumas manifestações próprias coincide com o sentimento religioso contemporâneo.
Mas, o que é exactamente o New Age? Uma nova moda religiosa? Uma evasão do mundo real ou a projecção de um mundo cheio de ilusão? É aquilo a que alguns chamam o regresso ao IV Reich? Ou ao invés é uma nova mentalidade religiosa que surge n mundo científico, frio e sem sentido transcendental no Ocidente?
(...) Os crentes católicos devem conhecer estas novas sensibilidades religiosas que falam de sincretismo, negam a revelação cristã e propugnam o culto do eu e de numerosas falsificações da fé cristã.
1) Definição e origem
a) O que é o New Age ?
É um conjunto de práticas aparentemente heteróclitas, mas unificadas por uma visão de humanização total (holista): técnicas de ‘ampliação da consciência’ e medicina da alma, astrologia ou channeling (comunicação com a entidade do mundo invisível), controlo do corpo por meio de artes marciais e através do isolamento sensorial ou terapias inócuas; controlo da natureza, ecologia (radical) ou o vegetarianismo. O New Age é um novo modo de ver a realidade das coisas. Segundo o definem os próprios fundadores, este movimento é ‘um novo paradigma’.
Por outro lado, Donald Leonard afirma que é um ‘lago esotérico e misterioso de onde fluem as correntes dos anos 60: ecologistas, movimentos radicais, ambientalistas e pacifistas. O movimento da Nova Era busca a libertação da natureza humana e cósmica das suas múltiplas dores e sofrimentos, não através de paradigmas políticos ou ideológicos, embora o New Age esteja ligado ao Partido Verde, mas por via da meditação e do conhecimento. Faz com que a humanidade penetre no nível de conhecimento espiritual-planetário, paraentrar numa ‘nova era’ caracterizada pela paz e pela felicidade.
A conhecida newager Marilyn Ferguson afirma que o New Age é uma ‘rede sem líderes, que trabalha para realizar mudanças radicais nos Estados Unidos’. Mas, segundo Franc Rodé, trata se de ‘um supermercado de religiões de onde cada um toma o que lhe agrada e deixa o resto’. E segundo as pesquisas sociológicas, trata-se de uma religiosidade destinada a converter-se num fenómeno de massas pela sua ambiguidade, pela sua força e capacidade de servir ao romantismo e ao sentimentalismo religioso da sociedade actual.
b) Origem e inspiradores
À pergunta de como nasce o New Age podemos responder que possui duas fontes principais de nascimento: a corrente do Aquário com Paul Le Cour e a Sociedade Teosófica com Alice Balley.
M.F. Jacques define com o nome de ‘percursores da era de Aquário ‘as correntes esoterocultistas, nascidas na segunda metade do século XIX. Este pensamento esotérico trata da transformação da civilização: de cada vez que o sol entre num novo signo zodiacal, isto é, à volta de cada 2.160 anos. A última transformação verificada foi a do cristianismo na Era de Peixes. Como tal, a próxima grande mudança, acompanhada pelo advento da era de Aquário, corresponderá a uma hecatombe, a que se seguirá a vinda de ‘um grande Rei’, o regresso do Cristo-Aquário e que marcará o início da idade de Ouro. A nova religião, então, será um esoterismo cristão e gnóstico, baseado no Evangelho de S. João, o verdadeiro evangelho de Aquário.
Também Alice Bailey (1880-1949), discípula da Sociedade Teosófica, esperava a transição para uma Nova Era, em que se reconciliariam todas as religiões na identidade das suas origens, baseada no que ela denominava a verdade eterna. Bailey desenvolveu as ideias gnósticas de Helena Blatavsky (1831-1891), como a nova encarnação do Cristo cósmico. ‘A doutrina teosófica da Sra. Blatavsky estriba-se num esquema de tipo gnóstico-neoplatónico; unidade essencial do todo, lei cósmica (karma), manifestações do espírito na matéria (avatara) e o regresso do homem ao espírito’. Crrar-se-ia uma religião mundial em que Deus será semelhante ao Brahman hindu, anunciado por todos os avatares, como Cristo, era após era. O espírito da Nova Era está na lei da reencarnação e continuará a revelação pelo no Salvador ou avatar.
2) Características
A característica principal do New Age é a sua preferência pela reflexão oriental de estilo panteísta, como caminho para viver uma nova religiosidade. Propugna um sistema religioso em que Deus se dissolve no divino e vem a ser uma ‘energia cósmica’. Deus identifica-se com o último da realidade das coisas, especialmente com a psique humana. O movimento da Nova Era busca o transcendente e não o sensível, para se libertar totalmente do terreno e unir-se à consciência cósmica ou consciência colectiva. Exclui a noção de criação e refuta toda a visão dualista do real.
Também se trata de uma visão ‘científica’ da realidade, baseando-se no holismo e na evolução. O holismo da física moderna, que identifica a matéria com as ondas da energia faz do universo, segundo Fritjof Capra, um ‘oceano de energia’ de onde tudo nasce, participa da mesma realidade e encontra-se em evolução constante.
Como técnicas, o New Age adopta a música, a dança, a arte, em geral, as artes marciais, o ioga, o budismo zen, o misticismo, a busca da sabedoria nas civilizações antigas, a magia, as drogas (naturais), o contacto com a natureza (a deusa Gaia) e outros métodos e técnicas. Utiliza a psicologia de Jung (consciência colectiva) e a psicologia humanística de Maslow que se baseia na experiência da unidade com o cosmos.
O New Age busca uma transformação cultural da sociedade, que inclui a substituição das religiões em nome de uma Nova Era. Este movimento nega também as verdades fundamentais da fé cristã, se bem que tenha como texto básico de estudo a Bíblia, especialmente o Evangelho Segundo S. João.
3) A fé do New Age
O New Age exprime uma concepção inovadora do mundo (do cosmos, na sua concepção mais exensa) com os seguintes adjectivos: holística (a realidade das coisas encontra-se no Todo), ecológica (a deusa Gaia é a Terra-Mãe que deve ser adorada), andrógina (o mundo é uma união do masculino e do feminino), mística (o divino pertence a um Todo) e mundial (consciência colectiva).
Neste movimento, transita-se da fé simples ao gnóstico ou às crenças ocultas, da religião à espiritualidade, da oração-súplica à oração-mantra, da obediência à experiência... A fé encontra-se fundamentada numa espiritualidade esotérico-mística em que se procura a unidade com uma visão totalizante das coisas. Promovem-se técnicas para explorar as fontes do Ser e do Uno onde se reforça o narcisismo do ego.
Na fé do New Age, há um profundo sentimento de vazio existencial e de um desejo divino não preenchido, em que se procuram razões para viver. O espiritual identifica-se com o emocional, aparece o culto de um mesmo e existe um misticismo pagão em que se adora uma divindade sem nome.
O mundo caminha para ‘uma maior unidade’ (nas palavras de Teilhard de Chardin). A cosmogénese, ou a organização da matéria em aglomerações sempre diversificadas, com o passar do tempo, produz a biogénese, ou a vida na terra. A vida cria a biosfera que se desenvolve nas formas mais complexas até chegar à criação do cérebro. Aqui encontramo-nos na antropogénese, a ascensão até ao homem. O homem é o resultado final por cima de todos os seres do universo. Por isso, o homem é pessoa enquanto é consciência pensante de si mesmo. Depois, tem origem um desenvolvimento de nível cósmico: a consciência não é apenas vida, mas reflexão. Então, a unidade atinge o domínio absoluto sobre a própria evolução e pode decidir sobre si mesma. Posteriormente, o homem evolui para a noegénese ou a génese do espírito, criando uma nova era de luz e amor.
O objectivo planetário do New Age é a criação de um sistema nervoso verdadeiro e próprio da nova humanidade: a comunidade científica mundial (edicação mundial). Esta é a transformação da era do Aquário que nos levará ao Ómega que é a realidade total e totalizante, o primeiro motor da actividade humana que possui dimensões universais. Também é incorruptível, transcendente, unificadora. É o Amor Divino.
Gnose e razão encontram-se relacionadas entre si, e isto deve-se a uma dúvida fundamental, contemplando a capacidade da razão e da consciência moderna de responder às mais profundas interrogações do homem. O objectivo dos neognósticos ou New Age é reconduzir o abismo que o saber puramente racionalista (positivismo e materialismo ateu) produziu no mundo, desiludido, todavia, e sem esperança.
A revista NEWSWEEK publicava, não há muito tempo, uma análise sobre as inclinações espirituais e religiosas nos Estados Unidos, indicando que a lei da oferta e da procura e os truques comerciais que se estão a aplicar já às diferentes comunidades religiosas cristãs.
Deste modo, a lei do mercado faz com que a eficácia de um pastor protestante ou de um sacerdote católico não semeça pelo seu exemplo de fidelidade às Sagradas Escrituras ou à pregação própria, mas à quantidade de gente que acorre à igreja e à quantidae de dólares arrecadados nas cerimónias religiosas. Assim, para que a religião convença deverá observar as ‘prescrições de qualidade’ próprias de um mercado competitivo, porque aparentemente isto é do que se trata, de ganhar clientela. A NEWSWEEK aponta três:
1. Apresenta-se como um cardápio de restaurante. As diversas confissões e igrejas oferecem doutrinas entre as que cada pessoa escolhe, segundo os seus gostos. Não se trata de pertencer a uma determinada fé, mas de i-la fazendo à medida, escolhendo um pouco desta religião e um pouco de outra.
2. Religiosidade entendida como feeling ou sentimento. Não existe interesse nenhum pela formação religiosa nem pelo aprofundamento da fé ou nos fundamentos próprios da religião. As crenças que se admitem são epidérmicas e não exigem uma adesão de compromisso com nenhuma religião em concreto.
3. Religião fácil. É uma religiosidade baseada numa intensa vida social, com vista a satisfazer o sentimento religioso próprio de todos.
Por outro lado, o credo New Age é ambíguo e procura a satisfação de todos os gostos e meios espirituais a escolher. Evidentemente, possui ‘dogmas’ ou directrizes adoutrinais, ainda que não se apresentem como tal:
1. Recusa radical da filosofia e da religião da Old Age, ou seja, frontal oposição à cultura judaico-cristã. Promove as religiões pagãs (ritos celtas, mitologia germânica).
2. Confronta o dualismo ocidental denominado ‘Deus e homem’, considerando que a humanidade é una, a natureza e a humanidade uma só realidade, o universo e Deus são um só.
3. Propõe o livre exame da percepção da realidade, onde cada um interpreta como quiser as religiões e a realidade existencial que as rodeia, frente ao dogmatismo das religiões tradicionais.
4. Prega a Era de Aquário que teoricamente nos trará uma era de harmonia e paz cósmica ao longo do Terceiro Milénio. Nascerá assim uma nova religião, sob a chegada de um Cristo Aquário libertador.
Frente a este credo, encontramo-nos com outra realidade e o facto é palpável na expansão vertiginosa do New Age por todo o globo – múltiplos seminários, um sem fim de cursos, revistas e livrarias. Concretamente, criaram-se cerca de 50.000 centros e livrarias New Age que, com imagens e rótulos diversos, se reproduzem por todo o lado, comercializando todo o tipo de objectos, plantas, curiosidades diversas. Há cerca de 100.000 livros publicados sobre qualquer tema que desenvolva um pensamento newager, como se tratasse de apostolado escrito. No mais, pululam numerosos supermercados e farmácias especializados em alimentos newagers (alimentos ecológicos, vegetarianos, de relaxe) e medicinas alternativas.»
(New Age: el retorno del gnosticismo? Una nueva moda religiosa ¿ in www.conoze.com)
O
– OPUS DEI – cilício (p.23), proibição de fechaduras em Lexington Avenue (p.23), «os pecados que cometera naquele dia tinham sido santos no seu objectivo. Havia séculos que o direito sagrado sancionava a guerra contra os inimigos de Deus. O perdão estava garantido. Mesmo assim, Silas bem o sabia, a absolvição exigia sacrifício.» (p. 25), «mortificação corporal aconselhada por mons. Escrivá (p. 25) «Dois meses antes, um grupo da congregação numa universidade de Mid West fora apanhado a drogar novos recrutas com mescalina na tentativa de induzir um estado eufórico que os neófitos tomassem por uma experiência religiosa. Um outros estudante universitário usara o seu cilício durante mais tempo do que as recomendadas duas horas diárias e contraíra uma infecção que quase o matara. Em Boston, bastante recentemente, um jovem e desiludido banqueiro doara as poupanças de uma vida inteira à Opus Dei antes de tentar suicidar-se» (p.45). «A Opus Dei é uma prelatura pessoal do próprio Papa» (p. 46)
Aqui temos o exemplo de cruzamento entre ficção/informação, desta feita selada pelo jornalismo, como garantia de veracidade.
Prelatura pessoal significa jurisdição pessoal e não territorial, como é próprio da jurisdição dos bispos nas suas dioceses (cânones 294 e segs. do Código de Direito Canónico, de 1983). Para Dan Brown é uma espécie de Guarda Suiça do Papa, mas oculta e muito mais poderosa.
Publicado por jmeq em
11:01 PM